Marcel Khalife: “A arte é mais poderosa do que qualquer autoridade”

A música é a arma com que o libanês Marcel Khalife luta contra a brutalidade do mundo. Profundo defensor da liberdade, o compositor e intérprete de oud – um dos mais emblemáticos instrumentos da tradição musical árabe – promete, em entrevista concedida em exclusivo ao PONTO FINAL, continuar a gritar mais alto e a fazer chegar a sua voz mais longe. Porque, se não o fizer, não estará a ser fiel à sua própria consciência e aos seus ideais. Marcel Khalife actua amanhã, às 20h, no Grande Auditório do Centro Cultural de Macau.

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Entrevista de Cláudia Aranda

Fotos de Eduardo Martins

O concerto do libanês Marcel Khalife, amanhã, sábado, às 20h, no Grande Auditório do Centro Cultural de Macau, constitui a estreia na China e na Ásia Oriental do compositor e intérprete de oud, um instrumento mais antigo que o alaúde, o bandolim, a guitarra e a pipa chinesa. Marcel Khalife apresenta-se em palco juntamente com os músicos Assaad Boustany e Zad Khalife, ambos na percussão, e Edward Perez, no contrabaixo. Numa conversa que antecedeu a entrevista ao PONTO FINAL, traduzida do árabe para o inglês pelo agente artístico Mustafa Habib, o compositor, nascido numa família cristã no Líbano, falou de como aprendeu a apreciar o oud a ouvir os hinos religiosos quando ia à igreja com a mãe e de como a sua música está profundamente ligada à poesia, particularmente ao trabalho do poeta palestiniano Mahmoud Darwish, falecido em 2008. Um dos poemas de Mahmoud Darwish – “Oh Father, I am Yusuf” que cita um verso do Corão – acabaria por resultar numa acusação de blasfémia contra Marcel Khalife. Em 1999, o compositor teve que comparecer perante um tribunal em Beirute, “por insultar valores religiosos, usando um verso do Corão Sagrado numa música”. Seria, mais tarde, inocentado. Em 2005, num concerto na Tunísia, em Cartago, o músico dedicou uma das músicas a todos os árabes presos nas cadeias de Israel e nos países árabes, resultando daqui um boicote às músicas do compositor na rádio e televisão estatais daquele país do norte de África.

A liberdade e a tolerância têm sido as causas de sempre deste cristão árabe, nascido em 1950, na aldeia costeira de Amchit, no Líbano, um dos países religiosamente mais diversificados do Médio Oriente, que reúne vários grupos confessionais cristãos, muçulmanos e judeus. Durante a guerra civil, o compositor teve que sair do país, devido às suas posições políticas discordantes. No entanto, afirma, as suas composições musicais não deixaram de ser ouvidas, porque “a música transcende as divergências políticas”: “Durante a guerra civil no Líbano mesmo os que não concordavam com as minhas visões políticas ouviam a minha música. Apesar da guerra e das variadas facções, há certas aspectos nos seres humanos que transcendem a política. Qualquer pessoa que tenha uma causa, que está em sofrimento e sente injustiça vai sentir a minha música”, disse Marcel Khalife, ontem na conversa com a imprensa que antecedeu a entrevista em exclusivo com o PONTO FINAL.

Os contributos para a paz e para a promoção das artes e da música já lhe  valeram a atribuição de quase duas dezenas de prémios, entre os quais a Medalha Nacional da Palestina para as Artes e Cultura em 2001, cujo prémio monetário Khalife doou ao Conservatório Nacional de Música Edward Said, na Palestina, o qual estabeleceu uma competição anual de música com o nome do compositor libanês. Em 2005, Marcel Khalife foi nomeado Artista pela Paz da UNESCO.

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– Defende que a salvação do mundo está na poesia e que o seu trabalho – aquele que sabe fazer –  é combater a brutalidade e crueldade do mundo com a sua música. Ao fim de mais de 40 anos de carreira, o que o faz continuar a lutar? Acha que foi bem sucedido de alguma forma?

Marcel Khalife – O que todos os seres humanos podem fazer, na verdade, é tentar. Eu talvez não consiga alcançar aquilo a que aspiro durante a minha vida, mas vale a pena tentar. O que é ainda melhor em relação a isso é o caminho para lá chegar. A experiência ao longo desse percurso, em si mesmo, já é um sucesso e é uma forma de contribuir para esse fim, mesmo que já cá não ande quando finalmente esse fim for atingido. Eu estou nesse caminho. Chegue ou não lá durante o meu tempo de vida não é o mais importante, porque chegar lá é quase impossível. Apesar disso, nós procuramos o impossível.

– Em algum momento achou que estava perto de atingir o objectivo?

