“Os hospitais privados têm alguns incentivos, certamente, de empresas de substitutos de leite materno”

 

Virginia Tam é presidente da Associação Promotora de Aleitamento e Cuidados Infantis de Macau (APACIM), projecto que arrancou em finais do ano passado. A propósito da Semana Mundial do Aleitamento Materno, o PONTO FINAL falou com a dirigente sobre as iniciativas do Governo,  a indústria dos substitutos do leite materno e respectivas influências em Macau e o peso de preconceitos no dia-a-dia das mulheres que amamentam.

EDUARDO MARTINS

Joana Figueira

joanafigueira.pontofinal@gmail.com

 

A criação de um ambiente e condições favoráveis para a promoção e divulgação das vantagens do aleitamento materno tem merecido atenção por parte do Governo. Como vê as medidas que têm vindo a ser implementadas?

Virginia Tam: Diria que de forma optimista. A minha filha tem nove anos e nove anos atrás não se encontravam salas destinadas ao aleitamento materno em qualquer parte de Macau, à excepção de um único sítio. Agora, temos [Associação Promotora de Aleitamento e Cuidados Infantis de Macau] contabilizadas 149. No geral, estamos felizes com esta situação. Mas se me pergunta se há mais que se possa fazer? Sim, sempre. Podemos fazer mais.

 

O seu contributo para o debate sobre questões que envolvem a amamentação e os cuidados infantis começou em 2011. Nota uma evolução no interesse da sociedade civil pelo assunto desde então?

V.T.: Definitivamente, tanto o interesse como a consciencialização aumentaram. Conheço enfermeiras que me falam que a posição tomada hoje em dia pelas mães, ainda no hospital, tem vindo a mudar. Já estão informadas sobre os benefícios do aleitamento materno e estão decididas a fazê-lo. É uma grande diferença. Honestamente, penso que as políticas associadas à amamentação começaram a surgir há muitos anos, devido aos médicos portugueses que trouxeram com eles muita informação. Daí que muitas mulheres afirmavam que, nos hospitais públicos, as recém-mães seriam pressionadas a amamentar. Na maioria dos casos, é necessário um pequeno “empurrão”, portanto penso que trouxeram algo bom.

 

Essa influência veio de fora.

V.T.: Penso que o motivo é, sobretudo, porque a maioria das pessoas desta geração não recebeu aleitamento materno. Foram alimentados com leite em pó. Portanto, naturalmente, têm a tendência de acreditar que está tudo bem em alimentar os seus filhos com substitutos. Mas para as mães que foram amamentadas em criança é diferente, para elas mostra-se natural, sim, dar aos seus filhos o seu próprio leite. A comercialização dos substitutos também é uma grande influência. Há alguns anos, os fabricantes do produto vendiam-no a clínicas médicas. Agora, vemos essa comercialização quando ligamos a televisão, abrimos uma revista… Está em todo o lado.

EDUARDO MARTINS

Em Macau, é proibida a promoção do leite em pó para bebés com menos de seis meses. No entanto, é feita publicidade direccionada para outras idades. De que forma a encara?

V.T.: Essa proibição vai ao encontro do Código Internacional de Marketing de Substitutos de Leite, implementado pela Organização Mundial de Saúde e pela UNICEF. Este código requer que os estados-membros que o assinaram implementem políticas que não permitam aos fabricantes publicitar as fórmulas destinadas, pelo menos, a crianças com menos de seis meses. Contudo, se visitar farmácias, vai ver posters. Os substitutos têm quatro níveis e o primeiro é, normalmente, a fórmula que pode ser consumida pelas grávidas. Eles [fabricantes] são muito inteligentes: tecnicamente, a forma como fazem a publicidade está em concordância com as políticas.

 

De que forma é implementado o  código?

V.T.: Cada país ou região incorpora nesse código internacional a própria situação local. Hong Kong lançou o código no dia 13 de Junho deste ano, mas foi discutido por vários anos, arrastado e reprovado porque há muito dinheiro envolvido. As despesas com publicidade são nada comparadas com as vendas e as receitas dos substitutos.

 

E qual é a influência directa na escolha entre o aleitamento materno e os substitutos?

V.T.: Se uma mulher toma o produto enquanto estiver grávida, a ideia geral que pode surgir é que, quando o bebé nascer, estará mais ajustado a determinada marca, certo? Teoricamente, a mãe pensará dessa forma. Ainda conseguimos assinalar essas situações actualmente.

 

Considera que existe diferença entre dar à luz num hospital público e num hospital privado em termos de opção, ou não, pelo leite em pó?

V.T.: Sim, definitivamente. Os hospitais públicos são sempre melhores, seja em Macau ou nas restantes partes do mundo. Os hospitais privados têm alguns incentivos, certamente, de empresas de substitutos de leite materno. Contudo, sei que o hospital privado em Macau está a tentar melhorar; dão mais seminários, por exemplo. Mas uma das coisas em que o hospital privado vai ter em falta é não permitir que a mãe e o recém-nascido fiquem juntos no mesmo quarto, o que é realmente importante no início. Por um lado, a mãe tenta ajustar a quantidade de leite que dá ao seu bebé que, por sua vez, se ajusta a um novo mundo. É difícil estabelecer um horário para o bebé, já que a amamentação é feita de acordo com a necessidade.

 

Tem conhecimento de situações em que profissionais de saúde oferecem amostras de substitutos de leite?

