João Paulo Borges Coelho: “A nossa literatura está a aprender a ser literatura”

João Paulo Borges Coelho esteve de passagem por Macau como um dos oradores do XII Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas e em entrevista ao PONTO FINAL falou sobre temas como o surgimento e a actual mutação da literatura moçambicana. O historiador foi o vencedor do Prémio Leya 2009 com o romance “O Olho de Herzog” e em 2004 foi galardoado com a principal distinção literária em Moçambique – Prémio José Craveirinha da Literatura – com a obra “As Visitas do Dr. Valdez”.

João Paulo Borges Coelho, historiador e escritor moçambicano, fotografado no Instituto Politécnico de Macau, a propósito do encontro da Associação Internacional de Lusitanistas.

Fotografias: Eduardo Martins

A literatura moçambicana nasce com uma “elite mestiça e num processo de ambiguidade” ainda que o escritor e historiador João Paulo Borges Coelho considere “arbitrário” definir uma data para o seu surgimento. Às vozes marcantes e incontornáveis da cena literária de Moçambique sucedem-se actualmente escritores jovens que estão a definir um novo panorama marcado pela renovação dos temas com o amor lírico a ocupar o lugar da afirmação da nacionalidade e da defesa dos direitos humanos. Apesar destas mudanças, o romancista moçambicano, nascido no Porto, entende que a literatura do seu país pertence ainda a uma elite que encontra nas livrarias o seu espaço de expressão. O livro é, assim, um bem caro, fruto também de um sistema editorial com uma base muito reduzida de leitores, explicou João Paulo Borges Coelho em entrevista ao PONTO FINAL.

 

Durante a mesa redonda dos escritores que teve lugar durante o XII Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas disse que a literatura moçambicana nasce com uma elite mestiça mas também de um processo de ambiguidade. Que processo é este?

João Paulo Borges Coelho: É um pouco arbitrário definir uma data para o nascimento da literatura de tal forma que ainda hoje eu penso que é questionável se existe literatura moçambicana ou não, ou seja, se existe um corpus que a permite definir. O que é a literatura moçambicana? Escrita por moçambicanos, acerca de temas moçambicanos? Eu parto do princípio que é talvez um conjunto mal definido das duas coisas, ou seja, cidadãos ligados a Moçambique que desenvolvem temas que têm a ver com a moçambicanidade. De facto, esta geração que protagonizou as coisas no último quartel do século XIX e no primeiro quartel do século XX era constituída por um conjunto de pessoas de Moçambique, ligadas aos centros organizativos e culturais moçambicanos. No caso dos irmãos Albasini sendo até proprietários de jornais, nomeadamente “O Africano” e depois o “Brado Africano”. Eram jornais em que num primeiro momento discutiam as questões da terra e levantaram problemas dos seus habitantes. Um problema candente nessa altura eram os direitos dos cidadãos não brancos à cidadania. 

Estamos ainda a falar do último quartel do século XIX?

J.P.B.C.: Exacto. É mais ou menos nesta altura que surgem as leis da assimilação que são leis coloniais que diziam que os africanos que se comportassem como os brancos, que pagassem impostos, que desenvolvessem todo esse contexto, tinham direito a ser portugueses como os outros. É curioso que, num certo sentido, o advento da república criou uma situação de racismo muito mais agressiva do que o regime monárquico anterior. De facto, o Albasini vai constatar que, mesmo satisfazendo todas essas exigências, os negros não deixavam de ser considerados negros. Ele diz que o empregado sabe comer com talheres, sabe limpar a boca depois de comer mas o patrão é branco e ele continua a ser negro, ou seja, vão perceber que as leis da assimilação são um logro. Então, há uma espécie de substituição da atitude de “nós também queremos ser portugueses, temos direito a ser portugueses”, para uma atitude diferente que é “já que não nos deixam ser portugueses queremos ser nós mesmos”. Isto é um período de ambiguidade em que estas elites são educadas, falam muito bem português, são – como no caso do Albasini – conselheiros até do governador e ao mesmo tempo começam a desenvolver esta ideia de que o escravo também é gente, também tem direito a ser gente. Há aqui os primeiros elementos que vão constituir os fundamentos da identidade moçambicana e tudo isto perpassa pelos jornais com uma escrita elegantíssima. É preciso dizer que mesmo aqueles que vêm nas décadas seguintes e que se dedicam à literatura e à poesia cultivam as formas canónicas na língua canónica.

Até uma determinada altura os temas flagrantes da literatura eram principalmente os direitos humanos, a questão do nacionalismo e colonialismo…

J.P.B.C.: Eram de alguma maneira. Não é uma literatura muito militante que a ordem colonial também não permitiria, mas é uma literatura em que esses valores vão sendo afirmados cada vez mais. São formas já mais directas de interpelar o poder e de afirmar a moçambicanidade. No entanto, é sempre uma literatura de elite, feita por uma elite e, de alguma maneira, para elites alternativas.

Actualmente ainda se assiste a essa elitização da cultura ou já se pode falar de cultura de massas em Moçambique?

