“São como retratos do tempo que eu passo num sítio”

O artista André Carrilho inaugurou na passada quinta-feira a exposição “Atrito”, na Galeria Abysmo, em Lisboa. São mais de uma centena de desenhos de viagens: umas mais geográficas e que passam por Macau; outras mais emocionais e vinculadas à experiência da paternidade. Para ver até 21 de Outubro.

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Texto e fotos de Hélder Beja, em Lisboa

A pulsão pelo desenho nunca abandona o artista e ilustrador André Carrilho, seja quando desde casa dá vida a muitas personagens conhecidas da cena política ou artística mundial, nos trabalhos que regularmente publica na imprensa, seja quando em viagem pega no bloco e desenha à mão aquilo que descreve como “uma fotografia de exposição de uma hora”, em que os elementos em movimento perdem para os mais estáticos, que se fixam nas obras do autor.

Agora, Carrilho apresenta mais de uma centena de desenhos na Galeria Abysmo, bem no centro da capital portuguesa, com a exposição “Atrito”, que vem na sequência de “Inércia”, apresentada em Macau. O território volta a caber nas geografias do artista, que o elege como um dos lugares que mais gosta de desenhar. Os trabalhos de André Carrilho serão também reunidos em livro e publicados no próximo mês pela editora Abysmo, ao lado de textos diarísticos assinados pelo próprio. “Atrito”, a exposição, pode ser vista até 21 de Outubro.

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– Podemos começar pela geografia destes desenhos, uma vez que são desenhos de viagens. Que lugares estão presentes aqui?

André Carrilho – Passo sempre por Macau e por Hong Kong, são sítios obrigatórios e dos que me dá mais prazer desenhar. Depois passei também por Nova Iorque, Paris, Londres. Em Portugal, Porto, Viseu, Óbidos e também o Douro Internacional, que é onde costumo passar férias.

– O que é que há de Macau e de Hong Kong nesta exposição?

A.C. – Hong Kong eu não tinha desenhado no outro livro, porque isto é a continuação de um trabalho que já foi exposto em Macau, o “Inércia”. Não tinha desenhado a cidade e agora fui desenhar aquelas malhas de prédios, de janelas impossivelmente altas, uns neons e umas coisas assim. De Macau temos o Casino Lisboa, a ponte para a Taipa… Foquei-me mais desta vez em [momentos] nocturnos.

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– Estes seus desenhos de viagem são todos feitos em formato analógico?

A.C. – Tudo. É praticamente o oposto daquilo que eu faço para a imprensa: desenho muito poucas pessoas e desenho tudo à mão. Tudo é feito no local, não há esboço prévio, nada. Tudo o que está no desenho é aquilo que eu desenhei. E também não há trabalho a posteriori: é tudo feito numa hora, uma hora e meia, no local.

– Há aqui uma questão importante de imediatismo, do tempo destes trabalhos, que também os tornam bastante diferentes daquilo que faz para jornais e revistas?

A.C. – Sim, é como se estes desenhos fossem uma fotografia de exposição de uma hora em que tudo o que está em movimento é mais difícil de captar e eu capto aquilo que está quieto. São também como retratos do tempo que eu passo num sítio.

– Em que medida é que o lugar onde desenha afecta o seu traço?

A.C. – Afecta um pouco a nível de cores e da maneira como desenho. Por exemplo, quando fui à Ribeira do Porto desenhei de um modo um bocado diferente, porque havia tanta coisa para desenhar que tive de ser mais expressivo. Umas vezes sou muito cauteloso a desenhar, faço tudo muito limpinho, outras vezes sou totalmente expressivo e atiro umas tintas a procurar uma impressão.

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– Normalmente há elementos que captam a sua atenção e decide desenhá-los ou quando vai para um lugar ou uma cidade já tem ideia do que quer desenhar?

A.C. – Tenho sempre de ver o lugar. Muitas vezes ando pelos sítios um dia ou dois até decidir o que vou desenhar. Como passo lá pelo menos uma hora, essa hora é valiosa. Não posso estar uma hora num sítio que não tenho a certeza que quero desenhar ou depois descobrir que na esquina seguinte havia um sítio que valia mais a pena. Tenho primeiro de ver como me relaciono com o lugar e escolher os melhores sítios para desenhar.

– Voltando à questão do tempo … Quando se senta para desenhar já sabe se aquele desenho vai ser rápido ou se vai demorar a estar pronto?

A.C. – Às vezes julgo que vai levar pouco tempo e demoro muito tempo. Outras vezes é o contrário, portanto nunca sei [risos]. Outra coisa única nesta exposição é que ela marca o fim das minhas viagens. Casei-me, tive dois filhos ao longo de dois anos e a utilização que eu fazia do desenho ao viajar, para memorizar e passar tempo com aqueles instantes, alterou-se. Esse foco passou para os meus filhos.

– E por isso há uma presença grande dos seus filhos nesta exposição.

A.C. – Sim, esta sala onde estamos está dedicada à família, aos partos, às gravidezes. Os desenhos evidenciam o meu foco de atenção a mudar das viagens pelas geografias [do mundo] para uma geografia emocional.

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– Como é que tem sido essa viagem emocional da paternidade, também do ponto de vista artístico? O que é que ela lhe tem trazido?

A.C. – Para ser sincero, trouxe-me o facto de dar menos importância àquilo que faço, porque concentro-me mais em educar as crianças e pensar que elas estejam bem, do que propriamente estar a deixá-las para trabalhar tanto quanto trabalhava. Às vezes estou a trabalhar e a pensar ‘isto não interessa para nada, o que interessa é ir ter ali com a criança’ [risos]. Portanto, o que é que me trouxe? Pôs-me as coisas em perspectiva.

– Esta exposição também dará origem a um livro, correcto?

A.C. – Sim, vai chamar-se “Atrito, como a exposição. A “Inércia” era a tendência de os corpos continuarem no estado em que estão. Eu, quando estava em Lisboa, tinha tendência a ficar em Lisboa. Quando estava em viagem, tinha tendência a continuar a viajar e não voltar a Lisboa. O “atrito” é aquilo que contraria a “inércia”, uma força externa que te obriga a passar de um estado para o outro e que aqui me obrigou a deixar de viajar. Neste caso, a causa foi a família.

– O livro reúne todos estes trabalhos. Terá mais algum elemento?

A.C. – Terá textos diarísticos que vou escrevendo, que podem ter ou não que ver com os assuntos da exposição, mas têm de certeza a ver com as gravidezes e com os filhos. É no fundo a história de uma pessoa se ir confinando por sua própria vontade e continuar feliz, até mais feliz. Não consigo prever quando faço esses textos. Normalmente, quando passo por alguma coisa que quero registar, escrevo ou desenho.

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