Importa os portugueses “terem memória do que foi o seu passado”

Joaquim Furtado está em Macau para uma série de conversas sobre a guerra colonial e o 25 de Abril. Ontem conversou com alunos do 10.º ano da Escola Portuguesa de Macau. Hoje, o autor vai estar no auditório do Consulado-geral de Portugal em Macau, a partir das 18h30. O desconhecimento dos portugueses sobre o conflito foi o ponto de partida para Joaquim Furtado realizar a série “A Guerra”. Sobre Macau, o jornalista acha que os portugueses continuam “mal informados”, tal como já acontecia em 1979, quando visitou o território pela primeira vez em reportagem.

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Cláudia Aranda

“É bom que as pessoas tenham memória daquilo que foi o seu passado” defendeu ontem o jornalista Joaquim Furtado, autor da série documental de 42 episódios “A Guerra”. O jornalista e realizador está em Macau a convite do Instituto Português do Oriente (IPOR) e do Consulado-Geral de Portugal em Macau para participar numa série de palestras sobre a guerra colonial, o 25 de Abril e o jornalismo. Hoje o autor vai estar no auditório do Consulado-geral de Portugal em Macau, a partir das 18h30 para uma conversa moderada pelo jornalista Gilberto Lopes.

Ontem, Joaquim Furtado falou sobre a guerra colonial e o 25 de Abril perante uma plateia de quase duas dezenas de alunos das turmas B e C do décimo ano da Escola Portuguesa de Macau (EPM). Da parte dos estudantes não faltaram questões: “Tenho uma dúvida. O meu conhecimento em relação à a guerra é muito pouco não estudei a guerra, vim do Brasil”, avança o primeiro aluno. “Quantos anos tinha quando começou a guerra?”. “Que dificuldades encontrou para fazer a série de televisão?”. “Como é que conseguiu que as pessoas falassem consigo?”.

Joaquim Furtado, hoje com 69 anos, tinha 13 quando a guerra colonial começa em Angola, em 1961, seguindo-se na Guiné, em 1963, e em Moçambique, em 1964. Em 1969 foi incorporado, cumpriu três anos de serviço militar. Mas, confessa, “tive sorte que não fui mobilizado”. Os acontecimentos vividos na madrugada do 25 de Abril encontram-no de serviço aos microfones do Rádio Clube Português. Foi o jornalista, na altura com 26 anos, quem leu o primeiro comunicado do Movimento das Forças Armadas: “O comunicado começava, ‘aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas, as forças armadas portuguesas apelam a todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de recolherem às suas casas com a máxima calma’. Isto eram 3h26 minutos da manhã, o comunicado continua mas nunca explica de que movimento se trata. Só às 7h30 é que houve um comunicado em que já se diz que há um movimento para derrubar o regime que há muito tempo dominava o país”, conta o jornalista.

À plateia preenchida por adolescentes do secundário explica que “a guerra foi o principal factor que levou ao 25 de Abril”. Mas que, “quando o 25 de Abril chega, a questão da guerra passou para segundo plano. Como tinha sido uma coisa contra a qual muitos militares se tinham revoltado, os soldados que tinham sido mobilizados à força, porque era obrigatório, ficaram numa situação muito ingrata, tinham ido para a guerra, muitos tinham ficado mutilados, e não lhes era reconhecido o esforço. Ninguém falava da guerra e criou-se ume espécie de silêncio. Foi preciso deixar passar muito tempo para que eles aceitassem falar daquilo que tinham vivido”.

 

Portugueses “mal informados”

 

“O conhecimento ínfimo” dos portugueses em relação a estas questões foi o que motivou o autor a realizar a série sobre a guerra colonial lançada em 2007 na emissora pública de televisão portuguesa, a RTP. “Achava que de alguma maneira a minha geração tinha que fazer um trabalho sobre a guerra. A importância da guerra é evidente, desde logo porque deu lugar ao 25 de Abril”. Além disso, “foi um factor que atravessou as famílias e vitimou muitas delas, em situações que ainda hoje têm repercussão”, disse em conversa com os jornalistas à margem da palestra realizada na Escola Portuguesa de Macau.

O jornalista admite que esta série documental foi feita “em condições especiais”, desde logo graças à “disponibilidade da RTP para acalentar o projecto”. Hoje, seja por motivos orçamentais ou outros, é difícil concretizar projectos.  O jornalista confessa que esperava que “este caminho fosse trilhado por mais gente”. Em todo o caso, “ainda há muito gente que pode testemunhar sobre a guerra, espero que haja outros jornalistas que façam outros trabalhos sobre o mesmo tema, ouvindo outras pessoas, e olhando para este acontecimento de perspectivas diferentes, todas são bem vindas”.

O autor, entretanto, tem um outro projecto, que dá continuidade ao anterior, que consiste em cobrir o período entre o 25 de Abril e as independências das antigas colónias: “É um período curto mas riquíssimo em história, em vicissitudes e episódios, testemunhado em livros, mas que em televisão não está feito. Envolve várias circunstâncias, a guerra que ainda continuou nos territórios, o fenómenos dos retornados ou refugiados, que tiveram que sair para Portugal em condições muito difíceis, as próprias negociações que tiveram histórias e protagonistas diferentes”, explica.

Esta é a terceira vez que Joaquim Furtado visita o território, depois de uma vinda em 1979 enquanto jornalista e de outra viagem realizada em 1994, enquanto formador. O jornalista é da opinião que as pessoas em Portugal estão “muito mal informadas” sobre regiões que lhes são supostamente próximas, como os Açores, a Madeira ou Macau. Em 1979 o autor veio em reportagem fazer um retrato do território, “porque Macau era muito pouco conhecido. Ainda hoje, se perguntar a um português médio o que é que é Macau ele tem dificuldade em fazer um retrato, naquela altura provavelmente ainda tinha menos informação”, diz.

 

 

 

 

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