“Quero ser uma poetisa na minha cidade”

No centro da “32ª Exposição Colectiva dos Artistas de Macau – Obras Premiadas”, que até 27 de Agosto reúne, no Edifício do Antigo Tribunal, 72 trabalhos dos cinco artistas distinguidos na edição do ano passado da mostra colectiva, está uma série de aguarelas, gravura e gravura sobre tijolo de Lam Wun Keng, que conquistou os dois principais prémios do evento organizado pelo Instituto Cultural. No corpo de trabalho da artista, é resgatada uma Macau que subsiste perante a acelerada metamorfose da cidade.

 

 

Sílvia Gonçalves

silviagoncalves.pontofinal@gmail.com

Fotografias: Eduardo Martins

 

Mulher embrulhada em corpo de menina. A timidez traduzida no gesto que vacila, no fio de voz que a custo se desprende e desvenda a intenção ocultada no trabalho exposto. No embate, uma vez mais, com o público que espreita e avalia. Mulher que sacode a fragilidade perante a tela e o papel para neles depositar uma visão irónica e satírica sobre a cidade transmutada. Lam Wun Keng pinta a Macau que subsiste por entre os escombros da inexorável passagem do tempo. Sobre o pedaço de chão onde nasceu faz incidir uma infinita paleta de cor e brilho, que resulta na composição de cenas cravadas no agora e na memória, e que traduzem a devoção pela antiguidade do casario ou o trabalho árduo e contínuo de quem sobreviveu num tempo pretérito.

Recolhida a um canto da grande sala, no Antigo Tribunal, Lam Wun Keng, aguarda em silêncio, alheada da cidade que, ao final da manhã, trepida no exterior. Diante dela, um extenso e coeso corpo de trabalho que não se adivinha ter a assinatura de uma artista de 23 anos, que há apenas cinco anos cravou na arte o seu destino. “Alguns perguntam porque escolhi estas cores para me apresentar, é porque Macau é uma cidade turística. De manhã as pessoas estão em cima, de noite em baixo. Muitas vêm pela manhã, à noite os turistas partem. Na minha percepção dos nossos edifícios, estes são muito coloridos, de manhã abre-se a luz e são muito brilhantes e coloridos. Por isso uso a cor como base, no centro da imagem está a velha Macau”, conta Lam Wun Keng ao PONTO FINAL.

Formada em Artes Visuais (Gravura), pela Escola de Artes do Instituto Politécnico de Macau, Lam lecciona Arte no Colégio Diocesano de São José. No tempo que sobra do ensino volta-se para a pintura e gravura, vocação que a reposiciona no centro do mundo, onde pretende fincar uma marca de poesia: “Primeiro tiro fotografias nas ruas. Depois de sair do trabalho, caminho vagarosamente pelas ruas, quero ser uma poetisa na minha cidade. Tiro muito prazer desse momento”, revela a artista, que lentamente evidencia uma relação de intimidade com uma cidade onde viu sobreporem-se camadas de aceleração e modernidade.

Com o toque fluído da aguarela, Lam recupera quadros de uma Macau que subsiste nas artérias envelhecidas. “Encontro sempre uma história, como esta imagem [aponta para a aguarela ‘Deliciosos biscoitos de amêndoa’]. É uma velha loja, a senhora trabalha lá há tantos anos. Gere o seu negócio para ganhar dinheiro, para ajudar o seu filho, para manter a família. Continua até hoje na loja. Quis mostrar esta mulher, a senhora Lee, porque nos anos 60 as pessoas trabalhavam no duro, ela precisava de ganhar dinheiro para criar a sua família”.

Um tempo que Lam diz ser muito diferente do contexto que enforma a geração a que pertence: “Penso que o século XX foi muito diferente de hoje, porque eles sempre trabalharam tão duro, e na minha geração não é assim”. O olhar da artista volta-se de seguida para uma das aguarelas mais irónicas que concebeu, onde se afiguram os velhos edifícios do Patane. Uma imagem que denuncia uma especial atenção à preservação do património, que atravessa o seu trabalho: “Na história da Branca de Neve e os Sete Anões, os anões precisam de proteger a Branca de Neve, portanto quis colocar aqui os sete anões para proteger estes edifícios. E agora os edifícios converteram-se em biblioteca”.

A jovem artista, que desde 2015 soma prémios, bolsas e distinções – como a Bolsa de Mérito da Fundação Macau e a Bolsa de Desempenho Académico Excelente da Escola de Artes do Instituto Politécnico de Macau – avança para uma reflexão sobre as condições em que subsistem os jovens artistas no território: “Penso que o ambiente artístico cá… em Macau há tantas exposições, mas são sempre os turistas a visitá-las. Macau deve usar os recursos principalmente para os estudantes, para que tenham mais oportunidades nas escolas, para que possam expor na nossa cidade, para que possam experienciar Macau”.  

“QUERO QUE AS PESSOAS DE MACAU CAMINHEM VAGAROSAMENTE”

A arte traduz, de resto, para Lam Wun Keng, um modo de afirmação da humanidade: “Sou professora de arte numa escola e o meu pensamento é sermos humanos através da arte. Usar a experiência artística para aprender algo, sobre a vida e sobre mim própria. Quero que as pessoas de Macau caminhem vagarosamente”.

