Líder da Novo Macau interrogado e impedido de entrar em Hong Kong

Scott Chiang viu ontem ser-lhe recusada a entrada na Região Administrativa Especial de Hong Kong, onde diz deslocar-se mensalmente para uma consulta médica. O activista foi forçado a regressar a casa depois de ter sido interrogado pelos serviços de imigração. O presidente da Associação Novo Macau acredita que a proibição se deve à visita, no final desta semana, do Presidente Xi Jiping à antiga colónia britânica.

1.Chiang

Sílvia Gonçalves

O presidente da Associação Novo Macau foi ontem interrogado no Terminal Marítimo de Central, em Hong Kong, e impedido de entrar na vizinha Região Administrativa Especial. Scott Chiang diz que não lhe foi apresentada qualquer justificação, e que apenas lhe foi dito que não cumpria os requisitos para a entrada na RAEHK, tendo sido depois encaminhado para o barco que o trouxe de volta a Macau. O dirigente da principal plataforma pró-democrata da RAEM acredita que o impedimento se deve à visita do Presidente Xi Jinping a Hong Kong, agendada para o final desta semana, para a celebração dos 20 anos da transição para a China da antiga colónia britânica.

Num vídeo divulgado em inglês na sua página de Facebook, Scott Chiang explica que se deslocou ontem a Hong Kong para uma consulta médica que há já algum tempo cumpre mensalmente naquela cidade. Ao recorrer às máquinas de acesso automático no terminal marítimo, o seu cartão de identidade não foi aceite. Foi, de seguida, levado para uma sala onde seria “entrevistado” por uma agente dos serviços de imigração: “Perguntou-me o que estava eu a fazer em Hong Kong. Eu contei-lhe que tinha uma consulta numa clínica, ainda que não lhe pudesse mostrar nenhum documento para lhe provar que tinha a consulta, mas tinha os medicamentos. Ainda assim, disse que não me sentida obrigado a provar o meu propósito para a entrada em Hong Kong. Se têm alguma suspeita de que vou fazer algo criminoso, então impeçam-me”, conta o activista.

Durante o interrogatório, descreve Scott Chiang, foram sobretudo abordadas as intenções que levaram o activista à antiga colónia britânica: “Focaram-se muito no que eu iria fazer depois da consulta, se me ia encontrar com alguém, se tinha ligações em Hong Kong. Também estavam muito interessados em saber quanto dinheiro ou cartões de crédito eu trazia. Não sei, talvez estejam parados no tempo em que os estrangeiros traziam muito dinheiro para financiar os rebeldes na cidade. Não estou a fazê-lo agora, não estou a fazê-lo de modo nenhum”.

O activista garante que nenhuma justificação lhe foi apresentada para a proibição de entrada: “Foi-me negada a entrada em Hong Kong sem que me tenha sido dada nenhuma verdadeira razão. Disseram-me que falhei o cumprimento dos requisitos para a entrada em Hong Kong. Perguntei quais eram os critérios e a senhora que me entrevistou respondeu-me muito honestamente, dizendo: ‘Isto é tudo o que eu tenho para lhe dizer, não importa quantas vezes me vai perguntar’”.

De seguida, explica o presidente da Associação Novo Macau, foram-lhe apresentados três documentos, que o activista se recusou a assinar: “Recebi três documentos de notificação, um é a recusa de entrada e os outros dois são relacionados com a detenção. Porque tecnicamente, ainda que eu não tenha estado fechado numa sala, fui restringido na minha liberdade de movimentos durante algum tempo, até que me puseram noutro barco para regressar a Macau. Portanto, tecnicamente estive detido”. Ao inquirido não foram facultadas cópias dos documentos, assegura: “Havia estas três notificações, não me deixaram tirar fotografias, ainda que eu fosse o receptor dessa notificação. Depois do meu pedido para obter uma cópia dos três documentos, eles disseram que não, mas disseram-me que podia ir ao gabinete de privacidade, ao PCPD [Privacy Commissioner For Personal Data] em Hong Kong, para dar abertura a um caso. Mas isto é ridículo. Portanto, numa hora e meia estava de volta ao ferry para Macau”.

Para Scott Chiang, a recusa de entrada explica-se com a deslocação, no final desta semana, do presidente Xi Jinping a Hong Kong: “Todos sabemos qual a real razão da minha proibição de entrada. É porque alguém muito importante está a chegar à cidade. É melhor ter cuidado, é melhor não chorar, porque Xi está a chegar à cidade. Estou muito triste que Hong Kong tenha caído tão fundo a acompanhar Macau no abuso de poder para assediar pessoas como eu. Não sou nenhum senhor do crime, não sou um gangster. Esses poderes são atribuídos às autoridades para apanhar essas pessoas, eu não sou uma dessas pessoas”, assinala.

O dirigente – que se mantém na presidência da Novo Macau até ao escrutínio de 17 de Setembro – explicou ao PONTO FINAL que chegou ontem a Hong Kong por volta das 15 horas, tendo sido forçado a apanhar o barco das 16h30 para regressar a casa. E na chegada a Macau, o que aconteceu? “Nada. O capitão do ferry guardou o meu cartão de identidade, penso que é a sua obrigação legal para se certificarem que sou levado das águas de Hong Kong. Quando entrei no ferry, o cartão estava com o capitão, mas quando deixámos as águas de Hong Kong, ele devolveu-mo. Eu entrei em Macau através dos procedimentos normais, nada aconteceu”, garante.

A recusa de entrada na RAEHK, explicou ainda o activista a este jornal, limitou-se apenas ao dia de ontem: “Essa é a parte engraçada, quando me contaram que a minha entrada tinha sido negada, que teria que regressar, a senhora disse-me: ‘pode tentar novamente amanhã’. E eu disse: ‘Por favor, não goze comigo. Em primeiro lugar, a minha consulta médica não pode ser remarcada assim. E, por outro lado, todos sabemos a que se deve todo este alarido, porquê todo este drama. A grande figura chega no final da semana e está-me a dizer para tentar outra vez amanhã? Não brinque comigo’”.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s