Das cinzas… Uma nova esperança

A  Festa litúrgica da «Transfiguração» que todos os anos celebramos no dia 6 de Agosto e que este ano calha no Domingo, parece ter começado a ser celebrada já no século IV, entre os monges do deserto. Surpreendentemente, são as Igrejas  na Península Ibérica que asseguram  a continuidade desta Celebração. Propagou-se, em seguida,a numerosas dioceses de França e de Itália. Mais tarde, já no século XV, o Papa Calisto III mandou que fossse celebrada em toda Igreja Latina.

« A Transfiguração» recorda aquele passo, a meio da  vida pública de Jesus, em que Ele se transforma, de uma maneira esplendorosa, diante dos três apóstolos mais íntimos, Pedro, Tiago e João, assim descrito pelo Evangelho :  « o seu rosto ficou resplandescente como o sol e as suas vestes tornaram-se brancas como luz.» Esta passagem constitui, ao mesmo tempo, como que um pré-anúncio daquilo que será, mais tarde,  a Ressurreição, a revelação do poder soberano de Jesus Cristo, o Filho de Deus, sobre a Morte e o Mal..

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Não consigo escapar ao quadro negro e esquelético dos bosques e florestas de Portugal, àquela ‘estrada da morte’ que parece não findar, às casas reduzidas a escombros, aos olhos, deixando correr grossas lágrimas silenciosas, às vozes sumidas, cheias de angústia, que balbuciam ‘… nada me resta…’

Ouso, timidamente, perante cenário tão cruel e devastador, meditar na Palavra de Deus deste Domingo, o Décimo Oitavo do Ano Litúrgico,  com o texto de  «A Transfiguração»

Esta manifestação portentosa de Cristo, o Senhor, dá-se, no tempo histórico da Sua missão, como que a meio. Isto para nos fazer compreender, em primeiro lugar, que, apesar das dificuldades, tormentos e catástrofes que a existência neste mundo nos pode apresentar, sempre há uma nova Esperança, para além desses acontecimentos. Em nós, conservamos uma capacidade de ultrapassar as tristezas e amarguras da vida,  particularmente, se nos focamos em Cristo, ‘o homem das dores’, da ignomínia  e do fracaso. Aquele que encarna no seu próprio corpo  toda ‘a  miséria humana,’ e dela é capaz de nos libertar.

A experiência no alto do monte, oferece-nos, além disso, a chave de leitura do Sofrimento e do Mal  Humanos e revela-nos um caminho de Libertação e de Salvação.  A  narração do Evangelista Lucas continua, dizendo : « Dois homens falavam com Ele(Jesus) : eram Moisés e Elias, que tendo aparecido em glória, falavam da morte de Jesus, que ia consumar-se em Jerusalém.»

Mas, mais uma vez, a Humanidade,  Homens e  Mulheres, de carne e osso, tem dificuldade em aceitar que, em Jesus Cristo, pela Sua Palavra e pelo Seu Testemunho  na Cruz, Morte e Ressrreição, temos a absoluta certeza que da Morte pode surgir uma nova Vida; da Miséria Humana, brotarem Rasgos de Glória; da Angústia e Desespero, nascer a Alegria; da Escuridão  brotar a Luz; do Caos formar-se uma nova Criação; sobre o Mal e a Maldade  reinar Deus Amor e Perfeição. Não acreditamos, mas aí está ‘o Caminho, a Verdade e a Vida.’

Duvidamos do poder de Deus sobre os males deste mundo… Sim, questionamos ou  até negamos. Mas, incrivelmente,  aconteceu o mesmo com os próprios apóstolos. Por exemplo, tempos antes, desta manifestação gloriosa de Cristo Jesus, já Pedro era vigorosamente repreendido por Jesus por se recusar a aceitar que Ele, o Mestre, tinha de passar por  maus tratos, humilhações, sofrimentos e mesmo pela morte para salvar a todos.. E sua persistência levou-o até à negação…Comporta-se assim, Ele, o Líder dos Apostólos e futuro Chefe da Igreja de Cristo, que assistiu ao acalmar de tempestades. Várias vezes, acompanhou o Mestre e viu-o dominar a fúria dos demónios. Presenciou  trazer à vida mortos que já cheiravam mal ou restituir a saúde a tímidos que receavamm aproximar-se d’Ele, Jesus Ccristo, Filho de Deus e Filho de Homem.  

  « Este é o meu Filho, o meu Eleito; escutai-O » lê-se, finalmente, no texto evangélico. Em termos simples, Jesus Cristo, verdadeiramente Homem, compreende a nossa Humanidade e nossa fragilidade. A voz Deus Pai confirma Jesus Cristo, verdadeiro Filho de Deus, como capaz de libertar e salvar todo o ser humano de toda e qualquer fraqueza ou Mal.

 

Uma breve conclusão, ‘das cinzas… a uma nova Esperança.’ Nada posso, em termos concretos. Sou estou profundamente convencido que,  para ultrapassar situações terríveis e dramáticas com estas temos que fazer um ‘Caminho Interior’. Precisamos de descer ao mais profundo das nossas ‘tristezas e angústias de ser’,  tocar  o ‘vazio do meu próprio ser’ e entrar  na experiência da ‘ausência de Deus.’ No mais íntimo e profundo do meu ser, começarei a ouvir algo que me faz sentir um ‘coração novo’ um ‘espírito novo’ e uma ‘nova vida’.

Jesus Cristo é o nosso exemplo para ganhar uma nova Esperança. Ele também gritou com  lágrimas : « Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes » e contrariamente ao que é a inclinação da nossa sensilidade, isto é, desanimar, desesperar e fugir, Ele reagiu, dizendo : « Pai, nas tuas mãos entrego Meu Espírito .»

Nestes momentos de indiscritível dor e amargura, a resposta é o abandono total a Deus, com confiança  radical e inabalável.  Não é abandonar-se ao humano, dominado pela angústia, lamentação e desesperança.

Das cinzas inertes e negras brotará nova vida!

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