Prossegue a artista pela grande sala onde se alinham os seus trabalhos de aguarela, gravura e gravura sobre tijolo. “Os Lusíadas, por Luís de Camões” é o nome que emprestou a uma aguarela onde se sobrepõem janelas e escadaria coberta de azulejo português do interior do edifício do antigo Leal Senado, que estabeleceu em Lam Wun Keng uma ligação ao universo da lírica camoniana. “Peguei no livro, entrei no edifício, andei para cima e para baixo…”.

Ao centro de uma mostra de fôlego está o grande tríptico de gravura, com que Lam Wun Keng conquistou, há um ano, a principal distinção na “32ª Exposição Colectiva dos Artistas de Macau”, o Prémio Especial Melhor Criação, e ainda o Prémio Melhor Execução – Pintura Ocidental. Em duas outras salas do Antigo Tribunal, apresentam-se os trabalhos de outros artistas igualmente premiados na mesma edição da exposição colectiva. São eles: Chan In Iong e Chan Chong Hei, distinguidos com o Prémio Novos Talentos, nas categorias de pintura ocidental e de pintura chinesa. E ainda Guan Seng Lok e Un Ka Ian, ambos na categoria de caligrafia chinesa.

Na grande sala reservada a Lam Wun Keng, o tríptico acolhe os visitantes, volta as atenções para uma obra premiada e que condensa o olhar ávido que artista lança sobre a sua velha cidade. Os três paineis em gravura levam nomes extensos, que a artista detalha, como quem avança sobre uma narrativa longe de estar encerrada: “Esta imagem [‘As Janelas na Casa do Mandarim, a Profecia da Idade de Ouro do lado de fora das Janelas”] tem uma história, a Casa do Mandarim foi recuperada. Nesta imagem [“Por trás da Rua dos Ervanários a vida permanece na mesma”], está a Rua dos Ervanários, que está a ser reparada. A imagem do Hotel Estoril, este vai ser demolido, as pessoas vão perder isto. Aqui levanto uma questão: ‘Estoril, quem és tu?’. Porque somos jovens, muitos de nós não conhecem muito da história de Macau. Este edifício está prestes a ser intervencionado, mas ninguém conhece o seu passado”.

“É PRECISO FALAR DA EDUCAÇÃO ARTÍSTICA EM MACAU, É PRECISO HAVER ALGUMA MUDANÇA”

Para além de aguarela e gravura, a sala votada a Lam Wun Keng esconde uma inusitada série de gravura sobre tijolo vermelho. Dezoito tijolos alinhados na parede revelam a ligação emocional de Lam à cidade, a metamorfose que a transfigurou irreversivelmente, e de que a artista foi testemunha. Entre eles, figura uma imagem com vários estudantes, com uma ave sobre a cabeça de cada um. A leitura está longe de ser imediata: “Os estudantes, depois de verem uma ave, esta vai assumir diferentes formas no seu pensamento. Eles não têm que pensar as mesmas coisas, deixem-nos pintar como entenderem. Porque em Macau, muitas vezes, os pais e professores dizem que as crianças têm que fazer isto e isto. É preciso falar da educação artística em Macau, é preciso haver alguma mudança”. A artista e professora atira um exemplo que traduz ausência de liberdade criativa: “Quando fiz o estágio numa escola, quando as crianças tinham de participar nalguma competição, o professor mostrava uma imagem e dizia: tens que fazer isto. E a criança tentava durante muito tempo fazer isso e seguir para a competição”.

Entre os tijolos intervencionados também está “A Invasão do Senhor Starbucks”, que “invadiu o mundo inteiro”. A “Paixão a Preto e Branco”, que remete para uma memória de infância: “São os meus pais a dançar”. Ou aquele onde estão alinhados alguns bancos, e que encontra explicação inesperada: “Consegues adivinhar porque pintei bancos vazios? Porque se parecem com isto [cruza os pés como uma bailarina]. Não há muitos bancos como estes em Macau”.  E ainda “Raparigas Dinamarquesas, símbolo de uma era”, que remete, explica a criadora, para o amor entre pessoas do mesmo sexo: “Eu vi o filme [‘A Rapariga Dinamarquesa’], estou a falar deste século e este tópico é tão polémico”, assinala a artista, enquanto recorda que “em Taiwan foi legalizado o casamento entre pessoas do mesmo sexo”.

Lam Wun Keng prepara agora, vagarosamente, aquela que será a sua primeira exposição individual, agendada para 2018: “Vou ter uma exposição a solo no próximo ano, em Abril. Numa galeria junto ao Templo de A-Ma, é o MMM Studio”. De aguarela? “Não, de gravura”. Será também sobre Macau? “Talvez, ainda estou a pensar”.

A extensa lista de exposições colectivas em que participou desde 2013, nomeadamente em Macau, Taiwan e na China continental, o amplo reconhecimento que tem recebido numa fase embrionária do percurso artístico, não fazem adivinhar a postura de Lam Wun Keng, quando questionada sobre o momento em que percebeu que seria artista: “Ainda não sou artista”. E porquê? “Porque não tenho o potencial e não tenho a mente louca”. Acredita que um dia será artista? “Espero que sim, vou continuar”.

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