M.K. – Quando olhamos para o pôr-do-sol, vemos o horizonte, mas quando lá chegamos vemos que há outro horizonte e outro pôr-do-sol. É muito difícil ver onde termina. Isto é a vida. A vida é uma busca constante por uma melhor condição.

– Ser um cristão árabe permite-lhe ver as coisas de forma diferente? Acha que é mais livre para falar? Ou se fosse muçulmano agiria exactamente da mesma maneira, sentiria a mesma liberdade?

M.K. – Não penso nesses termos. Qualquer ser humano procura essa liberdade, independentemente da religião que professa: seja cristão, muçulmano, budista, judeu, o ser humano tem a chave da verdade, aquela que abre portas. Não gosto que a religião tenha um papel como obstáculo à humanidade: se a religião tem de ter um papel na sociedade deve ser de enriquecer a vida e não de desafiar e cobrar ao outro. Todas as religiões, sem excepção, praticaram brutalidades, foram responsáveis por guerras contra o outro. As vítimas das guerras religiosas excedem de longe aquelas provocadas por razões políticas. Quando olho para si não estou preocupado nem interessado na sua religião ou nas suas crenças. Aquilo em que acredito são as coisas que nos unem enquanto seres humanos. Nascer e crescer na região em que nasci deu-me a riqueza particular das religiões com que convivi, fossem cristãs ou muçulmanas. Não quero saber da “sharia” [lei islâmica baseada no Corão e nas “fatwas” ou decisões dos representantes religiosos]. Gosto de espiritualismo: todos os seres humanos procuram espiritualidade, na poesia, na música ou até mesmo na religião. Não acredito em religiões políticas.

– Ainda assim, o que é que o fez tornar-se num lutador e num defensor da liberdade?

M.K. – Nós todos procuramos a liberdade. Desde que nascemos, cada um de nós, busca liberdade, o ser humano o mínimo que ele tem é a liberdade. Mas, ainda que eu fale de liberdade, que eu busque liberdade e que a expresse na minha música e nas minhas canções, eu ainda sinto falta de mais liberdade. As crenças [religiosas] na nossa sociedade mudaram o ser humano. Foi isso que me inspirou desde que era muito novo a quebrar as grades. Vou-lhe contar uma pequena história. Quando tinha 17 anos, nós tínhamos na religião do cristianismo a confissão, na primeira comunhão. Aos 17 anos, íamos ter com o padre para confessar os nossos pecados. Quando me sentei em frente do padre eu não tinha nada para contar. Mas, o padre estava a tentar encontrar pecados, e perguntava: “Olhaste para a rapariga sentada ao teu lado durante as aulas? Isso é pecado”. Se esse fosse o caso então eu tinha muitos pecados, porque eu costumava olhar à minha volta. Desde o início que havia uma espécie de asfixia, uma pressão da religião, uma disciplina social e política. Talvez tenha sido isso que me inspirou a ser como sou hoje e, claro, o mundo em que cresci. Fui abençoado com uns pais com uma mente muito aberta, a minha mãe especialmente. Ela morreu quando eu era muito novo [o músico tinha 16 anos], mas ela deu-me aquela coragem. Vivemos numa sociedade com limitações. Eu e os meus pais não tínhamos essas limitações, mas a sociedade no seu todo impõe limitações em ti, no teu comportamento, na tua conduta, naquilo que podes alcançar ou não.

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– Em comparação com a época em que nasceu e cresceu no Líbano, o seu país, o mundo, está melhor hoje ou do que antes?

M.K. – Antes era melhor. O mundo no seu todo era melhor. O planeta e a humanidade recuaram consideravelmente desde esses tempos. Mas isso não nos faz pessimistas. Isso significa que temos que trabalhar mais arduamente, cada um na sua profissão.Por exemplo, você como jornalista, estamos aqui numa conversa que vai acabar por ser publicada num jornal. Talvez o que quer que eu tenha dito, desperte a atenção de alguém e a sua consciência.

– Acha que a credibilidade do mundo árabe está em risco, atendendo ao que se passa hoje … Vemos uma divisão entre os países árabes (Arábia Saudita, Emiratos Árabes Unidos, Bahrein, Egipto, Yemen)  que se colocam contra o Qatar. O que se está a passar?

M.K. – A reputação e a forma como as pessoas olham para mim não me preocupam, porque sei que venho de uma cultura que é muito rica na sua história, na sua arte, na sua música. Isso é o que eu sinto que represento: a cultura árabe no seu todo, no sentido em que vivemos culturalmente na diversidade dentro da unidade. O que está a acontecer agora é uma consequência da ganância e de uma tentativa de controlar as riquezas e os recursos dessas nações. É uma luta pelo petróleo. Mas, isso não significa que tenhamos perdido a nossa cultura e a nossa herança das coisas boas da nossa sociedade. Se retirarmos o petróleo já não haverá mais guerras. Não é um problema local. Fazer a guerra faz-se, não apenas com invasões. Pode-se criar guerras tornando aquele território mais atrasado e subdesenvolvido e é isso que está a acontecer.

