Há histórias de Oecusse contadas na “língua do Evangelho e da resistência”

Anabela Leal de Barros apresentou ontem, na Fundação Rui Cunha, “Rumando de Lés a Leste”. A obra reúne contos e lendas de Oecusse, o enclave timorense encravado em território indonésio. O livro teve origem num extenso processo de levantamento junto da população.

1.Leal de Barros

Joana Figueira

Trilhou um caminho de casa em casa, de escola em escola e entregou-se aos acasos que uma viagem de mota por Oecusse, um dos 13 municípios de Timor-Leste, encravado na parte indonésia da ilha, lhe mostrou. Anabela Leal de Barros recolheu histórias com fronteiras ténues entre o conto, a lenda e a realidade, para as juntar em “Rumando de Lés a Leste”, livro-memória das Comemorações dos 500 Anos da Chegada dos Portugueses a Timor-Leste (1515-2015).

“À medida que vamos aprofundando, vamos percebendo que o filão está todo por explorar”, disse a investigadora do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho, sobre o levantamento dos contos e lendas agora reunidos na obra. Disponibilidade foi traço de carácter que encontrou nas gentes de Timor-Leste, “que nunca se fazem rogadas” a contar uma história.

Domingos Manuel Ramos Tebi, 42 anos, de Massin, contou-lhe a história de “Sutanab, o miúdo malcriado”. Aleixo Coa, de 28 anos, de Lacofuan, Pante Macassar, falou-lhe sobre “A Lua, o Sol e o Ser Humano” e Martinho da Cunha, 66 anos, de Cruz, Pante Macassar, revelou-lhe “O Segredo do Arroz”. Estes são apenas três dos 74 contos que Anabela Leal de Barros fixou no papel, contrariando a “falta absoluta” de recolha e registo naquela região da mais jovem nação do continente asiático.

Mas que procura foi esta, que a fez chegar ao lugar “reconhecido pelos Timorenses como o berço da nação e da identidade”, Oecusse? “Não interessam, pois, os contos e lendas única ou especialmente por motivos literários, etnológicos, históricos, religiosos, mitológicos, sociológicos, mas antes de mais em termos linguísticos, o que exigiu uma recolha cuidadosa e curiosa da palavra, e não apenas da ideia ou da sequência narrativa”, explica Leal de Barros na introdução do livro.

“A primeira coisa que nós temos de ter em conta em Timor é que não há só a língua portuguesa e isso torna ainda mais espantoso que a língua seja tão acarinhada, tenha sido adoptada e seja, de facto, falada. É que Timor é multilingue e tem dezenas de línguas. Para além dessas dezenas de línguas, está todo envolvido pelo malaio-indonésio que todos falam, pelo inglês – cada vez mais, o peso do inglês na paisagem linguística é algo absolutamente avassalador – e, depois, há o tétum, também como língua oficial e que é a língua materna de alguns”, explicou a autora.

Ainda que se note a dificuldade na implementação da língua portuguesa nas escolas primárias porque as crianças falam as suas línguas maternas, não está certo, porém, pensar que todas estas línguas tornariam mais difícil manter o Português, ou acarinhá-lo, repeti-lo, ou usá-lo, explica a investigadora: “O Português não pode sair daqui porque o Português é a língua do Evangelho”, disseram-lhe. Por outro lado, Anabela Leal de Barros relembra que, para os timorenses, “foi a língua da resistência, usaram-na como código. Logo, prezam-na muito por essas razões, por que teve um papel muito importante”.

Surge ainda o vazio vocabular do tétum que a língua portuguesa tem vindo a preencher, defende Barros: “O tétum está a utilizar cada vez mais o Português. Cinquenta por cento, pelo menos. E isso cresce: os termos económicos, de tecnologia, do dia-a-dia, da Igreja, da política, do turismo, enfim, a quantidade de termos é tal que se olharmos para a paisagem linguística vemos que numa frase há um, dois ou três elementos de tétum. Isso mostra-nos que o Português fica sempre. Não tal como o nosso, mas também não é isso que interessa. O próprio Português que se fala em Timor é um Português de Timor”, admite.

“Rumando de Lés a Leste – Contos e Lendas de Oecusse”, segue-se a “Contos e Lendas de Timor-Leste” (2015). Este ano, Anabela Leal de Barros, assim que terminou o segundo livro, regressou à parte oriental da ilha de Timor para dar início a um novo projecto, para o qual vai contar com a ajuda de professores: “Já conheço aqueles [professores] que, de facto, têm mais livros na memória, porque é isso que se passa: eles têm os livros na memória e com toda a boa vontade, quando nos dispomos, vão-nos contando. É muito, muito curioso porque é necessário registar tudo isso rapidamente, uma vez que se não se fizer, os contos vão-se esquecendo”, afirmou.

 

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