A falta que um fax faz

Um explorador canadiano, que se propõe dar a volta ao mundo sem recorrer a veículos dotados de motor, quase viu o plano gorar-se à chegada ao território. Em causa uma mudança nas leis que regulam os procedimentos que quem viaja para Macau em embarcação própria tem de cumprir, numa aventura com faxes à mistura.

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Quem é que ainda faz uso do telefax? Os Serviços de Alfândega de Macau, ao que parece, como o explorador Markus Pukonen descobriu da pior forma.

A falta de acesso a uma solução tecnológica vista por muitos como obsoleta quase frustrou a venturosa expedição que o canadiano se propõe levar a bom porto, depois do barco em que navegava ter encalhado num baixio quando Pukonen se dirigia a Macau.

Pukonen, de 34 anos, está a meio de uma viagem de circum-navegação do planeta que se propõe concluir sem recorrer a um único meio de transporte dotado de motor. O canadiano chegou a Hong Kong no início do mês passado depois de ter caminhado, de ter viajado em kayak, em canoa e em barco à vela, no âmbito de uma aventura que teve início em Toronto. A rejeição de motores por parte de Pukonen é de tal magnitude que o explorador se recusa mesmo a recorrer a escadas rolantes.

Na semana passada, o canadiano decidiu largar vela para Macau, depois de ter sido informado por amigos em Hong Kong de que seria mais fácil entrar de bicicleta na China a partir do território, do que proceder à travessia da fronteira que separa a antiga colónia britânica da metrópole continental de Shenzhen, noticiou no fim de semana o South China Morning Post.

Com receio de que o obrigassem a entrar num autocarro entre a RAEHK e o Continente, Pukonen acabou por optar pela solução menos imediata: navegar até ao território e depois seguir caminho pela China adentro.

Uma alteração essencial nos procedimentos legislativos em vigor no território quase comprometeu, no entanto, a ideia de dar a volta ao mundo sem recorrer a transportes motorizados. Ao chegar ao território, Pukonen apercebeu-se que, pura e simplesmente, não podia entrar nas águas territoriais de Macau sem se fazer anunciar. Para entrar no território por via marítima, o explorador tinha obrigatoriamente de solicitar às autoridades do território um espaço de atracagem com antecipação. O pedido devia ser formulado ou presencialmente ou através do envio de um … fax.

Pukonen e David Dosanhj, um amigo canadiano radicado em Hong Kong, zarparam de Hong Hong a 1 de Julho, enfrentando um tempestade e ventos de entre 30 a 40 nós: “Foi uma travessia bastante entusiasmante, até porque estávamos a navegar por entre uma miríade de pequenas ilhas”, explicou Pukonen ao South China Morning Post.

A dupla chegou a Macau por volta das 11 da noite mas mostrou-se incapaz de contactar os Serviços de Alfândega via rádio e optou, ao invés, por lançar âncora ao largo de Coloane.

“O que nos tinham dito é que seria fácil. Que bastava aparecer e contactar a guarda-costeira, mas não conseguimos pura e simplesmente entrar em contacto com ninguém”, explicou o explorador.
Não apareceram as autoridades de Macau, apareceram as da China Continental. Ancorados a meio termo entre Coloane e a ilha da Montanha, os dois aventureiros foram abordados por militares, que terão entrado depois em contacto com os Serviços de Alfândega. As autoridades locais exigiram que Pukonen e Dosanhj os seguissem até as instalações da vila de Coloane e a meio caminho no canal que separa a maior das ilhas do território e Hengqin a embarcação em que seguiam encalhou: “Por sorte, esbarramos apenas com lama. Foi o suficiente para me deixar em pânico com receio de que tivéssemos de ser rebocados. Abanamos o veleiro de um lado para o outro e ao fim de alguns minutos estávamos de novo livres”, explicou Markus Pukonen.

As surpresas estavam, ainda assim, para durar. Depois de ter remado para a margem a bordo de um kayak, o explorador canadiano foi informado de que seria multado e enviado de volta para Hong Kong: “Ao que parece, as leis mudaram recentemente e agora não se pode, pura e simplesmente, aparecer. É necessário solicitar com antecedência um espaço para atracar a embarcação. O pedido de autorização pode ser solicitado presencialmente ou via fax, o que é algo bastante ridículo”, defendeu Pukonen em declarações ao South China Morning Post. “Quem é que vai voar para Macau, fazer a marcação em pessoa e regressa depois a bordo de um barco? E enviar um fax? Quem é que ainda tem uma máquina de telefax hoje em dia?”, contesta o canadiano.

Apesar das críticas, o imbróglio acabou por se resolver sem que Markus Pukonen tivesse que regressar à RAEHK. O explorador, de 34 anos, fez-se à estrada com um trunfo na manga: antes de sair do Canadá, solicitou ao Governo de Otava uma carta oficial em que é solicitado o apoio e a compreensão dos agentes governamentais dos países com quem o Canadá mantém relações diplomáticas. A missiva foi colocada pela primeira vez em bom uso no território, com Pukonen a seguir viagem 24 horas depois de ter chegado a Macau, depois de dirimidas algumas questões burocráticas com os Serviços de Alfândega e com a Direcção dos Serviços de Assuntos Marítimos e de Água.

No final da semana passada – e depois de ter cruzado a fronteira entre Macau e a República Popular da China com relativa facilidade – Pukonen encontrava-se a caminho de Hanói, apetrechado com uma bicicleta que lhe foi cedida pela empresa Mas Dogs, pertencente a Humphrey Wilson, um cidadão britânico radicado em Hong Kong que ligou o Reino Unido à antiga colônia britânica em bicicleta.

Nos três primeiros dias no Vietname, Pukonen cobriu 500 quilómetros, até se deparar uma vez mais com obstáculos. Proibido de circular de bicicleta numa ponte, o explorador canadiano teve de fazer um desvio de 40 quilómetros para atravessar um rio e já se convenceu que o mundo é muito mais do que mostram os mapas.

 

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