Inventar Macau na lisura do écrã

Ciclo de cinema no Museu do Oriente dá a ver Macau ao público lisboeta e é, em simultâneo, o princípio de um processo de redescoberta de um espólio audiovisual com muitos segredos por revelar.

Sara Figueiredo Costa, em Lisboa

 

A vivacidade que nos últimos anos tem caracterizado o cinema de e sobre Macau não tem correspondência nos arquivos audiovisuais portugueses. Conhecem-se alguns filmes de propaganda, durante o Estado Novo, registos amadores feitos por gente que se apaixonou pelo território, alguns documentários pós-transição e pouco mais, até à chegada de uma nova vaga de realizadores chineses e portugueses que, a partir dos anos 90, mas sobretudo a partir do início deste novo século, imprimiram um novo fôlego à ficção e ao documentário em registo audiovisual. No Museu do Oriente, em Lisboa, um ciclo de cinema percorre a pluralidade de olhares que dedicaram a sua atenção a Macau, plasmando nos écrãs um imaginário heterodoxo, feito de memória, exotismo e algum saudosismo, mas também de vanguarda, reflexão sobre o presente, vontade de criar com as imagens uma complexa manta estatigráfica onde muitos mundos convivem num espaço comum.

Na primeira sessão deste ciclo, que contará com sete sessões no Museu do Oriente e mais três na Cinemateca de Lisboa (ainda com datas a anunciar), mostraram-se filmes de Antunes Amor, Ricardo Malheiro e Miguel Spiguel, para além de um documentário realizado pelo Exército em 1960. Com excepção do filme “Macau – Cidade progressiva e monumental”, de Antunes Amor, os filmes exibidos no arranque do ciclo são todos marcados pelo olhar do regime político português, num tom propagandístico que mostra o território como um lugar exótico, paradisíaco, marcado pelo são convívio entre comunidades e exemplar no que à capacidade de construção urbanística e social do governo português diz respeito. Muitas imagens repetem-se entre filmes, da Avenida Almeida Ribeiro num caos de gente, riquexós e alguns carros à Rua da Felicidade, das igrejas portuguesas às águas (naquela altura ainda brilhantes) do Rio das Pérolas. Jogo clandestino nem vê-lo. O mesmo se pode dizer de qualquer vestígio de conflito social ou necessidade infra-estrutural. Como explicou ao Ponto Final Maria João Piçarra, jornalista e crítica de cinema que organiza este ciclo, a ideia inicial da primeira sessão era «tentar contrapor o olhar de um cineasta amador, o Antunes Amor, ao olhar dos homens da propaganda do regime. O Antunes Amor viveu mesmo em Macau, ao contrário dos outros, e apaixonou-se por Macau, assim como por Goa, onde também viveu, e durante esse tempo faz vários filmes amadores e escreve um documento que está disponível no site da Cinemateca Digital sobre as utilizações do cinema para fins pedagógicos. Este filme de hoje tem data de 1935, mas na verdade é anterior, porque a datação da Cinemateca corresponde ao ano da distribuição, e integra um conjunto de filmes que terá sido mostrado em exposições internacionais, nomeadamente na Exposição Colonial de Antuérpia, em 1930, em representação das colónias portuguesas. É o filme de um apaixonado pelo território e estas imagens, que devem ter sido feitas em 1924, são, na verdade, as primeiras imagens filmadas que conhecemos de Macau, porque só nos anos 50 é que Macau volta a ser filmado por portugueses. Talvez haja outras imagens de Macau em arquivos internacionais, acredito que sim, mas estas são as primeiras que realmente conhecemos.»

Às imagens quase líricas de Antunes Amor seguiram-se dois filmes de Ricardo Malheiro, ambos promovidos pela máquina de propaganda do regime, e um filme a cores de Miguel Spiguel, o realizador que mais filma Macau nestas décadas, muitas vezes em tom propagandístico, mas igualmente em registos mais autorais. Um dos filmes de Ricardo Malheiro acompanha a visita oficial do Ministro do Ultramar, Sarmento Rodrigues, a Macau, em 1953, cruzando os elogios ao exotismo da cidade com imagens de inaugurações, visitas a instalações oficiais e religiosas, paradas militares que documentavam a visita ao mesmo tempo que ampliavam no écrã o vigor e a disciplina das tropas portuguesas espalhadas pelo mundo. O filme de Miguel Spiguel tira partido da cor para acentuar a ideia de exotismo que todos estes filmes contêm, mostrando uma cidade e um território onde tudo se apresentava como diferente, original, bizarro, tudo menos a gloriosa administração portuguesa, repartida entre o Palácio da Praia Grande e o Leal Senado, espalhando a sua influência até às portas da China. A fechar a sessão, um documentário feito pelo Exército Português, cujo registo se encontra já muito degradado, e onde a vontade de encontrar traços portugueses em Macau chega ao extremo de se afirmar que nas práticas religiosas dos pescadores do território se encontram “reminiscências budistas dos pescadores da Nazaré”.

