“Tinha definido que se participasse num projecto de investimento, ficava satisfeito”

Após seis anos, Mário Vicente deixou o cargo de representante de Cabo Verde no Fórum Macau. Na altura da despedida reconhece que os últimos três anos permitiram apresentar resultados mais visíveis; porém, a nível pessoal, defende a criação de uma linha de crédito para as Pequenas e Médias Empresas dos países de língua portuguesa, no âmbito do Fórum.

João Santos Filipe

joaof.pontofinal@gmail.com

 

Fotografia: Eduardo Martins

 

Após seis anos como representante de Cabo Verde no Fórum Macau chegou ao fim o seu mandato. Que balanço faz?

Saio de consciência tranquila, considero que cumpri o meu papel, os meus objectivos e o objectivo a que o país se propôs com a minha vinda para Macau. Acredito que o balanço é positivo. Estou satisfeito, particularmente com o segundo mandato em que os resultados foram mais concretos.

 

Qual foi a principal diferença entre os dois mandatos?

Normalmente o trabalho do escritório, do backoffice, não é tão visível porque não aparece. Quando começa a haver resultados palpáveis a satisfação é maior para a pessoa e para o público. Grosso modo, o resultado é positivo e saio satisfeito por ter cumprido com toda a honra a representação de Cabo Verde.

 

O facto dos resultados terem sido mais visíveis no segundo mandato significa que é benéfico para os representantes ficarem dois triénios?

Não gostaria de entrar por aí. Refiro-me ao segundo mandato porque o Fórum Macau enquanto mecanismo começou a consolidar-se por volta da 4.ª Conferência Ministerial. Entre 2011 e 2013 foi constituído o estatuto e foi um tempo muito interessante e intenso. Penso que esta organização e consolidação da instituição no seu todo fez com que o triénio entre 2014 e 2017 tivesse outro tipos de resultados. Contudo, o que se conseguiu fazer é também derivado de quem me antecedeu e de todos os que trabalham em equipa, tanto no Fórum, como em Cabo Verde ou na Embaixada em Pequim.

 

Nesta passagem quais considera terem sido os momentos altos?

A nível institucional houve dois ou três momentos, como a consolidação estatutária do Fórum e a efectivação do Fundo [da Cooperação para o Desenvolvimento], em 2013. Também as conferências ministeriais são sempre momentos altos, principalmente a 5.ª Conferência [em 2016], quando foram anunciadas medidas muito inovadoras e ousadas. Foi de facto uma altura de mudança. Também os encontros de empresários entre da China e dos Países de Língua Portuguesa, organizados em Cabo Verde entre 2012 e 2017, foram momentos altos.

 

Porque refere esses encontros?

Em sete países, e num sistema rotativo, conseguimos receber em seis anos dois encontros. O último com bastante mais sucesso do que o primeiro, porque teve mais e melhor participação. No final houve resultados mais concretos em termos de acordos bilaterais entre empresas. Também porque coincide com uma nova dinâmica da cooperação empresarial com três ou quatro acordos que tenho acompanhado até agora. São acordos que estão no bom caminho, e numa fase muito boas das negociações.

 

Cabo Verde conseguiu atrair investimento de Macau, principalmente através do empresário David Chow, que está a construir um hotel com casino e interessado em criar um banco. Cabo Verde é o país que melhor aproveita as potencialidades do Fórum?

Todos os países estão na mesma linha de procurar investimentos em Macau e no Interior da China. Creio que os outros países terão eventualmente um caminho a percorrer, mas acredito que chegarão a bom porto e nada os impede de até poderem ultrapassar o que foi feito até agora por Cabo Verde.

 

O investimento no projecto do hotel é muito significativo…

É o maior investimento estrangeiro em Cabo Verde, enquadra-se no interesse nacional, e é eventualmente o maior investimento de Macau em África. Espero que não seja um caso único, nem eu gostaria que fosse, para o bem de Cabo Verde e dos outros países.

 

A estabilidade política de Cabo Verde, que tem contrastado ao longo dos anos um pouco com o panorama africano, explica a vontade dos empresários de investirem no país?

Sem dúvida que é um dos nossos cartões de visita, assim como os nossos recursos humanos. Em contraste com a falta de recursos naturais, a estabilidade político-social tem sido, desde a nossa independência, uma das grandes alavancas do investimento exterior. Os nossos recursos materiais são mais limitados do que em outros países, mas os recursos imateriais, o turismo, a par de políticas de incentivos fiscais e não-fiscais, têm funcionado como forma de captação de investimento.

