Expor em Barcelona a diversidade artística do território num encontro entre artistas de Espanha e Macau

Carlos Sena Caires, Pedro Lemos e Michelle Lau rumaram a Barcelona para a inauguração da exposição que reuniu artistas do território e de Espanha na semana passada. “Macau x Barcelona – Art of Illustration” levou até à capital da Catalunha os trabalhos de 10 artistas da RAEM que se encontraram na galeria “La Place Art Space” com as obras de outra dezena proveniente de Espanha.  

Carlos Sena Caires: “Foi um pouco esse glamour, a riqueza e depois os jogadores homens que estão ali a olhar para uns sapatos dourados a querer atingir esse nível de vida”

Depois do Porto e São Francisco, nos Estados Unidos da América, Barcelona foi a cidade escolhida para participar num projecto de intercâmbio e divulgação da arte de Macau promovido pela Yunyi – Arts and Cultural Communication Association (Associação de Artes e Comunicação Cultural). Christine Hong-Barbosa, directora do projecto, foi a responsável pela curadoria dos trabalhos dos 10 artistas do território que integraram a exposição colectiva “Macau x Barcelona – Art of Illustration” patente na galeria “La Place Art Space” na capital da Catalunha. Pedro Lemos, Carlos Sena Caires e Michelle Lau foram os três artistas de Macau que estiveram presentes na inauguração da mostra que reuniu também no mesmo espaço os trabalhos de 10 artistas de Espanha.

Um toque de ironia e sarcasmo aliado ao ambiente que se vive nas “festas malucas onde não se sabe muito bem quem é quem”, fruto das máscaras utilizadas e que nas duas obras de Carlos Sena Caires assumem a figura suína. “Of Girls, Pigs and Boys” foi originalmente um díptico desenvolvido na sua totalidade no programa “Procreate” desde o esboço ao preenchimento final. “Depois, com a plasticidade do digital e destas ferramentas comecei a juntar os dois e a fazer novas composições e a ver o que resultaria melhor e acabou sendo estas duas obras” contou o artista ao PONTO FINAL.

As várias camadas de leitura do ponto de vista narrativo escondem as várias sensibilidades com que Sena Caires cunhou a obra: a morte, o sexo e a luxúria. “Há vários aspectos misturados que poderão contar alguma coisa consoante quem estiver a ver a obra, mas deixo aos fruidores essa leitura”, disse o também designer gráfico que deste modo guardou para si a história escondida por entre as transparências e opacidades.

As mulheres que envergam vestidos luxuosos e que pairam sobre um grupo de homens reunidos em redor de uma mesma mesa representam o seu desejo e são para eles inatingíveis. “Aquele glamour, aquela riqueza dos trajes delas que indicam um status social superior e eles estão cá em baixo numa posição mais térrea, com vestimentas mais modestas e transparentes que não deixam perceber muito bem o que é e que olham para uns sapatos que passam a ser a forma de imaginar estas mulheres”, descreve o artista.

As duas obras são para o também coordenador do Departamento de Design da Universidade de São José “uma espécie de leitura” sobre o seu primeiro ano em Macau. “Foi um pouco esse glamour, a riqueza e depois os jogadores homens que estão ali a olhar para uns sapatos dourados a querer atingir esse nível de vida. Há assim uma relação entre essa cidade de contrastes que é Macau e também quis reflectir isso um pouco nos trabalhos”, contou Carlos Sena Caires.

Pedro Lemos: “O objectivo do desenho não era ser um desenho criativo ou de exposição; tinha uma função muito clara que era explicar quem era a pessoa ou o ambiente, nunca foi o objectivo de expô-lo de forma criativa”

 

EU VENHO SUBSTITUIR UMA CÂMARA”

 

O trabalho começa com a sala de tribunal ainda vazia. Pedro Lemos, produtor da TDM (Teledifusão de Macau), começa por fazer um esboço do espaço que momentos depois começará a ser preenchido. Os protagonistas da sessão – sejam eles o réu, os advogados, o juiz – são o foco do trabalho do desenhador. “Normalmente faço esboços rápidos de cinco minutos em que é só para tirar algumas medidas de cabeça e faço o máximo que conseguir [e só] depois vou para um desenho com mais calma. Quando acontecem coisas de cinco minutos geralmente vou finalizando as medidas que tirei e normalmente estou a fazer cinco a seis desenhos ao mesmo tempo, porque as pessoas estão sempre a mudar de posição”, explica Pedro Lemos.

