O caçador de tesouros

William Chak, especialista em antiguidades nascido em Macau, tirou inteiro partido da integração de Hong Kong na China, há 20 anos, para se tornar num dos mais importantes comerciantes de arte antiga em todo o mundo.

Ricardo Pinto

 

O que em regra distingue um comerciante de antiguidades de um colecionador é que o comerciante compra peças de arte antigas para as vender, tirando dessa actividade o maior lucro possível, e o coleccionador compra-as para as manter indefinidamente em seu poder, assim podendo desfrutar delas sem qualquer limitação.

Mas nem sempre é assim. Por vezes, os colecionadores vendem peças antigas por necessidade ou para as trocar por outras, enquanto que os comerciantes guardam algumas antiguidades para toda a vida, simplesmente por não se conseguirem separar delas.  

Veja-se o caso de William Chak, o maior comerciante de antiguidades de Hong Kong. “Há uma peça de Tang Ying, que comprei num pequeno leilão na América há 3 anos, que jamais venderei”, garantiu à Macau Closer. “Quando a vi pela primeira vez, pensei para comigo: tenho que a ter, não interessa por que preço. Será para deixar aos meus netos e aos meus bisnetos”.

Tang Ying (AD 1682-1765), natural de Shenyang, pintor, poeta, calígrafo, prosador e dramaturgo, distinguiu-se acima de tudo na arte do fabrico de peças de porcelana, tendo assumido a supervisão das oficinas imperiais durante os reinados de Yongzheng e Qianlong.

A peça em questão consiste numa auto-representação de Tang Ying em pedra-sabão, datada de 1750. É a sua raridade, mas sobretudo a figura retratada e o seu autor, que a tornam tão importante aos olhos de William Chak: “Assim que vi a peça que ia a leilão, fiquei logo muito entusiasmado com ela ao perceber que só podia ser o retrato do próprio Tang Ying, pois já antes tinha visto uma representação do seu rosto numa outra figura a preto e branco na Cidade Proibida, em Pequim. Ele é o grande mestre da porcelana chinesa. Sem ele, a indústria da porcelana não teria tido a importância que teve na Dinastia Qing”.

Na peça, Tang Ying surge sorridente, envergando um robe com um dragão bordado, rodeado por 5 jovens e por inscrições de três poemas, sobre um fundo rochoso em alto relevo. Levada a leilão em 2013 por um antiquário de Oakland, na Califórnia – aonde chegou pela mão de uma enfermeira que durante muitos anos deu assistência ao seu anterior proprietário, um antigo representante diplomático americano na China –, a peça foi avaliada entre 100 mil e 150 mil dólares. William Chak acabou por arrematá-la por 2 milhões de dólares, depois de um prelúdio e uma licitação dignos de um thriller.

“Para não me deixar afectar pela emoção, decidi ficar em Hong Kong e enviar ao leilão a minha mulher e um dos meus assistentes”, conta o senhor Chak. “Estavam lá entre 40 e 50 colecionadores chineses e todos eles tinham interesse naquela peça. Mas, conhecendo a nossa reputação, perceberam que nós seríamos difíceis de bater e, por isso, algumas horas antes de começar o leilão propuseram à minha mulher um pacto para a sua partilha. Ora, isso significava que a peça teria posteriormente de ser vendida para distribuição dos lucros, e isso era tudo o que eu não queria. Para não me acusarem de responsabilidade por não haver acordo, sugeri que se partilhasse a peça apenas se ela fosse leiloada por uma quantia igual ou inferior a 800 mil dólares americanos. Acima desse valor, cada um faria pela vida”.

A jogada envolvia menos riscos do que possa parecer. Com mais de 25 anos de experiência no negócio de antiguidades e nas visitas a leilões, William Chak tinha por seguro que, apesar da avaliação feita pelo leiloeiro indicar números relativamente modestos, a peça seria arrematada por um valor bem elevado. E, sim, ele estava preparado para pagar o preço que fosse preciso.

Iniciado o leilão, foi necessário esperar apenas 1 minuto e 20 segundos para ser ultrapassada a barreira dos 800 mil dólares. Desfeito o consórcio improvisado horas antes, a partir desse momento era cada um por si.

Apenas 20 segundos mais tarde ouvia-se uma oferta de 1 milhão de dólares, facto que foi sublinhado com os primeiros aplausos na assistência. Mas estava-se apenas a meio caminho do desfecho. Só dois longos minutos depois um lance feito ao telefone pelo assistente de William Chak atingia os 2 milhões de dólares, originando nova chuva de palmas, que redobrou de intensidade quando, sem que mais vozes se ouvissem, o martelo se abateu com estrondo sobre a mesa do leiloeiro.

