Nos brinquedos e objectos resgatados do sótão, o regresso às horas infinitas da infância   

Chan Chi Cheng, Chan Si Kei e Chi Po Hao converteram memórias de criança em teatro-dança. O espectáculo incorpora as famílias na cenografia e leva-as a recuar às horas infinitas em que o futuro era coisa distante. “Ecos da Nossa Infância” instala-se, de 10 e 13 de Agosto, no espaço ART do Centro Cultural de Macau, enquadrado no programa InspirARTE no Verão.    

Sílvia Gonçalves

silviagoncalves.pontofinal@gmail.com

 

O telefone cujas teclas foram dedilhadas à exaustão, a chaleira puída pelo uso quotidiano, as gaiolas que pendem do tecto, o triciclo vergastado pela calçada, o coelho-lanterna em papel, que seguia arrastado pela rua em competição vaidosa, para bater os dotes do vizinho. Estes e outros brinquedos figuram na galeria interminável cravada na infância vivida em Macau, num tempo mais e menos distante. Chan Chi Cheng e Chan Si Kei, nascidas no território, e Chi Po Hao, oriundo de Taiwan, vasculharam baús de amigos, familiares e companhias de teatro, e recolheram objectos, hoje anacrónicos, que traduzem um modo de viver a infância que se perdeu na voragem tecnológica do tempo. Em torno dos objectos, estruturaram um espectáculo de teatro e instalação, “Ecos da Nossa Infância”, que impõe a imersão num lugar secreto de descoberta e ilusão, que a memória tratou de ocultar.

“Esta performance convida os pais a trazerem os filhos e a experienciarem a sua própria infância, o que brincaram, o que viveram quando eram jovens. Podemos ver que hoje os miúdos brincam com aparelhos electrónicos ao invés de fazerem jogos de grupo. Por isso gostaríamos de mostrar como as crianças brincavam no passado, com mais jogos interactivos e actividades”, conta Chan Chi Cheng. A bailarina e coreógrafa, que assume a co-autoria de “Ecos da Nossa Infância”, partilha com uma outra bailarina, a área performativa onde a cenografia se compõe de objectos que o público é livre de manusear.

“Não há um palco, há um espaço, uma espécie de lugar secreto. Quando somos crianças criamos o nosso espaço secreto para que os amigos venham e brinquemos juntos. Há duas performers, elas vão conduzir a audiência para que se junte, vão representar através do seu movimento e alguma conversa, depende das reacções”, explica Chan Si Kei, que além de co-autora é também produtora do espectáculo. A narrativa, essa, desenrola-se na relação entre artistas e público, com as memórias e os espantos arrancados no contacto com os objectos a traçar o fio condutor de um espectáculo estruturado na interacção com quem avança sobre o cenário: “Ao invés de uma narrativa, estabelecemos uma estrutura em função do que vai acontecer. É mais sobre um certo momento que passamos juntos, experiências de uma memória fresca, muitas memórias sobre a infância, que regressam”, atira Chan Chi Cheng.

E no confronto com brinquedos e objectos do quotidiano desvendam-se os quadros vividos por cada um nesse lugar remoto que configura o princípio de tudo. “Temos pequenos brinquedos, colecções, instalações de som e luz, teremos várias cenas sobre o que acontece na vida quotidiana. Se tens um pássaro em casa, falas com ele e o pássaro fala contigo. Se tiveste a experiência de ir a aulas de dança quando eras criança, danças, brincas com os teus instrumentos musicais”.

EM CADA SOM, EVOCAR UMA MEMÓRIA DE MACAU

Também o som atravessa o espectáculo, em quadros sonoros que emprestam vida aos objectos e ampliam a ligação à dimensão lúdica de cada um: “Há muitos objectos divertidos na área da performance, e eu transformo esses objectos num interface musical. Como um instrumento, mas não é usado para tocar uma canção, às vezes pode tocar uma melodia, posso mudar para um efeito sonoro, tendo em conta as diferentes cenas, os diferentes tópicos. É uma respostas às memórias de Macau”, explica Chi Po Hao, designer de som e co-criador, que chega de Taiwan. “É uma mistura de objectos e som, porque juntamos os aparelhos de som aos objectos, tentamos dar-lhes vida, para evocar a memória de todos sobre esse objecto em particular, porque todos temos uma certa memória de certos brinquedos, e todos têm memórias distintas”, complementa Chan Si Kei.  

A produtora descreve uma construção performativa que convoca o público a participar na narrativa: “Quisemos criar uma colaboração a partir de três pontos de vista: o movimento, o som e a experiência da audiência. Queremos romper com a habitual relação que implica estar apenas sentado a ver a performance. Queremos dar poder aos espectadores para escolherem o que querem ver, o que querem ganhar de si próprios. Nesta performance eles são livres de tocarem em tudo o que quiserem, só não podem levar para casa”.

E os adereços que compõem a cenografia só podiam estar vinculados à realidade, a uma dimensão palpável que, de um modo distinto, toca e fere cada um: “A distância entre o cenário e a audiência é muito curta, por isso não podíamos fazer um cenário falso, tem que ser algo real. Recolhemos tudo em diferentes áreas de Macau, junto dos nossos amigos, de teatros, de familiares de gerações mais velhas”, conta ainda Chan Si Kei.

Depois da estreia em Fevereiro, no âmbito do Open Box, o espectáculo regressa ao CCM mas move-se do Pequeno Auditório para o espaço Art. À mudança de espaço junta-se uma nova concepção dramatúrgica, tendo em vista um público que agora deixa de ser tão amplo. “Em Fevereiro as idades eram muito variadas. Agora vai estar mais focado nas famílias, o contacto será totalmente diferente, será mais fácil, para que as crianças percebam”, garante a produtora. “A performance anterior era mais poética, era sobre o estado de espírito, o ambiente, agora será mais divertida, a ideia é mostrar o que aconteceu na infância dos pais”, acrescenta Chan Chi Cheng.

E o que recordam da vossa infância? O que resgataram para este espectáculo? “A minha infância foi ocupada pela dança. Quando partilhamos as nossas experiências, cada um tem algo diferente. A outra performer, que é muito malandra, inventou diferentes jogos e brinquedos, partilhou connosco ideias muito loucas sobre a sua infância. Eu estou mais focada na dança, sou a boa menina. Em comparação, a minha infância foi muito aborrecida”, revela Chan Chi Cheng.

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