Entender a China através dos poetas: “Poemas de Du Fu” é lançado em Lisboa

As obras “Poemas de Du Fu” (2016), traduzidos por António Graça de Abreu, e “100 Sonetos de Luís Vaz de Camões” (2014) transpostos para chinês por Zhang Weimin, são lançadas em Portugal, amanhã, pelas 17h30, na sede do Instituto Camões. As traduções que agora chegam a Portugal foram inicialmente publicadas em Macau pelo Instituto Cultural numa versão bilingue chinês-português e integram a “Colecção de Literatura Chinesa e Portuguesa”.

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Cláudia Aranda

O Instituto Cultural (IC) e o Camões – Instituto da Cooperação e da Língua de Portugal vão apresentar em Lisboa “Poemas de Du Fu” e “100 sonetos de Luís Vaz de Camões”, obras bilingues chinês-português integradas na Colecção de Literatura Chinesa e Portuguesa. A apresentação vai ter lugar, amanhã, 27 de Junho, pelas 17h30 horas, na sede do Instituto Camões, em Lisboa. Os alunos dos Institutos Confúcio sedeados em Portugal vão recitar em mandarim e em português alguns dos poemas.

“Poemas de Du Fu” inclui uma selecção de 180 poesias do poeta chinês traduzidos por António Graça de Abreu, professor de Sinologia na Universidade de Aveiro de Portugal, constituindo a primeira grande antologia de Du Fu em língua portuguesa. A obra “100 Sonetos de Luís Vaz de Camões”, transpostos para chinês por Zhang Weimin, reúne sonetos do segundo volume da colecção “Obras Completas de Luís Vaz de Camões”, publicado em 1843.

Antes de Du Fu, António Graça de Abreu já tinha traduzido para português, Li Bai (1990), Bai Juyi (1991), Wang Wei (1993) e Han-Shan (2009): “Os maiores poetas da China são todos homens da dinastia Tang, que vai de 618 a 907, que é um período áureo da poesia chinesa, já com a língua perfeitamente estruturada e com toda a qualidade na utilização da língua chinesa para expressar poeticamente o pensamento”, explicou o tradutor em conversa telefónica com PONTO FINAL.

O tradutor confessa que Du Fu foi “o mais trabalhoso e o mais difícil de todos de traduzir”: “Porque o homem tem de facto uma linguagem muito depurada, muito trabalhada, ele trabalha muito bem as frases, utiliza e comparações e metáforas quase inacreditáveis”, acrescenta.

António Graça de Abreu, hoje com quase 70 anos, conta que começou a estudar chinês aos 30, mas sustenta que ainda hoje lhe é difícil identificar todos os caracteres, sublinhando que até os próprios chineses têm dificuldade. O tradutor recorre, por isso, “a pequenos estratagemas para entender os poemas, para ordenar a sequência dos caracteres e para perceber os paralelismos temáticos ou de ideias”. Os caracteres, as rimas também não são iguais aos que se usam hoje, os tons que utilizavam em 700, 800 são diferentes:  “É tudo muito complexo”, afirma. Mas, acrescenta, “tenho muitas ajudas, muitas formas de chegar ao original chinês e de tentar entendê-lo, também comparo com traduções inglesas, francesas, e depois lá vem aparecendo o poema, lá vai surgindo a pouco e pouco. Também tenho uma mulher chinesa que me ajuda, tenho o Zhang Weimin, amigo há muitos anos, que é um letrado que me ajuda também, tenho dicionários, tenho livros de vocabulário da dinastia Tang, é uma descoberta permanente. E, depois, para além de todas as ajudas, tenho o gosto de colocar os poemas, neste caso de Du Fu, num português limpo, escorreito, com alguma qualidade poética”, diz o responsável pela antologia de poesia que é amanhã apresentada na capital portuguesa.

Du Fu (712-770) foi contemporâneo de LI Bai, “foram amigos”, são da mesma época, “um período de convulsão na China, de guerra, uma guerra terrível que provocou 12 milhões de mortes, que começou em 755 e acabou praticamente em 763, durou oito anos. Uma rebelião provocou o caos no império, o Du Fu foi completamente apanhado por esta guerra é um homem desgostoso com a realidade que conhece. A China, na altura, tinha 56 milhões de habitantes, portanto veja como isso o marca e como é importante”, acrescenta António Graça de Abreu, que nos seus livros, junta sempre uma biografia dos poetas. “Se não percebermos o período em que viveram e o que foi a passagem deles por este mundo, ficamos um pouco fora da temática. Du Fu, tal como Li Bai, fazem história em poesia, os chineses dizem mesmo isso, e essa história é importante para entender o mundo chinês. O que acontece ao longo de três ou quatro mil anos de história da China, é a luta pelo poder, são os temas constantes da poesia chinesa, o homem que zangado com o mundo se retira e se isola e procura a contemplação na natureza”, explica Graça de Abreu. Du Fu faz isso, embora seja um homem com uma vida complicada e infeliz, tem um filho que chega a morrer de fome, ele retrata isso num poema, é um poema conhecidíssimo na China, sobre o sofrimento do povo, se há povo que tem sofrido muito ao longo da história é o povo chinês”, remata o tradutor.

António Graça de Abreu alerta ainda para a necessidade de reeditar alguns dos livros de poemas traduzidos, que já esgotaram, entretanto. Porque estes são “poetas eternos e estes livros não desactualizam, são actuais hoje, como o serão daqui a 100 anos. Se quisermos entender a China, ao lermos estes poemas, enquadra-los na época ajuda-nos a perceber aquele país”, remata o tradutor.

 

 

 

 

 

 

 

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