– A sua actuação, a sua música, algumas declarações criaram algum incómodo junto das autoridades de alguns países árabes no passado. Alguma vez sentiu a vida ou a sua liberdade de expressão em perigo?

M.K. – Sim, claro. Fui levado a tribunal acusado de blasfémia, mas a arte é mais poderosa e mais forte do que qualquer autoridade que exista. Fora da minha carreira como músico e compositor eu tenho uma opinião, e expresso a minha opinião, sou um cidadão como qualquer outro, tenho direito de concordar ou discordar das coisas. Claro que tem mais peso aquilo que uma pessoa diz por causa da popularidade que tem e a posição cultural que ocupa:  as pessoas vêm essa pessoa como modelo e talvez isso intimide as autoridades, sim isso existe. Se alguém tem uma voz e precisa de gritar alto, deve fazê-lo, se tiver essa voz, essa posição, essa voz deve chegar longe. Se eu não o fizer significa que não estou a ser fiel à minha própria consciência e aos meus ideais.

– Teve sempre liberdade para falar do seu país, no Líbano. Das relações do seu país com Israel, e com o mundo?

M.K. – Muito cedo na minha vida recusei-me a aceitar e fui expulso da minha aldeia por causa das minhas ideias políticas. Fui forçado a sair em várias ocasiões, da minha aldeia e de Beirute, durante a guerra civil [que durou entre 1975 e 1990]. Houve alturas em que não havia alternativa senão sair. Mas, voltei sempre. E voltei sempre à minha aldeia, voltei no fim da guerra civil e toda a gente percebeu que eu era quem tinha razão e eles estavam errados. Não faço este tipo de coisas intencionalmente, faço-o instintivamente. Expresso o que penso.

– Continua a viver no Líbano?

M.K. – Sim, na minha terra natal. Mas, na verdade, vivo sobretudo a viajar de avião.

– Está atento ao que se passa na China?

M.K. – Quando éramos jovens, havia um ditado árabe que dizia: “Busca pelo conhecimento, até na China”. Isto quer dizer, busca o conhecimento não importa a distância. A China costumava estar no fim do mundo para nós. Há um outro ditado, este é chinês, que diz que, “uma viagem de mil léguas começa com um passo”. Não me esqueço da tinta-da-china, que eu costumava usar para escrever cartas de amor, compor música, tenho amigos  que quando disse que ia a Macau, na China, disseram-me, “por favor, tens que me trazer tinta-da-china”. E, claro, que sigo o que se passa no mundo, mesmo à distância, incluindo o que se passa na China.

 

 

DESTAQUE 1

 

“Todas as religiões, sem excepção, praticaram brutalidade e guerras contra o outro. As vítimas das guerras religiosas excedem de longe aquelas provocadas por razões políticas. Quando olho para si não estou preocupado nem interessado na sua religião ou nas suas crenças, aquilo em que acredito são as coisas que nos unem enquanto seres-humanos.”

 

DESTAQUE 2

 

“Se alguém tem uma voz e precisa de gritar alto, deve fazê-lo, se tiver essa voz, essa posição [na cultura], essa voz deve chegar longe. Se eu não o fizer significa que não estou a ser fiel à minha própria consciência e aos meus ideais.”

 

 

DESTAQUE 3

 

“Desde o início que havia uma espécie de asfixia, uma pressão da religião, uma disciplina social e política, talvez tenha sido isso que me inspirou a ser como sou hoje e, claro, o mundo em que cresci. Fui abençoado com uns pais que tinham uma mente muito aberta, a minha mãe especialmente, ela morreu quando eu era muito novo, mas ela deu-me aquela coragem. Vivemos numa sociedade com limitações, eu e os meus pais não tínhamos essas limitações, mas a sociedade no seu todo impõe limitações, no teu comportamento, na tua conduta, naquilo que podes alcançar ou não.”

 

DESTAQUE 4

 

“O que está a acontecer agora é uma consequência da ganância e de uma tentativa de controlar as riquezas e os recursos dessas nações, é uma luta pelo petróleo. Mas, isso não significa que tenhamos perdido a nossa cultura e a nossa herança das coisas boas da nossa sociedade. Se retirarmos o petróleo já não haverá mais guerras. Não é um problema local. Fazer a guerra faz-se não apenas com invasões, pode-se criar guerras tornando aquele território mais atrasado e subdesenvolvido e é isso que está a acontecer.”

 

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