“Estou sempre sedento de amor”

Embater na interrogação que conduz à contínua criação artística e, com ela, produzir um corpo de trabalho vinculado a uma dimensão surreal e simbólica onde encaixam sonho, dor profunda e ausência. Fortes Pakeong Sequeira apresenta até 13 de Agosto, no Centro UNESCO de Macau, uma mostra individual que reúne obra dos últimos oito anos, a que chamou “Fenda”. Para aliciar o observador a avançar, sem rede, por um lugar íntimo de descoberta.        

Sílvia Gonçalves

silviagoncalves.pontofinal@gmail.com

Fotografias: Eduardo Martins

 

No interior de uma banheira onde foram pintadas a negro formas e figuras de uma dimensão onírica, repousam dois globos iluminados, ligados por um emaranhado de luzes. Em cada globo, a representação de mãe e filho, e a memória daquele dia de chuva, em que o banho maternal selou uma promessa de reencontro, não concretizada. A ausência da mãe, entretanto desaparecida, adensa as interrogações do artista, que em cada exercício de criação procura uma resposta para o trabalho incessante desenvolvido ao longo dos anos. Na sua mais recente mostra individual, Fortes Pakeong Sequeira condensa obra produzida ao longo de quase uma década, em registos distintos que contemplam a pintura, o desenho e a instalação. O nome que lhe emprestou, “Fenda”, desafia o espectador à abstração no espaço e no tempo, para penetrar a brecha concebida pelo artista e nela arriscar um mais amplo conhecimento de si próprio.

“Esta exposição mostra o que tenho feito nestes anos. Estou a tentar muito encontrar algo, encontrar uma razão para trabalhar no meu trabalho artístico. Estou a perguntar-me, gostaria de conhecer a resposta de mim próprio, para saber qual a razão porque sempre criei coisas. Estou apenas a perguntar-me. Isto é o que quero mostrar às pessoas, o resultado”, conta Fortes Pakeong Sequeira ao PONTO FINAL.

Aos 39 anos, o artista de Macau insiste na interrogação e revela ter encontrado na arte a libertação da dor que lhe atravessou a puberdade. “Na verdade, não há respostas. Eu continuo a perguntar-me, mas encontrei algo muito interessante, e também encontrei alguma felicidade quando estou a criar coisas. Quando era jovem, pensava sempre: ‘sou tão infeliz, sinto-me tão triste, deprimido, quero libertar algo do fundo do meu coração’. Por isso faço trabalho artístico”. Um exercício que permite um apaziguamento e a aproximação a uma figura tutelar, entretanto desparecida. “Quando me sinto infeliz, quando sinto a falta da minha mãe – porque ela não está aqui agora, está no céu – então choro e faço algo para me acalmar. Sinto o amor dela quando estou a fazer trabalho artístico”.

Num corpo de trabalho onde ressalta a transposição para uma qualquer dimensão, instalada no denso imaginário do artista, acumulam-se figuras etéreas, criaturas grotescas, traçadas a marcador, lápis, tinta ou acrílico, num contínuo cruzamento entre homens e bichos. Na fluidez de linhas e formas desvenda-se, quase sempre, o movimento e a silhueta de um corpo de mulher. “Todos esses elementos têm o seu significado. Árvores e plantas representam a vida. O corpo humano, especialmente o peito de uma mulher, significa amor. Estou sempre sedento de amor. É algo de que sinto falta, que quero, de que preciso”, confessa o artista.

“QUERO QUE AS PESSOAS O SINTAM, QUE SE ENCONTREM ATRAVÉS DO MEU TRABALHO”  

O que leva ao espectador um corpo de trabalho heterogéneo, vinculado a uma dimensão simbólica? “Todo o meu trabalho artístico vai na mesma direcção. Quero usar o meu trabalho para dar às pessoas um caminho por onde caminhar, para sentirem o que estou a sentir. Quero que as pessoas o sintam, que se encontrem através do meu trabalho. Não sentirem-me, mas sentirem-se”.

E o que sente Pakeong Sequeira no tempo de criação? Que lugar é esse onde se recolhe, que parece coisa distante? “Não estou a tentar dizer às pessoas o que estou a pensar, mas o que estou a sentir. O sentimento é como se o tempo congelasse, congela. O tempo pára, pausa e eu só quero… é sobre o tempo, sobre o momento. Todo o trabalho é diferente, está vivo, não me representa, mas representa-se a si próprio”.

Volta-se o olhar para o centro de uma das grandes salas por onde se estende a exposição, para a profusão de figuras disformes e linhas infinitas que pontuam a negro a superfície de uma banheira. No seu interior, a luz intensa de dois globos, como dois corpos que se olham e jazem em silêncio. “Chamei-lhe ‘Barco da Noite’, porque quando eu tinha oito anos, os meus pais separaram-se, eu vivi com o meu pai, sentia falta da minha mãe. Há um dia de chuva em que fui a casa da minha mãe, ela ajudou-me a tomar banho e disse-me que me ia recuperar, para viver com ela, mas isso não aconteceu. Sempre recordei o que ela me disse, porque ela prometeu que me recuperaria mas nunca o fez. Isto é algo muito importante, uma conversa entre mim e a minha mãe. Na banheira há duas cabeças, uma representa a minha mãe e a outra sou eu. Estamos sempre a sentir a falta um do outro”.

