“O Chefe do Executivo esquece-se sempre que há mulheres que também são capazes de exercer o cargo”  

 

A entrada de Agnes Lam no hemiciclo não é suficiente para colmatar as saídas de Melinda Chan e Kwan Tsui Hang. Com a reeleição de Song Pek Kei, Ella Lei, Wong Kit Cheng, Angela Leong e Chan Hong, tomam assento na assembleia seis mulheres, num hemiciclo constituído por 33 deputados. Para contrariar esta tendência, Rita Santos defende a implementação de um sistema de quotas de género, ao passo que Agnes Lam acredita que uma reforma do método eleitoral se constitui como a melhor solução.

Dos 33 deputados que constituem a sexta Legislatura, apenas seis são mulheres: ou seja, há menos uma deputada do que no último hemiciclo. Cinco deputadas eleitas por sufrágio directo – Ella Lei, Angela Leong, Song Pek Kei, Agnes Lam e Wong Kit Cheng – e Chan Hong foi eleita através do colégio eleitoral dos sectores dos serviços sociais e educacional. Anteontem o Chefe do Executivo voltou a apontar apenas homens para o cargo de deputados nomeados. Ao PONTO FINAL, Rita Santos, conselheira das Comunidades Portuguesas, fala de uma má prática recorrente: “Já não é a primeira vez que isto acontece, não só no Governo da RAEM como também na altura da administração portuguesa”. Por sua vez, Agnes Lam nota, não sem ironia, que “talvez o Chefe do Executivo não tenha nenhuma mulher da sua confiança”: “Não sei porquê, eu acho que é óbvio que ele devia pensar nisso. Da última vez, quando ele fez a sua escolha, já se levantaram algumas vozes”, recorda a também professora da Universidade de Macau.

“Quando escolhe os deputados nomeados [o Chefe do Executivo] esquece-se sempre que há mulheres que também são capazes de exercer o cargo. É preciso saber e procurar e normalmente quando se nomeia não é sempre do seu círculo de amigos, não sei se há mulheres que estão no círculo de amizade do nosso Chefe do Executivo mas há sempre mulheres com capacidade e eu penso que é preciso tomar atenção e respeitar a importância da mulher na sociedade de Macau”, defendeu com firmeza Rita Santos.

Uma ideia em que é secundada por Agnes Lam, que considera que o que não falta em Macau são mulheres com qualificações suficientes para desempenhar o cargo: “Se o Chefe do Executivo quisesse tinha um bom número de boas candidatas”.

A deputada eleita acredita que as mulheres têm uma maior possibilidade de chegar ao hemiciclo através do sufrágio directo, uma vez que “o público geral aceita melhor as candidatas do que as classes privilegiadas”. Em relação ao sufrágio indirecto, a académica considera que o processo “por debaixo da mesa ainda é manipulado por homens”.

Sobre os desafios em ser uma das poucas deputadas no hemiciclo, Agnes Lam estabelece um paralelo com a sua profissão de professora e com as experiências que angariou enquanto candidata: “As questões de género são sempre menorizadas pela sociedade. As pessoas não olham para estes assuntos e mesmo quando tentas impulsionar certas medidas ou formas de pensamento isso é difícil porque ainda existe a mentalidade de que as mulheres devem ficar em casa. Quando tentamos influenciar a agenda com temas relacionados com a igualdade de género enfrentamos muitos desafios. Como mulheres é muito fácil sermos julgadas pela nossa aparência e as pessoas tendem a olhar mais para as nossas roupas do que para o nosso desempenho”, apontou.

Em relação ao papel desempenhado pelas deputadas na Assembleia Legislativa, Rita Santos defende que as mulheres têm uma maior sensibilidade sobre certos problemas sociais, nomeadamente a pobreza, os conflitos familiares, a educação e o custo de vida: “Muitas vezes, as mulheres são mais sensíveis para determinadas questões ligadas à sociedade com que muitas vezes nos deparamos. Não basta nomear pessoas que têm estudos: é preciso haver pessoas que têm uma ligação directa aos problemas sociais que hoje em dia enfrentamos”, argumentou.

Como forma de equilibrar a balança, Rita Santos defende a implementação de um sistema de quotas na Assembleia Legislativa. “Penso que deveria haver uma quota para que as mulheres também possam participar politicamente. São as mulheres que ocupam mais tempo na educação dos filhos que futuramente vão enfrentar as mesmas questões”, defendeu. A antiga secretária-geral adjunta do Fórum Macau deixou ainda um apelo: “As mulheres de Macau têm que começar a dedicar-se mais à vida política para mostrar a sua capacidade, de tal forma que futuramente, quando haja nomeações, também pensem nas mulheres”.

Já Agnes Lam defende que, antes de partir para a implementação de um sistema de quotas, o Governo deve partir para uma reforma do sistema eleitoral. A académica acredita que o alargamento do sufrágio directo pode não só vir a conduzir à eleição de um maior número de mulheres, mas também a uma Assembleia Legislativa mais equilibrada. Além de que, o sistema de quotas iria carecer da aprovação do Chefe do Executivo, “o que não é fácil”, defende a deputada eleita.