Fixar na fotografia o absurdo e a comicidade da vida que pulsa na rua

Depois de quase três décadas em Macau, Carlos Malvas estreia-se perante o público com uma mostra de fotografia que contorna a banalidade cravada no quotidiano, e que até Setembro ocupa a recém-inaugurada galeria Casa do Povo. Uma abordagem de proximidade, para encontrar na rua o gesto que encerra um significado.

Fotografia: Carlos Malvas

Sílvia Gonçalves

Descobrir em cada gesto o burlesco que se instala na vida quotidiana, o movimento arrastado no silêncio, a palavra sussurrada cuja mensagem não se desvenda, o elemento inusitado que acrescenta mistério no corpo que toca e se insinua, até encontrar lugar no abismo. Na “street photography”, Carlos Malvas encontrou, nos últimos anos, uma dimensão de proximidade que obriga a quebrar o medo perante o outro, e que permite escapar à banalidade da imagem tantas vezes repetida. No uso do preto e branco, o fotógrafo diz atingir a abstração que transcende a mera documentação da realidade que o envolve. Como um caçador que deambula e se funde entre a matéria heterogénea e palpável de que é feita a humanidade.

“Desde que estou em Macau comecei a viajar mais, a tirar mais fotografias, mas era mais fotografia de viagem, não era esta abordagem da chamada ‘street photography’, que implica mais proximidade com as pessoas, procurar captar expressões, gestos, da vida quotidiana, e tentar transformar uma cena banal em qualquer coisa de diferente”, conta Carlos Malvas ao PONTO FINAL. O autor encontra na fotografia um lugar de escape ao quotidiano enquanto assessor no Estabelecimento Prisional de Macau. A câmara, carrega-a desde sempre, e a devoção pela imagem captada de forma furtiva nunca antes tinha chegado ao espaço expositivo de uma galeria. Mica Costa-Grande, também ele fotógrafo, que no início deste mês abriu em Coloane a galeria Casa do Povo, convenceu-o a reunir um corpo de imagens que ali se desvendam até Setembro.

“A ideia era apresentar trabalhos mais recentes. Fiz com o Mica esta selecção mais restrita. Apesar de aparecerem aqui duas fotografias mais antigas, de 2008, a ideia era ter fotografias mais recentes. Todas elas foram tiradas nas ruas de Macau, excepto uma, que foi no Vietname”, conta o fotógrafo de 63 anos, a viver em Macau desde 1991.

E quando sentiu o fotógrafo vontade de se apropriar das ruas do território? “Comecei a ler mais sobre ‘street photography’. Um dos princípios dessa fotografia é que podes fazer boas imagens mesmo no ‘backyard [quintal]’ da tua casa. Podes andar pelas ruas e tirar fotografias, não é preciso viajar para longe, para lugares exóticos para conseguir imagens que tenham algum impacto. Eu sempre gostei de andar por Macau, deambular pelas ruas, naquelas ruas mais esconsas, mais escondidas, ali no Porto Interior”. Uma abordagem, explica, a encurtar distâncias e a quebrar barreiras perante o outro: “Esta abordagem implica proximidade, implica uma certa quebra dos medos que nós temos em relação às pessoas estranhas, de apontar a máquina para uma pessoa estranha, sem pedir autorização”.

Para o fotógrafo, importa escapar à banalidade, “captar imagens autênticas, espontâneas, sem pedir às pessoas para fazerem pose ou para sorrirem, e isso implica uma maior aproximação”. Um exercício difícil, onde o autor não exerce qualquer controlo sobre a realidade: “É uma fotografia difícil, porque procuras imagens em condições que não podes controlar. Não controlas os actores, não controlas os cenários, não controlas a luz, e portanto são difíceis”.

Na rua, Carlos Malvas diz procurar a emoção que se desvenda na expressão e no gesto, nos encontros que se multiplicam no quotidiano: “É mais os gestos, as expressões, as sobreposições entre as pessoas e os cenários. Neste tipo de fotografia há muito a ideia do graffiti ou dos cartazes publicitários, e depois misturar uma pessoa numa situação engraçada. Para mim o objectivo, que é difícil, é a fotografia transmitir emoções. Tem que haver qualquer coisa, qualquer gesto que tenha significado”. E em cada rosto ou corpo encontrar uma ligação com o espaço habitado: “Porque às vezes as pessoas passam na rua, a gente tira fotografias e aquilo torna-se uma coisa muito chata. Ao fim de algum tempo estás a tirar fotografias de pessoas que passam. O objectivo é tentar, nessas pessoas que passam, criar ligações entre elementos gráficos do espaço urbano”.

E na aproximação ao objecto fotografado, explica, a interacção não é condição necessária: “Ultimamente tenho tirado fotografias em que não há interacção em termos de contacto com a pessoa, de explicação sobre o que estou a fazer. Não direi que é uma técnica agressiva, não é. A intenção não é esconder-me das pessoas. Não, eu assumo que estou a tirar a fotografia. A ideia é actuar de forma natural, sem pressas. Nunca tive problemas com ninguém”.

ESCAPAR À DIMENSÃO DOCUMENTAL DA IMAGEM

Na mostra que agora apresenta na Casa do Povo, Carlos Malvas expõe 24 imagens, que têm como elemento comum o recurso ao preto e branco, uma escolha que explica assim: “Nesta abordagem o preto e branco torna-se mais expressivo e mais abstracto. A ideia não é documentar as ruas de Macau, o objectivo é transformar, tentar fazer com que as pessoas perguntem: mas o que é isto? Criar certos pontos de interrogação, certas dúvidas, certas contradições na imagem que se apresenta”.

Assessor no Estabelecimento Prisional de Macau, sociólogo de formação, Carlos Malvas é um observador privilegiado de uma realidade apartada da sociedade, que não se pode permitir captar: “O problema é que não posso. Em Portugal trabalhei também em prisões, em Vale dos Judeus, que é uma prisão de alta segurança e que tinha regras muito apertadas. Mas consegui fotografar lá dentro, o director não tinha estes pruridos que há aqui. Mesmo em termos da imagem do preso, não revelar o rosto, lá não havia nada dessas preocupações, mas aqui não posso. Mas é óbvio que é uma realidade fascinante em termos da fotografia que se pode fazer dentro da prisão, dramática, com sombras”. Também um dos mais reconhecidos fotógrafos europeus da actualidade, tentou transpor os altos muros da reclusão, recorda Carlos Malvas:  “Houve um fotógrafo que há muitos anos também tentou, o Paulo Nozolino. Ele também estava interessado em fazer aqui um trabalho, e acabou por não ter autorização”.

Carlos continua a carregar a máquina sempre consigo, a procurar, nos espaços que o quotidiano lhe concede, o tempo para captar um qualquer instante que escape à interpretação instantânea. Vê-se como um caçador, aquele que caminha em movimento perpétuo: “Há fotógrafos que usam mais a táctica do caçador, que é aquele que deambula pelas ruas à procura de uma situação que o atraia. E depois há o pescador, que conhece certos cenários e ali fica alguns minutos, meia-hora, a fotografar os que passam naquele cenário. Eu sou mais de deambular”. Por estes dias, avança sobre as ruas quando a noite desce sobre a cidade, quando os vultos se cruzam entre a luz e o artifício. “Tenho andado a fazer fotografia mais tarde, ao fim do dia, com os neóns, a usar velocidades mais baixas. São experiências, uma das coisas que me atrai é experimentar”, confessa.  

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