China colhe proveitos da equipa que escolheu a dedo para Macau na década de 90

Quem o escreve é a Reuters. A agência noticiosa recorda quem em Macau, ao contrário do que sucede em Hong Kong, há vários dirigentes de topo nascidos no República Popular da China. O assumir de funções de destaque por parte dos quadros em questão coincidiu com um maior alinhamento com os interesses do Governo Central. Entre os dirigentes referenciados estão Wong Sio Chak, André Cheong ou Ip Son Sang.

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Enquanto que Hong Kong tem estado nas bocas do mundo pelos protestos de que tem sido palco e por uma cada vez maior insubmissão face ao Governo Central, a situação tem estado consideravelmente mais calma no território dada a quase inexistência de pontos de divergência entre Macau e Pequim.

A tranquilidade no antigo enclave português, agora uma Região Administrativa Especial chinesa, é, em boa parte, o resultado de um esforço empreendido ao longo de várias décadas com o objectivo de assegurar a autoridade de Pequim sobre o território.

Na década que antecedeu a transferência de soberania, a 20 de Dezembro de 1999, o Governo chinês escolheu a dedo um grupo de quase quatro dezenas de jovens licenciados um pouco por toda a China e conseguiu colocá-los em posição de destaque em Macau, preparando-os para assumir a chefia de departamentos governamentais chave após 1999, de acordo com antigos oficiais conhecedores do processo.

Estes jovens licenciados, proficientes em português e com um vasto conhecimento da realidade jurídica do território, rapidamente ascenderam na hierarquia. Eventualmente assumiram posições de topo e ajudaram a jovem Região Administrativa Especial a alinhar-se com os interesses das autoridades do Continente, numa altura em que as lutas internas e a instabilidade política alastram por Hong Kong, disse à agência Reuters o economista José Luís de Sales Marques, antigo presidente do Leal Senado e da Câmara Provisória de Macau entre 1993 e 2001.

“Foram-lhes dadas posições quando ainda eram muito jovens, em cargos muito elevados”, sublinhou o actual presidente do Instituto de Estudos Europeus de Macau.

Cerca de metade dos dirigentes mais antigos são provenientes da República Popular da China, em contraste com a vizinha Região Administrativa Especial de Hong Kong, onde nenhum cargo governamental de topo é ocupado por quadros nascidos no Continente.

Entre estes dirigentes encontra-se Wong Sio Chak, secretário para a Segurança desde 2014. Wong foi apontado como um dos potenciais candidatos a substituir Chui Sai On no cargo de Chefe do Executivo quando as eleições decorrerem daqui a dois anos, indicam fontes da sociedade civil.

André Cheong, responsável pelo Comissariado Contra a Corrupção, e Ip Song Sang, procurador-geral da RAEM, são dois outros dirigentes enviados pelo Governo Central na década de 90 para ajudar Lisboa e Pequim a preparar a as bases da futura administração do território após a transferência de soberania.

Os detalhes relativos às carreiras dos dirigentes foram corroboradas através de entrevistas juntamente com mais de uma dezena de antigos dirigentes e funcionários públicos, bem como através de registos públicos oficiais.

Pouco tempo depois de terem sido atribuídos cargos de topo aos três quadros referenciados, Macau lançou uma “operação de limpeza” na indústria do jogo avaliada em 30 mil milhões de dólares norte-americanos, numa extensão da luta contra a corrupção levada a cabo pelo líder chinês Xi Jinping na China.

O regime chinês tem sido geralmente bem recebido em Macau, que atravessa um período de crescimento económico e estabilidade, nos antípodas da instabilidade que pautou o período anterior à transferência de soberania, marcado por uma guerra aberta entre as máfias.

Mais de metade dos 600 mil habitantes de Macau imigrou da China nas últimas décadas, o que faz com que a população tenha uma maior ligação com o Continente do que em Hong Kong, onde a maior parte da população nasceu na antiga colónia britânica.

A tranquilidade de Macau tem sido notada em Pequim. Em Julho, Xi visitou a antiga Região Administrativa Especial de Hong Kong e não poupou elogios ao território. Por outro lado, alertou Hong Kong de que Pequim não iria tolerar quaisquer desafios à sua autoridade.

No entanto, à medida que a influência da China sobre Macau se torna cada vez mais óbvia, o medo de que a sua autonomia possa estar a ser ameaçada começa a crescer: “Eu acho que Macau está a perder a sua autonomia muito rapidamente. Eu acho que perdemos dois terços nos últimos 15 anos”, disse à Reuters um funcionário público que pediu para não ser identificado, dada a vulnerabilidade do assunto.

 

 

LIBERDADES DESGASTADAS

 

Hong Kong e Macau funcionam sob uma fórmula jurídica – o princípio “Um País, Dois Sistemas –  que lhes permite gozar de certos princípios de liberdade não permitidos no Continente, tais como liberdade de imprensa e um sistema judicial independente.

Contudo, advogados têm alertado cada vez mais para a erosão do sistema jurídico e para o enfraquecimento das liberdades dos jornalistas.

Existem ainda preocupações quanto a uma expansão das actividades do Gabinete de Ligação de Pequim em Macau e sua coaptação de associações locais e monitorização das actividades políticas: “Existe actualmente uma tendência de imposição de auto-censura para não atrair as atenções do Gabinete de Ligação” defendeu Bill Chou, antigo professor da Universidade de Macau e activista de direitos civis, à agência Reuters. O académico doi despedido em 2014 devido às suas actividades políticas.

Wong Sio Chak, secretário para a Segurança, afirmou durante uma entrevista à Reuters em 2015 que Macau se mantém fiel ao modelo “Um país, dois sistemas” que define o próprio estatuto político do território mas acrescentou que o Governo da RAEM mantém comunicações diárias com as autoridades do continente: “O Governo Central não irá intervir nem interferir mas é claro que eles querem perceber as nossas políticas e o ângulo que estamos a considerar”, sublinhou Wong na altura.

Um dirigente que pediu para não ser identificado disse que a China estava cada vez mais envolvida nos assuntos de Macau, como consequência do que está a acontecer em Hong Kong: “Eles querem ter a certeza que o mesmo não acontece em Macau”, disse o dirigente. “Macau é um bom aluno, nós ouvimos bem”.

Em Hong Kong, alguns activistas vêm a situação em Macau como uma medida de alerta, enquanto protestam contra a intervenção crescente de Pequim: “Nós vamos ser a segunda Macau mais cedo ou mais tarde”, disse Chan Chun-kit, um estudante universitário de 20 anos que acompanhou os protestos que se seguiram a uma ordem de um tribunal que expulsou, há pouco mais de uma semana, quatro deputados pró-democratas do Conselho Legislativo da RAEHK.  “A nossa liberdade tem sido gradualmente reprimida”, rematou o manifestante.

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