Dentro da sala do tribunal “volta-se a uma função arcaica” com a proibição dos gravadores e das câmaras substituídos pelo papel e caneta. Os esboços que produz assumem para Pedro Lemos uma “função social” de mostrar às pessoas o que se passa dentro desta zona interdita. “O objectivo do desenho não era ser um desenho criativo ou de exposição; tinha uma função muito clara que era explicar quem era a pessoa ou o ambiente, nunca foi o objectivo de expô-lo de forma criativa”, acrescenta o artista.

O limite temporal da sessão que se desconhece até ao seu término efectivo impõe no desenhador um equilíbrio entre “espontaneidade e cálculo” que o impede de “tirar as medidas às pessoas e ordená-las [para] fazer um desenho mais calculista, mais perfeccionista até”. No entanto, “convém ser o mais fiel possível às feições das pessoas”.

A questão do bilinguismo e da utilização dos aparelhos de tradução dentro da sala do tribunal foi para o produtor um aspecto incontornável. “Toda a gente utiliza os ‘headphones’, eu não podia fugir ao que estou a ver, era quase impossível fugir a isso” disse Pedro Lemos, que vê este pormenor como bem representativo de Macau.

 

Michelle Lau: “A secção vermelha são as ‘Rocky Mountais’ [Montanhas Rochosas] no Colorado que foi onde eu andei na universidade e depois fui para Nova Iorque – a secção verde representa Nova Iorque – e depois Hong Kong; na realidade a roxo está a Ponte de Sai Van e depois Macau a amarelo”

REDESCOBRIR A VERTENTE ARTÍSTICA ENTRE OS NÚMEROS DA ANÁLISE FINANCEIRA

 

Quando Christine Hong-Barbosa convidou Michelle Lau a participar na exposição em Barcelona, disse-lhe apenas que tinha total liberdade para desenhar o que quisesse. Ao PONTO FINAL, a analista financeira contou que após várias tentativas, o resultado final foi alcançado quando o seu filho aprendeu a falar. “Eu tentei várias coisas mas não estava contente com o resultado e foi nessa altura que o meu filho começou a falar e eu percebi que o seu animal favorito é a baleia” disse Lau.

A grande baleia azul é a representação dela própria que leva o filho a sobrevoar os locais por onde viveu. “A secção vermelha são as ‘Rocky Mountais’ [Montanhas Rochosas] no Colorado que foi onde eu andei na universidade e depois fui para Nova Iorque durante alguns anos – a secção verde representa Nova Iorque – e depois Hong Kong; na realidade a roxo está a Ponte de Sai Van e depois Macau a amarelo”, descreveu a artista.

Durante o ensino secundário que frequentou em Hong Kong, Michelle Lau estudou desenho e aguarela mas por influência dos pais acabaria por seguir a área do comércio financeiro, relegando a sua vocação para segundo plano. Seria apenas com o convite da curadora da exposição que a analista financeira viria a redescobrir a sua vertente artística.

 

BERLIM OU ESTOCOLMO DEVERÃO SER AS PRÓXIMAS CIDADES A PARTICIPAR NO INTERCÂMBIO CULTURAL

 

Total liberdade criativa e nenhuma restrição de meios ou temas para a produção dos trabalhos finais foi o ponto de partida dos artistas para a criação das suas obras. “Este ano nós não tivemos nenhum tema porque nos queríamos focar no estilo individual de cada artista para que cada um pudesse desenhar o que achasse que fosse representativo do seu estilo pessoal”, explicou Christine Hong-Barbosa em declarações a este jornal.

Após a passagem pelos Estados Unidos da América, Portugal e agora Espanha, a curadora diz ser perceptível o desenvolvimento dos artistas locais e também os diferentes estilos dos vários países. “Pelo facto de serem bastante diferentes, nós podemos aprender uns com os outros através das técnicas de desenho, os meios utilizados, a inspiração, o conceito e também de como vivem como artistas nos seus países”, disse Hong-Barbosa. E quanto à próxima edição, já começaram a contactar com outras cidades? “Em princípio será Berlim ou então Estocolmo”, revelou a responsável do projecto.  

No entanto, antes da edição de 2018, a exposição “Macau x Barcelona – Art of Illustration” irá ser apresentada também em Macau. A inauguração já está marcada para 17 de Outubro e a galeria da Fundação Rui Cunha foi o local escolhido para acolher a mostra. O curador dos trabalhos dos artistas de Espanha, Martí Sánchez-Fibla, foi convidado por Christine Hong-Barbosa para estar presente nesse dia e falar sobre o panorama cultural do seu país.

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