V.T.: Sim, definitivamente. Também no Facebook. Vêm-se mães a irem fazer uma ecografia e saírem com latas de leite em pó. Pode influenciar, em primeiro lugar, a escolha de amamentar ou não, e mesmo que a mãe escolha amamentar, a não ser que esteja bastante determinada e recuse as amostras grátis, quase de certeza que ela as vai levar para casa. Mas sempre que ela enfrenta um obstáculo é-lhe apresentado um biberão e então ela pensa em recorrer ao leite em pó e este é o investimento das empresas.

 

Qual é o papel da família na escolha?

V.T.: Eu vejo muitas famílias a não apoiarem a amamentação. As gerações mais velhas têm a noção de que só quem passa por dificuldades financeiras é que escolhe amamentar. Se fores pobre e não tiveres dinheiro a única escolha é amamentar. Se tiveres dinheiro podes gastar mais 500 patacas em leite em pó. Este é um lado da situação, o outro passa pela família ficar triste ao ver a mãe a não dormir o suficiente e em sofrimento quando enfrenta dificuldades. Também há famílias que apoiam bastante, maridos que ajudam e gerações mais velhas.

EDUARDO MARTINS

Vê esse comportamento nas famílias que recorrem à APACIM?

V.T.: Sim, quando fazemos palestras dizemos sempre aos pais: “Vocês são o apoio.”

 

Consegue assinalar os problemas que mais vos chegam desde que criaram a associação?

V.T.: O apoio da família e a falta de educação sobre os benefícios da amamentação no seio das famílias é a razão pela qual não são completamente encorajadoras. O local de trabalho também não é encorajador porque o facto de perderem 30 minutos numa sala de amamentação pode ser visto como uma desculpa para não trabalhar. Depois também há a questão das licenças de maternidade. 56 dias não são suficientes. Outro ponto que queria acrescentar e que sei que não será bem visto são os médicos que não encorajam a amamentação. Podem dizer que encorajam mas na realidade não o fazem.

 

Refere-se ao hospital público?

V.T.: Público, privado, toda a gente. Eu acho que a principal questão é que se eles próprios tivessem sido amamentados e se tivessem sido bem-sucedidos eles saberiam lidar com a situação.

 

E o Governo, como deveria lidar com a questão?

V.T.: Eu penso que eles fizeram um pouco da sua parte nos últimos anos, talvez até três anos. Eles tentam encorajar as mães, mas em relação aos médicos a formação é importante. Eu acho que devia haver mais formação sobre amamentação porque é algo que nem faz parte do currículo de um médico.

 

São esses os médicos que oferecem as amostras de fórmula?

V.T.: Nos hospitais públicos e nas clínicas não. Na realidade acho que estão mais avançados do que nos hospitais em Hong Kong.

 

De que forma?

V.T.: Há alguns anos que já não dão amostras grátis de leite em pó. Eles estão a cooperar e a seguir as normas.

 

A Organização Mundial de Saúde (OMS) afirma que as crianças devem fazer aleitamento materno exclusivo até aos 6 meses de idade. Em Macau, o período de licença de maternidade situa-se entre os 56 dias e os três meses.

V.T.: Não é suficiente. Eu penso que esta é uma batalha para lutar. Nós falamos sempre sobre isso e ainda apelamos a que os pais tenham dias em que não precisem de trabalhar. Ainda não está legislado, ainda não entrou em vigor e ainda está a ser discutido. Na realidade, eu acho que o Governo dá cinco dias aos funcionários masculinos após o bebé ter nascido, o que é uma boa política. Algumas corporações privadas também o fazem mas a maioria das pequenas e médias empresas não dão esses dias. Acho que isto é algo que deve estar contemplado na lei. Pessoalmente, acho que se não conseguirmos mudar os 56 dias não conseguimos aumentar os números [de mulheres que amamentam]. Pelo menos as empresas deviam receber indicações para oferecer às mães a possibilidade de uma licença opcional e implementar uma política que torne possível às mães regressar ao local de trabalho e extrair leite. Pode ser mais importante ter políticas neste sentido porque pode levar anos a aumentar os dias de licença de maternidade.

 

Isto leva-nos à criação de salas de aleitamento materno nos locais de trabalho. Existem mais de 140 espaços para este efeito nas instalações do sector público e do sector privado, com este último atrás em termos de número. Há uma estratégia a ser concretizada?

V.T.: Talvez seja mais um incentivo, um encorajamento, porque é difícil colocar na legislação “Se não tiver o número suficiente de salas de amamentação não pode funcionar”. Porém, Taiwan é um exemplo de onde isso acontece: existem, de facto, políticas nesse sentido. Os centros comerciais, por exemplo, calculam a área que abrangem e é requerido um determinado número de espaços para amamentar. No caso de Macau, acho que a tendência é tanto no sentido de forçar algo, mas sim de encorajar e, na verdade, vemos algum progresso. A situação pode ser olhada a partir de uma perspectiva positiva.

 

Reuniu, no início do ano, com Alexis Tam, secretário para os Assuntos Sociais e Cultura. Como vê o envolvimento entre Governo e as associações locais?

V.T.: Eu acho que ele está disposto a trabalhar com as organizações cívicas o que é muito bom. O Governo tem bastante trabalho e imensas preocupações mas se realmente trabalharem com as organizações cívicas que se dedicam ao aleitamento, podem focar-se em diferentes áreas.

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