Arte, literatura e consciência num quarto de hotel

 João Jorge Magalhães, ilustrador macaense, é um dos quatro artistas seleccionados pela galeria Blanc Art para expor os seus trabalhos na edição de 2017 da ART OSAKA. A ele juntam-se Choi Su Weng, também de Macau, Justin Y e Silvère Jarrosson, numa mostra com uma particularidade: vai ocupar o quarto 6007 do Hotel Granvia.

_M_, Joao Jorge Magalhase (SAH), 45x45cm, Mixed Media on Canvas, 2015

Trabalhos de quatro artistas encontraram um caminho comum para as paredes de um quarto do hotel Granvia, na cidade japonesa de Osaka, e durante três dias vão partilhar um mesmo espaço sob o tema “Stream of Consciousness” (Fluxo de Consciência). Às paisagens abstractas de Choi Su Weng juntam-se as formas pictóricas e garridas de João Jorge Magalhães, o acrílico dedilhado em tela de Justin Y e a explosão de ondas e movimento característica da arte de  Silvère Jarrosson. Diferem as temáticas, os materiais, as tonalidades, as formas e as mensagens veiculadas, mas entre 7 e 9 de Julho as criações dos quatros artistas vão confluir no mesmo quarto de hotel e integrar a participação da galeria Blanc Art na ART OSAKA 2017.

A técnica narrativa de “fluxo de consciência”, utilizada na ficção e cunhada pelo psicólogo William James em finais do século XIX, constitui o conceito de curadoria e o fio condutor da mostra. Com o desenvolvimento do romance psicológico no século XX, os escritores procuravam captar a essência da consciência das personagens que criavam, por vezes através da incorporação de pensamentos incoerentes ou frases gramaticalmente incorrectas que deixavam que o leitor se apropriasse dos seus traços de carácter. É esta provocação e incitamento ao pensamento que pode ser encontrada nas obras que vão ser apresentadas em Osaka, diz Amanda Chan, membro do grupo de curadoria da galeria Blanc Art: “Eles [os artistas] são mestres na disciplina de oferecer à audiência a capacidade de auto-interpretação. Colocam o pensamento nas obras e desafiam a audiência a pensar”, complementa.

Com as peças de João Jorge Magalhães a equipa de curadoria pretende levar até ao Japão um pouco da história do território, espelhada nas figuras que ganham vida e cor nas telas do artista macaense. Como o próprio explica, as obras que vai apresentar em Osaka “têm um bocado a ver com Macau, com a cultura chinesa vista por um ocidental e com o tipo de comida que existe em Macau que neste caso é o ambiente das tasquinhas e das lojas que vendem bolas de peixe”.

João Jorge Magalhães vive em Macau desde os quatro anos de idade e é ao passado e à história da cidade que vai buscar inspiração, bem como “aos pequenos cheiro e às pequenas cores” que remetem para tempos que procura representar, numa tentativa de os fazer perdurar: “Neste caso peguei neste tema – a comida – porque são pequenas coisas que espero que não desapareçam e que continuem a dar aquela magia a Macau” , explica.

O artista define-se como sendo “100 por cento macaense” e acredita que é esta identidade, que o coloca no meio de duas culturas, que lhe permite observar e perceber ambas. Descreve Macau como “a cidade da mistura entre o Ocidente e o Oriente, uma cidade pequena onde toda a gente se conhece [pelo que] também é uma mistura entre cidade e aldeia”. É neste meio termo, entre Oriente e Ocidente, mas também entre a metrópole e  a cidade exígua, que Magalhães se sente como um “navegador” numa procura constante de “novas leituras, novas culturas e novas informações”.

A arte que Magalhães leva até ao Japão é complementada com as obras de Choi Su Weng, também de Macau e de Justin Y de Singapura. Já o francês Silvère Jarrosson empresta à mostra um “toque mais internacional”, diz Sam Reyes, também do grupo de curadoria da galeria Blanc Art.

Choi Su Weng nasceu em Macau nos anos 50 e ao longo da sua carreira tem vindo a dedicar-se à exploração do óleo sobre tela para compor paisagens abstractas nas quais a cor é o elemento predominante. Justin Y, nascido em Singapura e actualmente a residir em Hong Kong, é um pintor auto-didacta que apenas trabalha com materiais que possam ser moldados e trabalhados na palma das suas próprias mãos. Já o francês Silvère Jarrosson completou os seus estudos na Paris Opera Ballet School, não sendo infrequentes as influências do ballet nas suas obras marcadamente abstractas.

 

CVN

 

 

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