J.P.B.C.: Fala-se de cultura de massas mas é um outro tipo de cultura. A literatura é mais complexa, participam também os jornais coloniais com jornalistas de esquerda, há meia dúzia de escritores importantes que têm identidades compósitas. Até 1975 é mais ou menos este o panorama, ou seja, as massas não têm acesso à cultura e sobretudo a uma cultura alternativa àquela que o Estado Novo procura espalhar e instalar. Depois da independência a situação muda muito, tem que ser lida de uma outra maneira mas, de qualquer maneira, ainda hoje os livros não estão disponíveis para toda a gente. O livro é um bem muito caro, assim como o vinho em Macau. Não há o sistema do livro que envolva editores, escritores, críticos e produtores do livro e, portanto, o livro é em grande medida importado. O livro importado é caríssimo e as livrarias são espaços de elite onde a comunidade expatriada vai e a prova disso está nos temas que estão ali à disposição e são destinados àquele público, não são destinados à generalidade das pessoas. O sistema interno ainda é muito incipiente. 

Passados 40 anos desde a independência houve já algum esgotamento desses temas mais flagrantes e estão novas temáticas a ocupar o seu lugar?

J.P.B.C.: Eu considero que a literatura moçambicana vive uma grande transição. É preciso massa crítica, novos escritores, muitos leitores. O pouco que existe de literatura depois da independência é condicionado pelo novo regime político a determinadas características, nomeadamente o épico, a libertação, a nação, a identidade e até meados dos anos 80 são esses os temas. Depois disso começa uma transição de jovens rebeldes a impor, timidamente no princípio, outro tipo de temáticas – é inevitável o amor lírico, o Índico – que começam a entrar progressivamente na literatura. Ela ainda hoje vive essa transição do épico e dos grandes temas para os pequenos temas de todos os dias. É uma literatura que está a aprender a ser literatura porque a literatura tem códigos fechados, não é a expressão das palavras em geral, ela inscreve-se numa determinada maneira fechada de ver o mundo, de questionar o mundo, de escolher temas. A nossa literatura está a aprender a ser literatura.

E quem são as novas vozes da literatura moçambicana?

J.P.B.C.: Eu diria que um dos principais problemas é exactamente esse, o do corpus e dos agentes. É muito pouca gente que escreve, somos um país de quase 30 milhões de habitantes e há meia dúzia de escritores conhecidos portanto é muito pouco. Há alguns jovens escritores mas isto é um processo porque para haver muita gente que escreva tem que haver muito mais gente que leia, a língua tem de ter outro lugar, outra cidadania dentro do ensino. Quando eu digo a língua não digo necessariamente a língua canónica mas a língua como realidade social e o hábito social de grafar a língua, de escrever. Se houver muitos leitores necessariamente vai haver mais escritores, são coisas que andam em paralelo. 

Vê-se também um surgimento de novas vozes femininas? 

J.P.B.C.: Muito pouco, infelizmente. Mesmo olhando para o cenário todo a impressão que eu tenho é que há muito poucas mulheres a escrever. Porquê? Porque a mulher parte de uma situação cruelmente subalterna ou cruelmente limitante. Primeiro, sendo negra, tem historicamente dificuldades de acesso à educação ou à língua. Depois, sendo mulher numa cultura, quer a cultura portuguesa, quer a cultura colonial, quer as culturas locais [que são] ferozmente machistas. O quadro que nos representa é o homem à frente com o fato domingueiro, com o chapéu para trás e com polegares na lapela a avançar e em fila indiana atrás a mulher com os sacos, com as coisas à cabeça, com o filho às costas e nunca ao lado do homem. A Paulina [Chiziane], por exemplo, teve que romper um número inacreditável de barreiras. Agora surgem mais porque a situação se vai alterando [mas] as mulheres é que conquistam porque o regime é tão machista como são as outras culturas em que ele cresceu. Há mais duas ou três mas de qualquer forma são pequenos casos isolados que não alteram esta paisagem lamentável e esse aspecto da literatura como um negócio de homens. 

João Paulo Borges Coelho, historiador e escritor moçambicano, fotografado no Instituto Politécnico de Macau, a propósito do encontro da Associação Internacional de Lusitanistas.

As suas obras foram praticamente todas publicadas em Portugal pela Editorial Caminho. Foi uma opção sua publicar em Portugal porque é lá que entende que está o seu público ou foi devido a factores inerentes a Moçambique?

J.P.B.C.: Todos os escritores moçambicanos, desde o velho Craveirinha, o Mia [Couto], a Paulina Chiziane, eu próprio, o Ungulani [Ba Ka Khosa], todos fizemos esse percurso. Publicámos em Portugal e publicámos em Moçambique [onde] é mais frágil o sistema. Quando eu publiquei o primeiro livro em Portugal não tinha maneira de publicar em Moçambique. A ideia que tenho é que foi subindo em Moçambique mas são ainda ambientes muito restritos, tiragens muito baixas porque o livro mesmo editado em Moçambique é caro. De facto, é um bocado incongruente o livro ser comprado, lido uma vez e depois ser arrumado numa estante, o livro está lá disponível para continuar a ser lido. Isto remete-nos não só para as livrarias mas também para as bibliotecas escolares e universitárias. É impressionante ver como a biblioteca do Instituto Camões está permanentemente cheia de estudantes. Claro que isto é complexo porque é também preciso desenvolver uma cultura de biblioteca porque a realidade nunca é simples. Eu tenho casos na universidade em que indicamos um número de páginas para serem lidas e há estudantes que arrancam essas páginas para levar e ler em casa. Portanto, tudo isto é um processo de cultura, de aprender, de cidadania que tem que ser cultivado de forma a cumprir com o objectivo final que é as pessoas terem acesso aos livros. Agora se os compram, se os lêem nas bibliotecas, tudo isso faz parte do mesmo sistema e a literatura só se desenvolve se as pessoas tiverem acesso aos livros.

