Carlos “Neu-Néu” Coelho, o homem que amava o patuá

A morte do actor e antigo professor primário Carlos “Neu-Néu” Coelho, na passada sexta-feira, fez desvanecer um pouco do patuá e da identidade macaense. A sua última presença em palco na peça “Pápi Tá Ferado”, do grupo de teatro Dóci Papiaçám di Macau, em 2000, ainda inspira elementos das gerações mais jovens a preservar a herança macaense.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cláudia Aranda

 

“Macau e a comunidade perdem um dos falantes do patuá, com conhecimento da língua. Um dos fiéis do velho patuá, um homem que tinha gosto e sentia amor pelo idioma”, afirmou ontem ao PONTO FINAL o dramaturgo e presidente da Associação dos Macaenses (ADM) Miguel de Senna Fernandes, em reacção à morte de Carlos “Neu-Néu” Coelho, como também era conhecido.

“O Carlos era também um excelente actor e excelente cómico. O público ficava galvanizado com ele, era um elemento brilhante do nosso grupo, sempre lamentei o seu afastamento. Era também uma pessoa muito sensível e susceptível. Há dias recebi a triste notícia de que uma queda lhe provocara a morte”, lamentou o responsável pelo grupo de teatro Dóci Papiaçám di Macau e também presidente da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM).

Os Dóci Papiaçám vão fazer uma homenagem ao actor, por ocasião do 25º aniversário do grupo de teatro, ou mais cedo, no Festival de Artes de Macau, adiantou Miguel de Senna Fernandes ao PONTO FINAL. “Apesar das diferenças, ele influenciou o grupo e é uma pessoa a quem o grupo deve muitas risadas e muitas palmas”, prosseguiu o dramaturgo.

Carlos “Neu-Néu” Coelho era conhecido por ser um dos poucos falantes fluentes do patuá no território, idioma que o antigo professor primário e actor fazia questão de usar no quotidiano. A sua eloquência na língua crioula de Macau e o talento teatral foram elementos inspiradores para as gerações seguintes que vieram a integrar o grupo de teatro Dóci Papiaçám di Macau. Era membro preponderante da irmandade do Senhor dos Passos, frequentou o magistério primário e a antiga Escola Comercial Pedro Nolasco. Carlos “Neu-Néu” Coelho faleceu na passada sexta-feira, e com ele desapareceu também um pouco da língua e da cultura macaenses.

A notícia da sua morte tem sido muito lamentada pelo público através das redes sociais, sobretudo pelo Facebook, uma das ferramentas que ele usou nos últimos anos para divulgar a língua que o próprio fez questão de nunca deixar de utilizar.

 

Um macaense exemplar

 

Para José Basto da Silva, além de um notável falante de patuá, Carlos Coelho era um macaense “exemplar”.  “É um grande choque e foi com muita tristeza que recebi esta notícia, muita pena mesmo. Não era só a questão do patuá, ele de facto tinha brio em ser macaense, fazia ‘posts’ no Facebook com fotografias da casa, da mesa com ornamentos à antiga moda macaense, móveis chineses com símbolos cristãos, a cruz e a Nossa Senhora, celebrava eventos cristãos, mas também festividades chinesas. Era um macaense típico, uma pessoa muito peculiar. Simpatizava bastante com ele, penso que é uma grande perda para todos nós”, afirmou o actor do grupo Dóci Papiaçám e presidente da Associação dos Antigos Alunos da Escola Comercial Pedro Nolasco.

Tristeza é o que também expressou a investigadora Elisabela Larrea, que disse sentir que, com o desaparecimento de Carlos Coelho, também o patuá morreu um pouco. “A sua morte significa que o patuá está a morrer lentamente, pouco a pouco estas pessoas que são especialistas na língua estão a desaparecer e não sei como expressar a tristeza. É realmente muito pesaroso saber que alguém que fala tão bem o idioma já cá não está”, considerou a investigadora em cultura e identidade macaense.

