Recordar Tiananmen, a “face negra” de uma China que continua em negação

Vinte e oito anos depois, do outro lado das Portas do Cerco mantém-se o silêncio sobre a madrugada sangrenta em que militares chineses investiram contra centenas de estudantes que reivindicavam por uma China mais democrática. Na Praça da Paz Celestial, em Pequim, a 4 de Junho de 1989, a esperança de uma China mais livre foi impiedosamente esmagada. Já se fazia noite quando ontem, no Leal Senado, dezenas de pessoas se reuniram para uma vigília que se propõe manter viva, ano após ano, a memória dos fatídicos acontecimentos de Tiananmen.

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Joana Figueira*

Finn, 18 anos, ouve atenta os discursos proferidos durante a vigília que todos os anos, desde 1990, recorda, no território, todos aqueles que pagaram com a vida o desígnio de uma China mais democrática. Os que não morreram acabaram feridos, presos ou perpetuamente perseguidos. O dia 4 de Junho tomou outro sentido na vida de Finn quando, já no ensino secundário, um professor de História lhe falou sobre o dia em que os estudantes de Pequim se reuniram na Praça de Tiananmen, em 1989, para expressar as suas inquietações face a uma nova China, que se fazia já anunciar. Após décadas de ortodoxia ideológica, o nação mais populosa do planeta abalançava-se na economia de mercado e numa nova ordem que parecia beneficiar uns em detrimento de outros.

Quase três décadas depois, os livros que ensinam as glórias da China às gerações que cresceram após aquele sangrento mês de Junho não exibem qualquer referência sobre os acontecimentos da Praça da Paz Celestial:  “O nosso Governo não quer falar sobre isto. É uma espécie de face negra do nosso Governo”, diz Finn. A jovem, natural da província de Hunan, chegou a Macau há um ano para prosseguir os estudos.

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A Finn e a milhões de outros jovens, faltam-lhes os detalhes para construir e compreender a história recente daquela que é agora a segunda mais possante economia do mundo. Afortunada, a jovem estudante tem a possibilidade de procurá-los ali, no Leal Senado, entre algumas dezenas de pessoas que se associaram a uma iniciativa promovida ano após ano pelos deputados Ng Kuok Cheong e Au Kam San.

Os presentes acendem velas e pequenas lamparinas em memória dos milhares de manifestantes – estima-se – que perderam a vida durante os protestos estudantis que tomaram conta do centro da capital chinesa no Verão quente de 1989: “Estou a tentar saber mais e a tentar dar uso a estes elementos para compreender a situação. Não sei muitos detalhes sobre isto, portanto vim aqui para aprender”, confessou. “Na China Continental, talvez não seja possível falar sobre este assunto porque não podemos falar tão livremente como em Macau ou em Hong Kong. Aqui, podemos expressar as nossas próprias ideias sobre questões políticas. Ou seja, por um lado, na China Continental soube o que aconteceu apenas através de um professor de História. Aqui temos acesso aos pormenores por meios como o vídeo e a fotografia e, assim, melhoramos os nossos conhecimentos”, revela Finn, ladeada por um amigo que vai acenando com a cabeça, em sinal de concordância com o que ouve.

Finn percebe – ainda que a informação lhe chegue aos retalhos – que há diferenças notórias e até contrastantes entre a geração de estudantes a que pertence e aquela que esteve na origem dos tumultos de Tiananmen: “Penso que os estudantes, naquele período, se preocupavam mais com o Governo e com as suas próprias ideias políticas. Eles queriam lutar pelas suas opiniões e ideias. Acho que, hoje em dia, as pessoas não prestam muita atenção a estas coisas. Talvez porque na China Continental não nos é permitido falar muito sobre isto”, assume.

 

“CONSEGUE LEMBRAR-SE. AINDA QUE LENTAMENTE.”

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Na Macau de finais da década de oitenta, ainda sob administração portuguesa, os ecos de Tiananmen colocaram na rua cerca de 100 mil pessoas em solidariedade para com os estudantes de Pequim. Dois anos antes, a 13 de Abril de 1987, tinha sido assinada a Declaração Conjunta Luso-Chinesa, o documento que sentenciava a sorte do território e lhe apontava um futuro agora incerto, o do regresso a uma China que feições sanguinárias. Cheong In Seong, agora com 94 anos, fez questão de subir as escadarias das Ruínas de São Paulo nos primeiros dias de Junho de 1989 em solidariedade para com os estudantes da Praça da Paz Celestial. Recorda todos os anos aqueles que ali perderam a vida, ainda que a memória já lhe falhe e o corpo se mova apenas pelas mãos da filha: “Venho aqui todos anos”, diz Cheong. “Eu trago-a aqui todos os anos”, complementa a filha. “Vale sempre a pena. Quando vê estas imagens, consegue lembrar-se. Ainda que lentamente. Mãe, lembra-se do 4 de Junho nas Ruínas de São Paulo?” Cheong acena positivamente.

 

RECORDAR O MASSACRE COM OS OLHOS NA CONSTRUÇÃO DE UMA CHINA DEMOCRÁTICA

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“Isto aconteceu há 28 anos mas, na verdade, o incidente de 4 de Junho continua a ser abordado injustamente uma vez que aqueles que morreram continuam sem a sua morte justificada. Os chineses do Continente devem pedir um comentário justo sobre o que aconteceu. Organizamos esta vigília todos os anos, tal como outras comunidades chinesas espalhadas pelo mundo. Umas vezes há mais pessoas a participar, outras vezes menos, mas isso não é o mais importante: o fundamental é que Macau e Hong Kong – enquanto duas regiões administrativas especiais com relativamente mais liberdade – têm a responsabilidade de realizar este memorial com a esperança de construção de uma China democrática”, explica incansavelmente Au Kam Sam, um dos responsáveis pela organização da vigília que ontem levou dezenas de pessoas ao Largo do Senado.

Ng Kuok Cheong, outro dos organizadores da iniciativa, acredita num debate com os olhos postos no futuro. Lee Kin Yun, presidente da Associação de Activismo para a Democracia, exige um “mea culpa” por parte do Governo chinês. Até às 20h, nota-se a ausência de representantes da principal plataforma pró-democrática do território, a Associação Novo Macau. Hong Kong e Macau continuam a ser os únicos lugares da China onde são conduzidas manifestações para relembrar a repressão violenta que manchou com sangue a madrugada de 3 para 4 de Junho de 1989, colocando fim aos protestos pacíficos que há alguns meses enchiam de esperança o coração de Pequim.

 

* com Elisa Gao

 

 

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