Fortes, recorda com amargura um cenário de separação, que haveria de marcar a ferros o seu curso de vida e de produção artística: “Duas famílias foram separadas. As minhas irmãs e o meu irmão viviam com a minha mãe, eu com o meu pai. Vivi com ela seis anos depois”. A mãe, figura omnipresente nas emoções e interrogações do artista, haveria de morrer em 2013.

“NÃO QUERO QUE AS PESSOAS SE MANTENHAM À DISTÂNCIA DA ARTE”

Projectada na parede, uma figura iluminada remete para as personagens da série de animação Looney Tunes. Uma instalação de arte interactiva com projecção em 3D, que o artista designou de “Lonely Tones (Tons Solitários)”, que confronta o espectador com o estado que o invade num quadro de solidão. “É uma peça muito nova. Não quero que as pessoas se mantenham à distância do trabalho artístico, da arte. Porque algumas pessoas não querem tocar a arte, entrar nela, têm receio da arte. Quis fazer algo muito fácil de conhecer, de tocar ou entrar. Arranjei um slogan: ‘We’re All Sick! [Estamos todos doentes]’. Apenas quis dizer às pessoas que não têm que ter medo da solidão. Todos estão sozinhos, eu estou sozinho, tu estás sozinho. Não tens que ter medo quando te sentes sozinho. Isto é muito simples e todos o sentem. Tens que aceitar, solidão é apenas solidão. Solidão pode ser felicidade. Tens que tirar partido da tua vida porque a solidão faz parte da tua vida”.

Na segunda sala, as portas fechadas de uma cabana em madeira incitam a espreitar, a procurar um refúgio que acrescenta conforto, entre a intensidade das luzes e da narrativa feérica dos desenhos que lhe cobrem o interior. O nome da instalação? “Fora do Muro”. “Criei-a quando estava em Pequim, era um grande trabalho, levei um mês a terminar. Toda a gente quer saber o que está dentro do quarto ou do outro lado do muro. Na China estamos sempre desconectados de alguma plataforma da internet, como o Youtube, o Facebook. Quando estava em Pequim, em 2009, não parava de pensar nisso, porque é que a China bloqueia isto e aquilo?”. E a interrogação potenciou a viragem: “Depois disso, de facto gostei de viver sem Facebook e Youtube, porque nesse Verão pude ouvir o batimento do meu coração, passei mais tempo a colocar-me algumas questões e obtive respostas. Foi um momento muito relaxante e pacífico, fez-me sentir mais seguro e vivo”.

Na mesma área, numa cadeira suspensa por correntes, a presença de cabelo humano. A instalação, criada este ano, leva como nome “Fenda”, o mesmo que o artista colou à exposição, cuja curadoria foi assumida por Lucie Chang. A designação escolhida por Pakeong Sequeira encontra significado no espaço de expressão que o artista diz ter encontrado ao longo do percurso artístico. “Para mim, ‘Fenda’ significa espaço, entre as pessoas, entre o tempo, entre objectos. A tudo devemos conferir espaço. Isto é o que eu encontrei através do meu trabalho artístico ao longo destes anos. Sempre que faço trabalho artístico, penso que há um escape, porque sou o homem que se sentia sempre muito ocupado, sufocado. Uso o tempo para criar algo, como desenho, para escapar a este mundo, a esta vida. Por isso sei o quão importante é a fenda”.

“SER ARTISTA EM MACAU ÀS VEZES É TÃO DIFÍCIL”

E o conceito, os elementos que figuram no trabalho, de algum modo mudaram ao longo dos anos? “Sim, está a mudar muito lentamente. Estou a tentar encontrar ou ampliar cada parte do meu trabalho. Gostava de encontrar a resposta porque vou desenhar isto ou aquilo. Porque quando estou a desenhar ao vivo, consigo desenhar sem esboços mas sem parar, sem ser planeado, e continuar a crescer. Mas, depois disso, pergunto-me o que me faz desenhar aquilo, qual o seu significado. Eu realmente quero encontrar a razão, a resposta”.

Para o artista, ilustrador e vocalista da banda Blademark, todas as linguagens que o consomem se cruzam num mesmo propósito: “Para mim, desenhar ou cantar ou compor música, tudo me ajuda a mostrar a minha mensagem. É a coisa mais importante em que me foco. Não é sobre a técnica, não é sobre como fazê-lo, apenas fá-lo. Sempre quis ter algo novo para deixar as pessoas ver, ou deixar as pessoas pensar sobre o que vou dizer-lhes”. Nesta altura, o artista prepara a sua próxima mostra individual, que chega no Outono ao Macau Art Garden. “A próxima exposição será a 13 de Outubro, na AFA [Art For All]. Terá alguns trabalhos novos, mas não totalmente. O curador será o José Drummond”.

Acredita Pakeong Sequeira ter encontrado o seu lugar como artista em Macau? “Não creio. Ser artista em Macau às vezes é tão difícil, especialmente quando fizeste o teu trabalho, fizeste uma exposição, mas não consegues vender o teu trabalho. Trata-se de viver”.

E sente-se mais feliz hoje do que no tempo sombrio da adolescência? “Sinto-me feliz porque encontrei-me. Não encontrei a resposta que mostre porque é que estou sempre a criar, mas encontrei-me. Gosto muito de fazer isto, não quero saber se se vai vender, não quero saber do valor, mas aceitei que sou um artista. Gosto de fazê-lo, amo a arte, gosto de mim”.     

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