A estratégia de William Chak tinha produzido efeito. Não só alguns dos seus competidores tinham ficado isolados e por isso enfraquecidos, como o uso do telefone pelo seu assistente permitira esconder dos demais presentes na sala quem era o licitante que estava disposto a ir até ao fim. Uma vez acrescentado o prémio devido à casa de leilões de Oakland, Chak desembolsou pela peça 2 milhões e 235 mil dólares americanos, o equivalente a 17 milhões e 800 mil patacas.

Dinheiro bem gasto, diz ele. No ano passado, quando o entrevistámos, a peça estava patente ao público na Feira Internacional de Antiguidades de Hong Kong (evento que ele próprio vem organizando desde 2008), rodeada de todas as atenções: não só a peça de Tang Ying ocupava o pavilhão central da feira, como ilustrava a capa do catálogo da mostra e era também tema de um dos seminários ali realizados. Como William Chak não deixou de sublinhar, nunca antes a obra do grande mestre chinês tinha merecido uma tão importante homenagem num evento do género.

Uma montra para o mundo chinês

 

O nosso primeiro encontro com William Chak teve lugar há 20 anos, quando Hong Kong estava a poucos dias de regressar à soberania da China. Nessa altura, visitámo-lo na sua loja de antiguidades, uma das maiores existentes na Hollywood Road, em Central, e pedimos-lhe que nos falasse das suas expectativas para o futuro. Com o mesmo largo sorriso que ainda hoje não dispensa, disse-nos que não alimentava qualquer preocupação com a passagem da soberania para a China, antes sentia um enorme optimismo pelas oportunidades que uma relação mais íntima de Hong Kong com a Mãe-Pátria não deixaria de criar para os empresários locais.

Agora, duas décadas volvidas, explica que o sucesso que entretanto alcançou tem tudo a ver com essa postura inicial.

“Em 1996, um ano antes da transferência de soberania, eu e a minha mulher decidimos comprar um apartamento em Pequim, o que significa que estávamos de facto optimistas em relação ao futuro”, revela, antes de nos contar uma outra decisão que então tomou e que foi ainda mais importante: “Inscrevi-me no curso de Arqueologia na Universidade de Pequim, e isso mudou a minha vida. Durante 4 anos, passei a vida a correr entre Hong Kong e Pequim, a dividir a minha vida entre os estudos e o negócio. Nem sempre foi fácil, até porque pelo meio apareceu a SARS (acrónimo em inglês da Síndrome Respiratória Aguda Grave, que em 2003 vitimou mortalmente 300 pessoas em Hong Kong) e viajar era então desaconselhado. Mas apesar de todas as dificuldades, fui muito feliz ao longo desses quatro anos”.

Feliz, em todos os sentidos. Foi então que travou conhecimento com uma estrela da televisão chinesa, o actor Wang Gang, que acabaria por convidá-lo a integrar a equipa de um programa da televisão de Pequim sobre antiguidades, denominado Tianxia Shoucan (Colecção Mundial). Aí, ao lado de outros especialistas em arte chinesa antiga, William assumiu semanalmente a responsabilidade de distinguir peças verdadeiras de falsificações. Os concorrentes que vissem as suas peças ser classificadas como verdadeiras, ganhavam uma medalha de ouro e um certificado de autenticidade; os que tivessem peças consideradas falsas, assistiam impotentes à sua destruição a golpes de martelo, no próprio estúdio de televisão e em directo para 60 milhões de espectadores.

“Durante muito tempo foi o programa mais visto da televisão chinesa, logo a seguir às notícias da CCTV”, garante William Chak. “A tensão e o suspense eram muito grandes e isso mantinha as pessoas presas à televisão. Uma vez, avisámos o proprietário de um vaso de porcelana de que não era uma peça antiga. Mas ele tinha pago por ele um milhão e meio de renmimbis e insistia na sua autenticidade. Quando lhe partimos o vaso, teve de ser levado de ambulância para o hospital, por não se sentir bem”, conta sem conseguir disfarçar algum embaraço. Em regra, no entanto, só eram destruídas as peças que fossem grosseiramente falsas, apressa-se a acrescentar; todas as outras, mesmo quando se tratasse de objectos relativamente recentes, como os produzidos durante a Revolução Cultural, eram poupadas à força destruidora do martelo.

A enorme popularidade do programa, transmitido para toda a China entre 2006 e 2013, fez de William Chak o especialista de antiguidades mais reconhecido e respeitado pelos chineses, e um dos mais poderosos comerciantes de arte em todo o mundo. Mas para se compreender o seu enorme sucesso num mercado tão competitivo, é preciso recuar às suas origens – a Macau, onde nasceu há 60 anos.

