No traço de Afonso Cruz, a cultura é a salvação da violência

Afonso Cruz, escritor, cineasta, músico e ilustrador, assina a imagem oficial da 7ª edição do Festival Literário de Macau – Rota das Letras. O autor português apresenta-nos um conceito que gira em torno de um conflito em iminência e sugere a cultura como um lugar de conciliação.

 

Joana Figueira

 

Os livros não salvam a humanidade, mas podem ser uma arma de sabedoria, abertura e aproximação de pessoas e ideologias. Os livros são cultura e são espaço de diálogo. Afonso Cruz quer mostrá-lo através da abordagem gráfica que pensou para a imagem oficial da 7ª edição do Festival Literário de Macau – Rota das Letras, que este ano assina. O destaque que, nesta edição, o evento dispensa às realidades distintas que rodeiam a Coreia do Norte foi o ponto de partida para uma obra que não quer senão apontar a cultura como resposta ao conflito.

Estados Unidos da América e Coreia do Norte. Uma relação inflamada por palavras de provocação e de ameaça entre dois líderes que têm vidas nas mãos. Afonso Cruz, escritor, cineasta, músico e ilustrador, recusou que a caricatura cumprisse a sua função dando espaço às imagens de Donald Trump e Kim Jong-un. “Pensei que não gostaria muito de particularizar. Preferi ter um conceito à volta da guerra e do medo da guerra, sim, mas com um pendor positivo. Ou seja, mostrar que a cultura e a abertura – porque a cultura gera novas maneiras de pensar – podem, de alguma maneira, evitar a guerra”, disse o autor ao PONTO FINAL.

Quem é a personagem, não é relevante, “poderia ser um leitor, poderia ser um músico, poderia ser outra coisa qualquer”. O livro, objecto de “conhecimento e de ideias”, que alarga as perspectivas de uma sociedade, assume, aqui, o mesmo papel icónico que um guarda-chuva pode ter: “Uma protecção contra o mal”. “Pensei num leitor a proteger-se de mísseis com um livro”, explicou Afonso Cruz.

“Eu tinha bastante liberdade. Poderia falar simplesmente de livros (…), da iminência da guerra entre Coreia [do Norte] e Estados Unidos, ou misturar as duas coisas, etc. Optei por esta terceira hipótese que era misturar um pouco a ideia desse conflito iminente com a cultura”.

Ao mesmo tempo que joga com as transparências, o ilustrador recorre a elementos gráficos geométricos que vai multiplicando e sobrepondo até chegar ao destino. O processo de criação não conhece retrocessos e recomeços, já que até mesmo os esboços iniciais são feitos apenas depois de um conceito maduro. “Quando faço ilustração, costumo sentar-me depois de ter uma ideia. Portanto, eu tenho de ter a ideia na minha cabeça antes de a concretizar, e não estou a esboçar até chegar à ideia”.

Afonso Cruz fez a sua incursão na ilustração em 2007, quando começou a ilustrar livros infantis. Até agora ilustrou cerca de 30 livros para crianças, trabalhando com autores como José Jorge Letria, António Torrado e Alice Vieira. Antes, dedicou-se à realização de filmes de animação e a escrita já lhe valeu prémios como o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2010, o Prémio Literário Maria Rosa Colaço, o Prémio da União Europeia para a Literatura 2012, o Prémio Autores 2011 SPA/RTP ou o Prémio Autores para Melhor Ficção Narrativa, atribuído pela SPA, em 2014.

“São formas de expressão. Todas elas têm um fundo comum. Há algo que as liga de uma maneira essencial, que é a criatividade. (…) Às vezes tenho uma ideia e julgo que ela é mais eficaz se for passada através da música, outras vezes através do desenho, às vezes através da escrita. Todos estes meios de expressão têm as suas vantagens e as suas desvantagens e cabe a cada um imaginar, ou até prever”, contou.

Foi a escrita que o trouxe pela segunda vez a Macau – a estreia no território aconteceu no ano da transferência de soberania de Portugal para a China –, em 2014, como um dos autores portugueses a participar no Festival Literário de Macau – Rota das Letras. Para o livro “Regra de Três”, terceiro tomo da colecção de Textos e Outros Escritos sobre Macau, publicado pelo Rota das Letras, Afonso Cruz escreveu o conto “Doce de Arroz para a Eternidade”, editado em português, chinês e inglês em 2015.

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