“O Carlos Coelho conversava em patuá com a maior das naturalidades. Infelizmente é um hábito que está em declínio, por falta de uso. É uma língua que está a desaparecer aos poucos, espero que o grupo de teatro e a comunidade macaense consigam suster este declínio, se possível, voltar a retomar o uso do patuá”, acrescentou José Basto da Silva.

O médico Fernando Gomes recorda Carlos Coelho do tempo em que foram colegas na Escola Primária Luso-Chinesa Sir Robert Ho Tung, no início da década de 80. Aos 17 anos, Fernando Gomes prosseguia os estudos durante a noite, enquanto que de dia ensinava a língua portuguesa, tendo sido Carlos Coelho quem o apoiou e deu orientação pedagógica. “Acabei por conhecer o Carlos Coelho como uma pessoa muito prestável, amigo do amigo, sempre disponível. Na escola era uma pessoa muito querida, as crianças adoravam-no, os colegas também, era uma pessoa encantadora”, afirma o médico, que recordou Carlos Coelho também como cozinheiro exímio e promotor do folclore português e das danças tradicionais chinesas.

 

Um actor hilariante

 

Passaram já quase 18 anos desde a última presença de Carlos “Neu-Néu” Coelho em palco na peça “Pápi Tá Ferado” – em português, “Pai, ‘tás lixado” -, lado a lado com outra figura notável do grupo de teatro Dóci Papiaçám di Macau, Anabela Granados, numa peça integrada na XI edição do Festival de Artes de Macau, em 2000.

Esta actuação deixou, todavia, memórias bem vivas nas gerações seguintes. Elisabela Larrea lembra-se de assistir ao espectáculo, a sua primeira experiência em patuá. “Foi uma actuação brilhante, ele conseguia captar a atenção do público e provocar muitas gargalhadas. Eu acho que ele é uma pessoa realmente significativa no campo da preservação e promoção da língua patuá”, afirmou a investigadora, para quem usar o idioma representa a melhor maneira de preservar e promover uma língua.

Foi isso que Carlos Coelho fez, segundo Elisabela Larrea, notando ainda que “a sua pronúncia e habilidade para se converter em patuá ofereceram muito material para aprendizagem”.

José Basto da Silva viu os filmes em que Carlos Coelho participou com Anabela Granados, que o influenciaram a juntar-se ao grupo de teatro. “Foi um apelo fantástico, não eram só as piadas e a boa disposição das cenas, mas era também vê-lo falar patuá com aquela naturalidade. Era um bocado um símbolo, o último daquelas famílias macaenses que falavam patuá no dia-a-dia. Na altura, despertou aquele sentimento de herança, creio que terá havido mais pessoas que se motivaram por essa via”, disse.

 

Um génio, com um feitio muito especial

 

Carlos Coelho integrou a primeira geração de actores dos Dóci Papiaçám di Macau, em 1994. “Ele era muito criativo, nas minhas peças dou sempre liberdade para criar e o Carlos criava sempre uma personagem praticamente nova, sem deixar o que tinha que fazer segundo o guião. Criava uma personagem porventura mais macabra, só para ser mais cómico. Era um grande actor, com um volume de voz admirável”, descreveu Miguel de Senna Fernandes.

No entender do dramaturgo, Carlos Coelho “era seguramente um dos melhores falantes de patuá”: “Ele falava por gosto, a mãe falava, toda a família falava, ele convivia com falantes de patuá. Em Macau temos poucas pessoas que possam falar o patuá antigo, e ele falava. Não se tratava só da pronúncia, ele pronunciava muito bem, era também a construção frásica. Quando comecei a escrever inspirámo-nos um ao outro. Nós trocávamos muita coisa, na altura éramos muito próximos, muito amigos, e ajudávamo-nos a tirar dúvidas, tínhamos essa cumplicidade. O afastamento do grupo, para mim, foi uma grande pena. Era um génio nas coisas que fazia, se calhar porque tinha um génio muito especial”, acrescentou o dramaturgo.

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