Quando começam a surgir os primeiros filmes de propaganda sobre Macau, há um novo contexto a enquadrar a questão colonial, como explicou a responsável pelo ciclo: «A partir de 1951 há um esforço para generalizar a teoria do Lusotropicalismo, do Gilberto Freyre, que é convidado pelo Ministro do Ultramar, Sarmento Rodrigues, para visitar todas as colónias portuguesas. E nesse convite reflecte-se a preocupação de mostrar que há marcas portuguesas muito fortes nos vários territórios, mas talvez Macau fosse o território onde seria mais difícil mostrar isso, o que pode explicar algumas afirmações quase risíveis destes filmes, como a dos pescadores da Nazaré, ou a convivialidade amigável em toda a parte. Estes são filmes que reflectem a ideia de que tudo aquilo seria uma coisa completamente exótica para quem vivia na metrópole. E não nos esqueçamos que não eram só pessoas que viviam nos centros urbanos; a maioria da população vivia em zonas rurais, era iletrada e nunca teria visto imagens como aquelas portanto é natural que essa ideia de exótico seja explorada por estes filmes.»

Para além dos quatro filmes exibidos na primeira sessão deste ciclo, os registos audiovisuais nacionais não guardam muito mais material sobre Macau. Maria João Piçarra tem estado a desenvolver um trabalho de investigação nesse domínio, pesquisando nos arquivos da Cinemateca e procurando descobrir que outros arquivos poderão incluir material semelhante, mas parece certa a escassez de filmes sobre o território na fase anterior à transição para a administração chinesa. Os motivos desta escassez em comparação, por exemplo, com os filmes realizados nas antigas colónias africanas serão políticos, mas sobretudo económicos, como explicou a investigadora ao Ponto Final: «Essa é uma questão muito importante, porque eu queria desde já deixar a ideia de que o chamado Oriente português foi muito menos filmado do que África. E isso terá a ver com questões também económicas, para além das políticas. Por exemplo, um território que inicialmente é muito filmado é São Tomé e Príncipe, e a dada altura deixa de se filmar ali, quando o cacau deixa de ser tão importante na economia portuguesa. As primeiras imagens coloniais da Cinemateca Portuguesa são em São Tomé e Príncipe e a partir dos anos 40, praticamente deixa de ser filmado. Relativamente a Macau, que peso é que teria na economia portuguesa da altura? Provavelmente não muito. A dada altura nota-se uma preocupação grande em filmar Macau, ou em tentar dar uma imagem polida de Macau, porque depois da II Guerra e com o início da Guerra Fria, Macau torna-se um território muito importante, um território tampão, por causa da questão do comunismo. Na verdade, interessava a uma parte do mundo, a parte não-comunista, que Portugal mantivesse ali aquele enclave. Em Fevereiro vamos mostrar na Cinemateca [em Lisboa] o “Macau” de Joseph von Sternberg, que depois é terminado pelo Nicholas Ray. E esse Macau de Hollywood, imaginado pelos filmes de ficção, é um Macau aventureiro, do jogo, da droga, dos espiões, e o Estado Novo não quereria que fosse essa a imagem de Macau que fosse conhecida.»

