Em cada cântico atirado aos céus, celebrar a união e a liberdade   

 

O Soweto Gospel Choir, de África do Sul, estreou-se ontem em Macau, com um concerto na Fortaleza do Monte, enquadrado no programa do XXXI Festival Internacional de Música. Horas antes do espectáculo, alguns dos cantores do colectivo, formado por mais de meia centena de músicos, falaram com a imprensa sobre a matriz de um projecto que celebra a liberdade e a reconciliação, para honrar o legado de Nelson Mandela.

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Texto: Sílvia Gonçalves

Fotografia: Eduardo Martins

Em cada palavra, entoada em uníssono, perpetua-se a mensagem de Nelson Mandela. Em cada melodia, atirada ao alto com uma projecção vocal desmedida, renova-se a luta contínua pela liberdade e igualdade entre os homens, que a segregação racial, imposta pelo apartheid na África do Sul, durante longos anos tratou de amordaçar. É no embalo de um novo tempo que surge, em 2002, o Soweto Gospel Choir, um agrupamento com mais de 50 músicos que leva ao mundo uma multiculturalidade que ganha expressão nas onze línguas oficiais que atravessam o país. Entre o gospel africano, os espirituais negros e o reggae, define-se a vocação artística de um coro que, num ainda curto tempo de vida, arrecadou já dois Grammys, um Emmy e a nomeação para um Óscar. A estreia em Macau do coro formado no Soweto aconteceu na noite de ontem, com um concerto na Fortaleza do Monte. Horas antes, alguns dos seus músicos apresentaram-se à imprensa como embaixadores de um país onde a música os fez acreditar que um dia seriam livres.

“Estamos aqui para partilhar a nossa música e dança, a nossa fé em Deus, para partilhar tudo o que está a acontecer no Soweto. O nosso coro é conhecido por ser diverso, nós cantamos quase todos os tipos de música, talvez porque partilhamos o palco com pessoas como Stevie Wonder, Queen, Aretha Franklin, Jimmy Cliff, experimentamos todos os estilos. Por isso é que no nosso novo álbum, ‘Faith’, incluímos esse tipo de música”, começa por introduzir Diniloxolo Ndalkuse, director musical do Soweto Gospel Choir.

É também o legado de Nelson Mandela que o coro diz celebrar. A ligação com aquele que foi prisioneiro de um regime de segregação racial, Presidente de uma África do Sul que empurrou para a liberdade, traduz-se na devoção que atravessa o colectivo: “Quando falamos de Nelson Mandela, falamos de um ícone, falamos de um homem que lutou pela África do Sul, falamos de alguém que influenciou a juventude a concentrar-se na política e na educação e no que é a África do Sul. O primeiro Grammy que ganhámos, em 2007, levamo-lo a ele, porque acreditamos que era com ele que devíamos partilhar o momento, para que ele visse o que fazemos quando vamos para o estrangeiro”, recorda Shimmy Jiyane, maestro do coro e coreógrafo. Shimmy refere ainda a ligação do colectivo à Fundação Nelson Mandela, nomeadamente no trabalho que esta desenvolve junto das crianças: “É como o coro está a retribuir à comunidade, é como nos juntamos a ele. Quando vamos para o exterior, os jovens podem ver o que fazemos e perceber que podem fazer algo assim”.

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Todos os membros presentes cresceram ainda com o Apartheid, política de segregação racial instituída na África do Sul entre 1948 e 1994. Shimmy Jiyane dá conta do muito que mudou desde então, depois das eleições democráticas vencidas pelo Congresso Nacional Africano, sob a liderança de Nelson Mandela: “Podemos viajar. Podemos cantar para muitas pessoas no mundo inteiro. O país acolheu um campeonato do mundo de futebol, as oportunidades abriram-se para todos no país, a nossa música chega a outros países, a música tornou-se global, as pessoas podem ver o que a África do Sul tem para dar. Nos nossos espectáculos cantamos em seis línguas, apresentamos às pessoas todas essas línguas e a música que nunca ouviram”.

“O QUE NOS FAZÍA ACREDITAR QUE UM DIA SERÍAMOS LIVRES ERA A MÚSICA”

Na música que difunde os evangelhos revela-se a dimensão de fé, nas suas múltiplas leituras, a que o país está vinculado, conta Siya, um dos cantores: “A África do Sul é um país muito espiritual, sendo diverso, com todas estas culturas, com cada clã, sendo assim espiritual, cada um de nós cresceu numa igreja diferente. O gospel foi a nossa primeira língua, crescemos com isso, os nossos pais e vizinhos faziam-no em diferentes igrejas. É o que o gospel significa para nós”.

A música, garante outro dos membros do grupo, esteve sempre lá, mesmo quando quem os governava entendia que nem a todos deveria ser concedida a mesma dignidade: “O que nos fazia acreditar que um dia seríamos livre era a música. Quando não sabíamos o que iria acontecer no dia seguinte, se seríamos mortos, o que nos mantinha positivos quanto à vida era que continuávamos a cantar, a acreditar. E quando cantávamos, cantávamos gospel”, conta Mulalo Mulovhedzi, também cantor e bailarino.

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Sempre lutaram pela liberdade através da música, é ainda por ela que lutam hoje? “Pela unidade”, diz Phumia Mkhumeleni. Diniloxolo Ndalkuse complementa: “Não é necessariamente lutar, é partilhar o que aconteceu no passado, é a celebração de um novo dia. Nelson Mandela foi preso durante 27 anos, e, em vez de retaliar, houve uma reconciliação. Isso mostra o poder que ele tem, o poder do perdão. Nós estamos a usar esse poder e a mostrá-lo às pessoas. Celebramos Nelson Mandela todos os dias”.

Num coro que tem actualmente 54 elementos, foram vinte os que actuaram em Macau, depois da passagem por Tóquio e por Hong Kong. Para alguns deles, a vida foi-se definindo no interior do colectivo, como a de Phumia, agora com 30 anos, para quem estar entre eles representa a concretização de um desejo que trazia da infância: “Eu costumava ouvi-los enquanto crescia, era inspirada pela sua música. Fui às audições e tornei-me um deles. Na África do Sul eles inspiram muito a juventude com a sua música, eu fui uma das sortudas. Estar aqui é ter conseguido aquilo com que sonhei em criança”, revela a cantora.

 

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