Há muito menos ‘capacete’, mas a situação vai piorar  

 

Um investigador de Macau propôs-se analisar duas décadas de neblina em Macau, relacionando-a com o consumo de energia. A situação está hoje bastante melhor do que há vinte anos atrás, mas pode vir a piorar, estima Wai-Ming To.

Macau-Vegas-Skyline

João Paulo Meneses

 

Dois mil e sete foi um ano muito importante para Macau: do julgamento de Ao Man Long à inauguração do Venetian, muitas coisas aconteceram que marcaram a história da RAEM. O que não se sabia até recentemente é que 2007 foi também o ano com mais horas de neblina, em resultado de poluição atmosférica (haze, na terminologia técnica).

A conclusão é de um estudo acabado de publicar, intitulado “Factors Contributing to Haze Pollution: Evidence from Macao, China”, liderado pelo professor do Instituto Politécnico de Macau (IPM), Wai-Ming To.

Ali se diz que este tipo de neblina era quase inexistente no final da década de 80 do século passado e que cresceu brutalmente desde a liberalização do jogo, das três horas registadas em 1986 para as 766 horas contabilizadas onze anos depois. Wai-Ming To e os seus dois colegas da Universidade Politécnica de Hong Kong (Peter K.C. Lee e Chi To Ng) fazem questão de explicar que todas as fontes que citam são oficiais, pormenorizando mesmo a forma como os dados foram recolhidos pelos Serviços Meteorológicos e Geofísicos.

Mas também se revela que desde 2007 o número de horas com ‘capacete’ tem vindo a diminuir significativamente, tendo sido registadas apenas 57 no ano passado.

A explicação dos autores é clara. Entre 1990 e 2007 “o consumo de energia primária (incluindo derivados de petróleo, gás natural e querosene para os aviões) aumentou 130 por cento.” Ora, dizem, estudos mostram que o petróleo/gasóleo, fuel e gás natural “consumidos localmente, e a queima de querosene pelos aviões estão significativamente associados com o número de horas anuais de neblina em Macau”.

Ora, acontece que “desde 2005, a Companhia de Electricidade de Macau (CEM) está a importar cada vez mais energia de Zhuhai, tendo também reduzido significativamente a queima de fuel e gasóleo nas suas centrais”, diz a equipa liderada pelo professor da Escola de Negócios do Instituto Politécnico de Macau. “Em consequência, a quantidade de derivados de petróleo consumidos localmente diminuiu continuamente desde 2005 até 2014. O número de horas de neblina passou de 567 para 346 por ano, nesse mesmo período”.

 

DIMINUIR MAS DEPOIS AUMENTAR

 

Os números têm vindo a baixar e os autores antevêem uma redução do número de horas com ‘capacete’ em Macau nos próximos anos. No estudo citam as intenções da Companhia de Electricidade de Macau de continuar a aumentar a quantidade de energia importada de Zhuhai, reduzindo ao mesmo tempo a capacidade operacional das centrais locais, “o que significará que as condições para uma redução de neblinas poluidoras continuarão a melhorar num futuro próximo”.

O problema – alertam – é que Macau está a importar energia produzida numa cidade a cerca de 50 quilómetros de Macau (Jinwan), a partir de uma central que queima carvão. Para piorar, “os regulamentos sobre poluição, conformidade e monitorização não são tão exigentes como em Macau, o que significa que o aumento da produção vai ter como consequência a emissão de grandes quantidades de dióxido de carbono, dióxidos de enxofre, óxidos de nitrogénio e partículas que afectarão particularmente os seus vizinhos”, escrevem.

Como se não bastasse, os três autores estimam que o movimento no Aeroporto Internacional de Macau “aumentará muito provavelmente, levando a um aumento do consumo de querosene”.

Tudo junto, se é “muito provável que a curto-prazo se verifique uma redução nas horas com neblina”, haverá, também provavelmente, um aumento das emissões de poluição e de neblina devido à Central Energética de Jinwan/Zhuhai.

Wai-Ming To e a sua equipa alertam as autoridades de Macau para a necessidade de se reforçar a aposta no “mix energético”, tendo em conta a realidade ambiental da região, e por outro lado – avisam – “a transferência de encargos ambientais (por exemplo, a geração de energia) para as áreas vizinhas precisa ser reexaminada como política

A neblina, transparência enganadora

 

A neblina em resultado da poluição é definida como “uma agregação na atmosfera de partículas muito finas, amplamente dispersas, sólidas ou líquidas, ou ambas, dando ao ar uma aparência opalescente que subjuga cores”, de acordo com o que se pode ler em “Factors Contributing to Haze Pollution: Evidence from Macao, China”.

Nas cidades, os poluentes atmosféricos de uma variedade diversa de fontes espalham-se na atmosfera e fundem-se numa camada de neblina que afecta negativamente a visibilidade, podendo causar stress psicológico leve a moderado, acrescentam Wai-Ming To, Peter K.C. Lee e Chi To Ng, que juntam a definição feita pela Direcção dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos de Macau: a condição sob a qual a visibilidade é igual ou inferior a 5 km e a humidade relativa é inferior a 80 por cento.

 

 

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