  

Sonho cumprido

 

William Chak herdou do pai, imigrante da província de Shandong, o gosto pelas antiguidades, que este recolhia invariavelmente em depósitos de lixo, nas suas deambulações pelas ruas da cidade de Macau, então colónia portuguesa. Ao longo dos anos, o jovem William foi-se habituando a ver essas peças serem trocadas por dinheiro sempre que as necessidades da família o aconselhavam, e isso acabou por o marcar para sempre.

A família mudou-se para Hong Kong no final dos anos 60, quando William tinha 12 anos. Comerciante de toalhas de renda ao estilo português, o pai planeava tirar partido das maiores oportunidades existentes na colónia britânica, à data, mas a mudança coincidiu com uma grave enfermidade que o impediu de continuar a trabalhar. Depois de vendidas todas as antiguidades levadas de Macau, William teve de deixar os estudos para ajudar no sustento da família e, sem grande surpresa, foi num antiquário que conseguiu um dos seus primeiros empregos. Em 1974, acompanhou pela primeira vez o seu patrão, Mestre Wong, a uma feira de artes em Londres. E desde então nunca mais deixou de percorrer o mundo à procura de peças antigas aos melhores preços.

“Gosto de feiras mais do que de leilões”, confidencia. “Em ambos os casos, é como se fazer parte de uma caça ao tesouro. Mas nos leilões, o facto de se gostar de uma peça não significa que se consiga tê-la; é preciso lutar com outros interessados. Já nas feiras, se se gosta de uma peça é possível ficar imediatamente com ela, depois de alguma negociação. Para além disso, são espaços de grande intercâmbio cultural. E daí que desde há muito tempo viesse pensando que seria fantástico poder trazer esse tipo de feiras para Hong Kong”.

A evolução do seu negócio de antiguidades foi determinante para a decisão de avançar para esse projecto. Antes da transferência de soberania, a clientela da loja que vem mantendo na Hollywood Road desde 1988, ano em que se lançou no mercado por sua conta e risco, era maioritariamente composta por colecionadores de Hong Kong (60 por cento), sendo os restantes oriundos de países ocidentais. Hoje em dia, 70 por cento dos clientes da empresa são do Continente Chinês. E essa nova realidade levou-o a concluir, faz agora 10 anos, que estavam suficientemente amadurecidas as condições para a organização da uma Feira Internacional de Antiguidades em Hong Kong.

“Os chineses eram já suficientemente ricos e começavam a interessar-se por antiguidades”, justifica. “Os ocidentais estavam também interessados em vir a Hong Kong contactar os comerciantes de arte chineses. E nós podíamos servir de ponte”.

A feira reúne a cada edição perto de uma centena de pavilhões dedicados ao comércio de antiguidades, a maioria dos quais de ‘dealers’ locais e da China, mas com um número crescente de representações estrangeiras. O stand da Chak’s Company Limited, localizado bem no centro da feira, distingue-se pela raridade e valor elevado das suas peças; cerâmicas do reino dos imperadores Soong, jades, bambus e porcelanas das dinastias Ming e Qing, adquiridas a negociantes de todo o mundo. Os valores envolvidos neste marcado atingem somas exorbitantes: em 2005, antes mesmo da feira existir, William Chak pagou por um vaso do séc. XVIII, reinado do Imperador Qianlong, 115.4 milhões de dólares de Hong Kong, que na altura estabeleceu um novo máximo para negócios de arte na Ásia e um recorde mundial para porcelana da dinastia Qing.

William Chak não ignora, nem fica indiferente ao debate de contornos morais que frequentemente se trava sobre a origem das peças de arte antiga chinesas, muitas das quais foram transportadas para o Ocidente depois de pilhadas por exércitos invasores nos muitos conflitos militares que a China se viu obrigada a enfrentar ao longo dos séculos XIX e XX. Mas defende que é quase sempre muito difícil, senão impossível, determinar a legitimidade da sua aquisição originária, e por isso só se impõe uma restrição na sua busca incessante por antiguidades: “A origem das peças normalmente não me preocupa, a menos que venham de sítios de escavação arqueológica na China. No dia em que entrei na Universidade de Pequim, prometi a Deus que jamais compraria peças que viessem de sítios arqueológicos. E continuo a cumprir essa promessa”.

No seus planos actuais, conta-se a hipótese de trazer até Macau uma extensão da feira de antiguidades que organiza em Hong Kong. “O mercado de Macau ainda está embrionário e requer muito estudo, mas é possível que se desenvolva o suficiente para fazer sentido organizar aí uma feira nos próximos 5 anos”, afirma. Para isso, aconselha o governo da RAEM a reforçar o apoio ao sector: “Os museus fazem um excelente trabalho, mas é preciso que o governo faça mais pelo conhecimento da arte antiga chinesa. Havendo condições, terei o maior prazer em levar a feira para Macau, até porque continuo a considerar Macau a minha terra”.

“A Macau antiga, não o Cotai”, conclui com um sorriso.

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