Orquestra do Colégio Baptista recorda obra de Jacob Lau

Os músicos da banda e da orquestra do Colégio Baptista de Macau apresentam-se hoje em concerto no Teatro Sands, com um programa que, além de Händel, Beethoven e Hubert Parry, inclui dois hinos compostos no início do século XX pelo padre Jacob Lau e que prestam homenagem à implantação da República da China. O concerto tem direcção do maestro Oswaldo Veiga Jardim, que tem vindo a estudar o papel fulcral destes “músicos-sacerdotes” na disseminação da música ocidental em Macau entre os séculos XIX e XX.

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Sílvia Gonçalves

 

A orquestra do Colégio Baptista de Macau apresenta hoje, no Teatro Sands, às 20 horas, um concerto que integra peças de Händel, Beethoven e Hubert Parry, mas também, e em primeira audição contemporânea, dois hinos compostos no início do século XX pelo padre Jacob Lau, que prestam homenagem à implantação da República da China. O responsável pela iniciativa é o maestro Oswaldo Veiga Jardim, consultor do colégio e investigador da história da música em Macau. O musicólogo tem vindo a estudar o percurso dos primeiros “sacerdotes-músicos” do território e o seu papel na disseminação da música ocidental deste lado do mundo. O tema foi, de resto, abordado pelo investigador, ainda este mês, na 44.ª Conferência Mundial do International Council for Traditional Music, que decorreu na Universidade de Limerick, na República da Irlanda.

“O que vai acontecer amanhã [hoje] é uma coisa muito bonita. Eu trabalho como consultor no Macau Baptist College, o Colégio Baptista. Eles têm lá um curso de música, tem coro, um coro infantil, tem uma orquestra, tem uma banda. Nós pensamos que seria interessante realizar um concerto subordinado ao tema música e história, ou história contada através da música”, explicou Oswaldo Veiga Jardim ao PONTO FINAL.

O maestro tira o véu a um programa que toca diferentes períodos históricos: “Nós faremos uma primeira parte como um concerto normal, vamos tocar Händel, uma professora da escola vai tocar o primeiro andamento do Concerto nº1 para Piano e Orquestra de Beethoven. E na segunda parte temos uma espécie de ‘happening’ envolvendo os coros da escola, envolvendo dança, envolvendo a banda e também a orquestra, durante a qual nós vamos apresentar, pela primeira vez em audição contemporânea, duas obras de autoria do padre Jacob Lau, que ilustram o género musical a que ele se dedicou”, enuncia.

As duas peças, explicou o maestro – nascido no Rio de Janeiro e radicado em Macau desde 1988 – ilustram musicalmente um momento particular da história de Macau: “O momento em que foi proclamada, em 1912, a República. E o padre Lau, apesar de ter sido educado em Macau, neste ambiente multicultural português e ocidental, ele escreveu dois hinos em homenagem à recém-fundada República da China. Escreveu um em 1912 [“Liberty – The Chinese National Anthem”] que foi na época proposto ao então Presidente Yuan Shikai. E depois em 1921 ele fez um outro hino [“Peaceful Republic of China”], quando Sun Yat-sen retornou do Japão, devolvendo a estabilidade ao país, depois daquelas guerras entre as diversas facções. Nós vamos apresentar pela primeira vez em audição contemporânea os dois hinos do padre Jacob Lau”, explica o maestro, que será responsável pela direcção musical do concerto que hoje decorre no no Teatro Sands “porque o auditório da escola está em renovação”.

O papel destes sacerdotes no ensino da música em Macau foi, de resto, abordado pelo investigador na recente 44.ª Conferência Mundial do Internacional Council for Traditional Music, que decorreu, entre 13 e 19 de Julho, na Universidade de Limerick, na República da Irlanda. O maestro integrou um painel, com mais dois investigadores, subordinado ao tema “Music, Religion and Identity in Macau: The Dynamics of Sacred Music Practice in a Colonial Multicultural Context”. Ao PONTO FINAL, Veiga Jardim detalhou o conteúdo da comunicação que levou à conferência: “[Levei] um aspecto que eu considero muito importante para o estudo da história da música de Macau, que é o papel desenvolvido pelos ‘sacerdotes-músicos’ no Seminário de São José de Macau, entre 1820 e 1939. Porquê estas datas? O ano de 1939 é um delimitador cronológico natural porque é o início da Segunda Guerra Mundial. E a data inicial de 1820 coincide com as primeiras referências que eu consegui encontrar sobre as actividades musicais dentro do Seminário de São José”, explica o maestro, que é também director artístico da Orquestra Sinfónica Jovem de Macau.

Na conferência, o investigador abordou ainda “o papel dos sacerdotes macaenses e chineses que foram educados e treinados dentro do seminário de São José, num contexto multicultural, e que tiveram um papel importantíssimo na disseminação da música ocidental aqui nesta parte do mundo”. Entre eles, figuram dois pioneiros: “Há dois sacerdotes que são os primeiros que eu chamo de ‘músicos-sacerdotes’, é o padre António José Gonçalves Roliz e o padre Jacob Lau, padre chinês nascido em Cantão que foi educado em Macau no seminário. Ambos foram compositores, maestros de coros, maestros de banda, da orquestra do seminário. No caso do padre Jacob Lau, em 1904 ele fundou, com recursos da diocese, a primeira banda em estilo europeu, com alunos exclusivamente chineses, na paróquia de São Lázaro. Essa banda funcionou de 1905 até 1940”, recorda o investigador.

Segundo Veiga Jardim, foi a primeira vez que a história da música de Macau esteve representada numa conferência desta dimensão, que contou com participantes de 74 países: “Eu não tenho notícia de que a música de Macau tenha sido levada a nenhum outro seminário ou congresso ou conferência internacional assim com esta abrangência, com estas dimensões, como foi agora. Foi uma coisa que eu julgo que foi muito importante para Macau”.

 

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