Do outro lado da barricada, a Irlanda continua a ter uma palavra a dizer sobre o Brexit  

 

A perspectiva irlandesa sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, apresentada pelo cônsul-geral da Irlanda em Hong Kong e Macau, esteve ontem no cerne de uma conferência realizada na Fundação Rui Cunha. Apesar de a República da Irlanda não integrar o Reino Unido, o diplomata considera que o seu país será o mais afectado com o Brexit.

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“Pela primeira vez a [República da] Irlanda vai fazer parte da União Europeia sem o Reino Unido. Este é também para nós território desconhecido” declarou ontem o cônsul-geral da Irlanda em Hong Kong e Macau, Peter Ryan, no âmbito da conferência “Brexit: The Irish Perspective” (Brexit: A Perspectiva Irlandesa). Após as eleições britânicas que reconduziram Theresa May no cargo de primeira-ministra britânica – ainda que sem a tão desejada maioria parlamentar – e o recente acordo firmado entre o Partido Conservador, de May, e o Partido Unionista Democrático (DUP na sigla inglesa) da Irlanda do Norte, o caminho está aberto para as negociações sobre o Brexit. Em mais uma sessão do ciclo de “Reflexões ao Cair da Tarde”, o diplomata irlandês recordou os laços que unem a República da Irlanda ao Reino Unido e explicou porque razão o seu país “vai ser o mais afectado de todos os estados membros da União Europeia com o Brexit”.

O formalmente designado “Acordo entre o Partido Conservador e o Partido Unionista Democrático de apoio ao Governo no Parlamento”, que  compromete o partido de May a injectar mil milhões de libras – mais de 10, 260 mil milhões de patacas ao câmbio actual – no DUP, levantou ontem questões por parte do público. Peter Ryan considera positivo o facto de o partido da Irlanda do Norte ter conseguido chegar a acordo com o Governo britânico, uma vez que acredita que os seus “vizinhos do Norte” partilham de algumas das preocupações com que Dublin se depara: “Eles não querem ver uma fronteira rígida na ilha da Irlanda. Eles também não querem ver uma fronteira económica da ilha da Irlanda. Nós achamos que isto é uma coisa positiva e que vai ter um impacto na perspectiva da Irlanda do Norte e fazer com que a Irlanda do Norte marque uma posição na agenda do Governo britânico” considerou o diplomata. Contudo, Ryan não deixou de assinalar que “a maioria deles [votantes da Irlanda do Norte] votaram contra o Brexit”.

A questão da estipulação dos limites fronteiriços faz da República da Irlanda a mais nova “fronteira da União Europeia”, ainda que este não fosse o desígnio desejado pelas autoridades irlandesas, lamentou Peter Ryan: “Se for uma fronteira convencional, isso significa um regresso ao controlo de fronteiras. Felizmente que a União Europeia reconheceu este como um caso particular e especial e definiu que nós não iremos ter controlo de pessoas, bens ou livre circulação”, disse o cônsul-geral.

Com o prazo para a conclusão das negociações do Brexit definido para Março de 2019, o diplomata mostrou-se confiante “na adaptabilidade e flexibilidade” que a União Europeia tem demonstrado ao longo dos anos pelo que não vê razões para “a Europa não ser inovadora e pragmática e encontrar uma solução viável”.

A próxima ronda de negociações está marcada para Outubro e as prioridades estão bem definidas pelo Governo irlandês: minimizar o impacto no comércio e economia, proteger o processo de paz na Irlanda do Norte, manter a área comum de viagem e influenciar o futuro da União Europeia: “Neste momento, o que mantém as pessoas acordadas de noite é saber como vamos proteger o processo de paz na Irlanda da Norte, como vamos proteger a economia. Temos de proteger os empregos, proteger a prosperidade e ter a certeza que o sistema político na Irlanda está a funcionar de novo”, defendeu Ryan.

A garantia à manutenção da paz na Irlanda  foi assegurada com o acordo ontem firmado no qual o Partido Conservador reitera o seu “apoio firme ao Acordo de Belfast e seus sucessores e, como Governo do Reino Unido, irá continuar a governar segundo os interesses de todas as partes na comunidade da Irlanda do Norte”.

“Algo que sabemos com certeza é que a Irlanda irá manter-se como um membro da União Europeia, sabemos que nos iremos manter como um membro do mercado único. Sabemos que a União Europeia irá ter um mercado de 500 milhões de pessoas e que este será o mercado-alvo mais lucrativo para empresas globais. Isto oferece bastante segurança a investidores estrangeiros que estão de olhos postos na Europa e particularmente na Irlanda”, concluiu o diplomata.

 

CVN

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