 

Sai com o sentimento que deixou alguma tarefa por concretizar?

Honestamente… Eu tinha definido que se participasse num projecto de investimento que ficava satisfeito. Mas não estou por completo porque não conseguimos levar investimento do Interior da China para Cabo Verde. Estivemos à porta com variadíssimas ligações e reuniões, mas várias questões, que não vou mencionar, não permitiram a conclusão desses processos. Certamente que o meu sucessor e a Embaixada na China vão continuar ou reformular estes casos. Nesta área gostaria que tivesse conseguido deixar mais feito.

 

O acesso ao Fundo da Cooperação para o Desenvolvimento é fácil?

Eu diria que o fundo em si poderá não satisfazer todos, e em particular os países menos desenvolvidos. Os destinatários podem não ter a capacidade, quer no sector público ou no privado, de acederem ao mesmo. É uma opinião muito pessoal. Mas também é verdade que muitos projectos não estão bem preparados. Às vezes os estudos de viabilidade estão incompletos, outros não têm os parâmetros necessários, só para dar alguns exemplos.

 

Que formas vê de melhorar esse acesso?

Acredito que se pode agrupar ao fundo outras variantes, outras formas, nomeadamente repensar a criação de uma linha de crédito para as Pequenas e Médias Empresas dos países de língua portuguesa, à semelhança do que acontece com a linha de crédito às empresas africanas. Uma linha de crédito pode ser o complemento necessário para que a maior parte dos projectos, pelos menos aqueles com que eu tenho lidado, também consigam aceder ao fundo.

 

Essa solução não aumenta os riscos para quem investe?

Há mecanismos e pode haver acordos entre as partes para reduzir os riscos de quem investe, pode mesmo pensar-se em criar mecanismos de compensação. Caso contrário, vai continuar a ser difícil aceder ao fundo, que mesmo assim tem resultados positivos, uma vez que há entre quatro a cinco projectos a serem financiados. Por outro lado, também há quem entenda que os resultados são curtos, tendo em conta a expectativa criada nos diferentes países.

 

A escolha de Nuno Furtado para substitui-lo como representante é a ideal, tendo em conta que estudou em Pequim e domina o mandarim?

Ele tem a capacidade para o cargo e a escolha teve em conta muitos factores que só trazem vantagens a Cabo Verde. Tenho de concordar que o facto de falar mandarim e conhecer a China é uma vantagem, principalmente nos primeiros tempos. Acredito que vai fazer um bom trabalho em prol de Cabo Verde e do Fórum Macau. Aproveito para lhe desejar o maior sucesso.

 

Como foi a transição?

Foi muito suave e natural. A nossa bandeira é Cabo Verde e estamos ambos a trabalhar para o melhor do nosso país. No que diz respeito à parte pessoal, a família dele já está integrada e correu tudo muito bem. Sobre a parte oficial, que é a substancial, foi um processo muito tranquilo, ambos a trabalhámos com muito profissionalismo. Somos pessoas diferentes, ele vai fazer as coisas de forma diferente, mas de certeza que ambos colocamos Cabo Verde em primeiro lugar.

 

Os países com economias menos desenvolvidas precisam mais do Fórum Macau?

É uma perspectiva. A minha é diferente. Se analisarmos os vários momentos, a participação dos países tem momentos com maior e menor interesse. Está relacionado com a dinâmica dos próprios países e das relações com a China. Qualquer dos nossos países tem uma excelente relação com a China, se formos por essa via, nenhum dos países precisaria do Fórum. Mas o Fórum vem complementar essa relação, abrir novos caminhos e fazer algo que muitas vezes a formalidade bilateral não permite.

 

De saída de Macau, pondera continuar a viver no território?

Eu sinto-me bem em Macau, não excluo a possibilidade de ficar mas também não incluo. Não tenho uma decisão tomada.

 

O que vai ser do seu futuro?

Não sei ainda, vou apresentar-me em Cabo Verde, entregar o relatório e agradecer a oportunidade e a honra que foi representar o meu país a este nível. Depois vou decidir o meu futuro. Pode ser que Cabo Verde entenda que posso ser útil em outro lugar, ou que apareçam oportunidades interessantes… Ainda tenho de ver. De certeza que vou decidir o que melhor me serve e à minha família.

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