Irmãs (97’), Tracy Choi, 2016

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Apesar da escassez de imagens audiovisuais sobre Macau em décadas mais recuadas, o cinema afirma-se, hoje, como um bom modo de ver Macau, de construir uma ou muitas ideias sobre o território a partir das criações de realizadores de diferentes origens e gerações. Mesmo que nunca se tenha pisado Macau, como acontece com Maria João Piçarra: «Na verdade, nunca estive em Macau, algo que espero resolver em breve, mas o que me impressionou enquanto programava este ciclo foi perceber que muitos destes filmes dos realizadores mais recentes assumem uma reflexão, por vezes um confronto, com o passado, com a Macau anterior à administração chinesa, mesmo quando as pessoas não têm raízes portuguesas. E isso é muito interessante e talvez passe por uma representação de Macau, que existirá nas suas memórias, e que remete para esse passado da influência portuguesa. E também percebi que alguns destes realizadores, e as respectivas equipas de produção, trabalham muitas vezes uns com os outros, conhecem-se, partilham atitudes comuns relativamente à cidade, mesmo quando nasceram e viveram em sítios diferentes. Essa percepção das mudanças no território e da presença do passado parecem ser comuns a muitos destes filmes e tem sido muito interessante perceber isso.»

O ciclo Cinema Macau. Passado e Presente continuará, no Museu do Oriente, até ao próximo dia 18 de Fevereiro, estendendo a programação à Cinemateca Portuguesa, onde se mostrarão filmes em película de realizadores como Miguel Spiguel, Jean Duc ou Joseph von Sternberg, entre outros. No Museu do Oriente há ainda seis sessões para ver, reflectindo questões como a da transição administrativa, o olhar dos novos realizadores, portugueses e chineses, a percepção jornalística relativamente a temas actuais do território. Manuel Faria de Almeida, João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, Ivo M. Ferreira, Tracy Choi, Albert Chu, Cheong Ki Man e Filipa Queiroz são alguns dos realizadores programados. Será um ciclo de cinema com potencial para dar a ver Macau ao público lisboeta, mas igualmente o princípio de um processo de redescoberta de um espólio audiovisual com muitos segredos por revelar.

 

Programa

 

7 JANEIRO | ‘JÓIA DO ORIENTE’ NA PROPAGANDA DO ESTADO NOVO

Apresentação por Maria do Carmo Piçarra

Macau – Cidade progressiva e monumental (6’), M. Antunes Amor, 1935

Macau: Cidade do nome de Deus (10’), Ricardo Malheiro, 1952

A viagem de Sua Excelência o Ministro do Ultramar ao Oriente 3 – Macau (19’), Ricardo Malheiro, 1953

Macau, jóia do Oriente (14’), Miguel Spiguel, 1956

Macau (16’), Miguel Spiguel, 1960

 

13 JANEIRO | HERANÇA PORTUGUESA E TRANSIÇÃO VISTOS PELA TELEVISÃO

Com a presença de Manuel Faria de Almeida, moderação de Maria do Carmo Piçarra

O regresso (52’), Manuel Faria de Almeida, 1988

 

21 DE JANEIRO | PERSONAGEM MISTERIOSA NA FICÇÃO CINEMATOGRÁFICA PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA

Com a presença de Nuno Carvalho (sobre o som de A última vez que vi Macau)

O estrangeiro (18’) Ivo M. Ferreira, 2010

A última vez que vi Macau (82’), João Pedro Rodrigues/ João Rui Guerra da Mata, 2012

 

28 DE JANEIRO | PASSADO E PRESENTE DOCUMENTADO POR JORNALISTAS PORTUGUESES

Com a presença de Filipa Queiroz

Once upon a time in Ka Ho (31’), Hélder Beja, 2012 (legendado em inglês)

Boat people (32’), Filipa Queiroz, 2016 (legendado em português)

 

4 DE FEVEREIRO | HISTÓRIAS DE MACAU I

Com a presença de Cheong Kin Man

Macau de Ah Ming (32’) Albert Chu, 1996

Leno (13’) Leong Kin/Cobi Lou, 2016

Crash (22’), Hong Heng Fai, 2016

Uma ficção inútil (31’), Cheong Kin Man, 2016

Filmes legendados em inglês

 

10 DE FEVEREIRO | HISTÓRIAS DE MACAU II

Com a presença de Nevena Desivojevic

Projecto miúdos (25’), Io Lou Ian, 2016

Um amigo meu (16’), Tracy Choi, 2013

I repeated – Macau (41’), Penny Lam, 2014

You’ve never been there (8’), Nevena Desivojevic, 2015

 

Com excepção do primeiro, todos os filmes são legendados em inglês

 

18 DE FEVEREIRO | HISTÓRIAS DE MACAU III

Irmãs (97’), Tracy Choi, 2016

Filme legendado em inglês

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