Durante uma entrevista, já em 2010, disse que sobre escrever em português em Moçambique se “configura uma espécie de síndrome esquizofrénico, em que se escreve para leitores que estão longe de nós sobre realidades que estão longe deles”. Sete anos volvidos, este paradigma alterou-se de alguma forma?

J.P.B.C.: Não, acho que não e tinha a ver com aquele facto de nós publicarmos fora. Quer dizer, parte-se do princípio, que é questionável obviamente, que um escritor escreve para leitores da sua realidade. Há literatura mais aberta e mais fechada, a minha procura uma abertura mas no fechamento, ou seja, no espaço que me cerca. Custa-me escrever sobre realidades que não conheço e, portanto, procuro a universalidade das realidades que conheço. [Sobre] escritores moçambicanos e angolanos que publicam sobretudo em Portugal, sobre temas da sua própria realidade, é curioso do nosso ponto de vista, como se pode imaginar, e é curioso do ponto de vista do leitor porque eles são lidos por dois aspectos: ou à procura de uma África que é a que eles imaginam ou à procura de imaginar uma África. O segundo cenário é muito melhor, ou seja, procuram notícias de sociedades distantes e talvez do que há em comum. Por exemplo, o meu último livro chama-se “Ponta Gea” que é o nome de um bairro onde viveu muita gente do tempo colonial e no lançamento em Portugal fui interpelado por pessoas que fizeram comentários procurando identificar a minha “Ponta Gea”, que é um espaço literário, com a “Ponta Gea” que eles viveram no passado, na maior parte dos casos antes da independência.

Disse também durante a mesa redonda que para si a relação entre a literatura e a história era uma deformação profissional. Para si esta ligação foi inevitável?

J.P.B.C.: Digo que é uma deformação profissional porque quando comecei a publicar literatura eu já era historiador há muitos anos e a história, neste sentido escolar, deforma a maneira de olhar para a sociedade. Temos a tendência de uma deformação de escala, não conseguimos viver só com o lugar e temos tendência a ver as coisas maiores e sobretudo há uma ideia disforme em relação ao tempo que está sempre presente. Eu não olho para uma pessoa como ela é, de alguma maneira imagino-a sempre como ela era há uns anos e como ela será daqui a uns anos. Vemos processos, vemos transformação e quando vamos escrever sobre pessoas, sobre sociedades, há essa deformação e há também a exploração do acontecido na medida em que partimos do princípio. Nesse sentido era inevitável que a minha literatura tivesse um pouco esse cariz. O horror que eu tenho é que a literatura se veja tomada por aquilo que ela não é, ou seja, ela não é um processo de tornar simples uma história que é complicada. Eu não cito autores mas está muito na moda essa literatura fantástica baseada em pseudo-acontecimentos do passado e, até, de uma forma um pouco perturbante, essa literatura fantástica actual baseada em coisa nenhuma, só na imaginação pura e dura procurando fantasiar o mundo real mas sem fazer ligações com ele e procurando o sabor medieval num esquema futurístico e que não tem relação com realidade nenhuma. Causa-me uma grande confusão. 

Como historiador procura detectar as incongruências históricas que possam estar presentes neste género literário?

J.P.B.C.: Eu tenho uma visão da história que não é muito tradicional. Eu vejo a história como um espaço de discussão sobre o passado e não o passado em si. As discussões produzem narrativas e isso é que é a história. A literatura também produz narrativas a partir de elementos concretos, a dita literatura realista procura dar notícia da realidade do acontecido mas também inclui uma grande carga subjectiva que é o ângulo de quem narra. A mecânica não é muito distinta, o que é distinta é a metodologia, ou seja, a história tem um contrato ético ou deontológico que não vai além da evidência e quando vai além da evidência assinala isso muito bem. A história tem imaginação [que] é fundamental para a construção da narrativa histórica mas ela tem que estar firmemente apoiada num modo de fazer esse caminho e, desse modo, o historiador tem de explicitar e quem lê tem de estar ciente, tem que ter a noção de que é esse caminho que o historiador se propõe fazer. A ligação à evidência não pode ser quebrada e, muitas vezes, no chamada romance histórico, esse processo é mascarado, é falsificado. Procura-se passar como verdadeiro aquilo que é falso e que todos sabemos, nomeadamente o narrador, que é falso. A verdade da literatura é uma verdade diferente, não é esta verdade que baseia a história. 

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