Breves instantes das vidas em redor do maior lago do Sudeste Asiático capturados por Gonçalo Lobo Pinheiro

Quase três anos depois, o espólio de imagens recolhido por Gonçalo Lobo Pinheiro naquele que é o maior lago do Sudeste Asiático sai da gaveta e apresenta-se ao público em Londres. Na galeria “The Brick Lane” está desde ontem patente a série “Tonle Sap” integrada numa exposição colectiva de fotografia.

Catarina Vila Nova

 

Uma criança descansa com a cabeça encostada na borda da rede que a segura enquanto este senhor mais velho de semblante carregado procura descortinar como funcionam as baterias que tem pela frente. Duas crianças suspensas na água do lago dentro de alguidares de metal giram o torso em direcção a algo que lhes rouba uma gargalhada. Três homens interrompem o seu trabalho ao aperceberem-se da câmara de Gonçalo Lobo Pinheiro para eles apontada enquanto que um, o mais velho, ainda tenta em vão cobrir o rosto com a mão levantada. Um sorri. Breves instantes como estes, mas também do lago a ser constantemente atravessado pelas pessoas que nele habitam a bordo dos seus barcos, apresentam-se desde ontem em exposição em Londres sob o signo “Tonle Sap”.

Àquele que é o maior lago do Sudeste Asiático – mas apenas na época de monções – Gonçalo Lobo Pinheiro foi resgatar o nome e emprestá-lo à série de fotografias captadas no Camboja em 2015 e agora exibidas numa exposição colectiva na galeria londrina “The Brick Lane”. Ao PONTO FINAL, o fotojornalista explicou que procurou retratar “o lado social, o dia-a-dia das pessoas que moram naquele lago porque são milhões de pessoas que moram à volta dele e que vivem aquele lago pescando e fazendo a sua agricultura”. “Também é interessante ver que há agricultura à volta daquele lago, pessoas que vivem de algum turismo, alguma restauração. É interessante ver a vida destas pessoas porque é um mundo um bocado à parte de tudo o resto, até de Siem Reap”.

Naquela porção de água os habitantes construíram a sua vida reclamando para si as margens do lago onde despontam vestígios de civilização. Nas palavras de Lobo Pinheiro, “as pessoas quase nem precisam de ir à cidade”. “Existem igrejas em cima de água, a câmara municipal está em cima de água, o centro de saúde está em cima de água. As pessoas têm a sua vida toda ali e só por alguma situação muito específica é que se deslocam a outros sítios”, explicou o fotojornalista.

Confessa-se atraído pela palete de cores distinta dos países que compõem a antiga Indochina, seja não só o Camboja mas também o Vietname, a Tailândia, o Laos e o Myanmar, pelo que não é sem alguma surpresa que as imagens que escolheu apresentar nesta série surgem desprovidas de cor. Ao enveredar por este caminho, Lobo Pinheiro assume que se perdeu “a noção do colorido” plasmada nos laranjas, azuis e amarelos das casas suspensas sobre o “barrento verde da água”. Mas porquê esta escolha? “Neste caso, o interessante disto é ver que, de facto, as cores ficam bem contrastadas quando passamos a preto e branco. A minha opção pelo preto e branco foi de facto porque eu gostei de ver os contrastes e achei que devia pôr esta [série] a preto e branco”.  

 

DA LUZ PRÓPRIA DA INDOCHINA ÀS NUANCES DO BUDISMO

 

“Nesta zona da Indochina muita coisa me atrai, é uma zona muito rica em termos de fotografia não só pelas luzes que os países têm mas também pelas cores. Depois o movimento budista é muito grande, o budismo no Myanmar é completamente diferente do budismo no Camboja, o budismo aqui em Macau é completamente diferente do da Tailândia, não só nas vestimentas [mas] na forma de estar. Como é que crentes da mesma religião têm um comportamento social num país e noutro completamente diferente?”, questionou Gonçalo Lobo Pinheiro.

Partindo desta interrogação e do arquivo que foi reunindo nas suas várias viagens aos países do Sudeste Asiático – desde a Tailândia ao Myanmar, passando pelo Vietname e, claro, Camboja mas sem esquecer Macau – no fotógrafo começou a crescer a vontade de “mostrar as nuances dentro do budismo”. “Uns vestem-se de laranja, outros vestem-se mais de vermelho, outros vestem-se mais de castanho mas são todos budistas e são formas diferentes de budismo e é interessante essa mistura. Eu queria fazer este contraponto, um budismo diferente num sítio, um mais crente, outro se calhar mais capitalista, mais agarrado ao (mundo) material”, explicou Lobo Pinheiro.

Este projecto que, por enquanto, está em continuação, é algo que o fotógrafo se propõe “lançar brevemente”. Sem datas ou formas de apresentação, uma certeza Gonçalo Lobo Pinheiro tem: este será apresentado a cores.

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