Século e meio depois, retribuir a Silva Mendes o legado por ele deixado a Macau

Em Outubro assinalam-se os 150 anos do nascimento de Manuel da Silva Mendes, figura de relevo da Macau da primeira metade do século XX que o tempo foi votando gradualmente ao esquecimento. É este desaparecimento que João Botas pretende reverter com “Biografia de Manuel da Silva Mendes 1867-1931”. A obra é apresentada este domingo na Feira do Livro de Lisboa.

1.MSMbiografia

Desiludido e algo desencantado com o rumo político de Portugal nos finais do século XIX, Manuel da Silva Mendes viaja para Macau, onde chega em 1901. Agastado com a sua luta pessoal contra um regime monárquico já então decadente, rapidamente se embrenha na sociedade e cultura chinesa, realidades que lhe eram até então inteiramente desconhecidas. Para Macau vem como professor do Liceu mas ao longo dos 30 anos em que teve o território como casa – quase metade da sua vida – desempenhou funções como reitor do estabelecimento de ensino, advogado, juiz e vereador do  Leal Senado. Pelo meio, encontrou tempo para se dedicar às letras e ao coleccionismo, tendo deixado obra como escritor e cronista e também um espólio considerável de cerâmica de Shec Wan. É esta personagem, entalada entre dois séculos, que o jornalista e escritor João Botas evoca e recorda numa novo obra que será apresentada este domingo na Feira do Livro de Lisboa.

Não foi de forma inocente que João Botas atribuiu ao blog por si criado em 2008 o nome de “Macau Antigo”, título que pediu emprestado ao primeiro capítulo de uma obra de Silva Mendes que nunca chegou a ver a luz do dia. A ligação entre os dois escritores, separados por mais de um século, ganhou substância através do contacto com uma bisneta de Manuel da Silva Mendes que conduziu o jornalista até uma outra familiar, que partilhou com o biógrafo a documentação que tinha do seu avô que, na realidade, não superava a que o investigador tinha já reunido.

A imersão imediata de Silva Mendes no modos de viver chineses mantém-se para João Botas “um mistério”. O jornalista procura explicações “no desalento e algum desencanto pelo rumo político com aquilo porque lutou, que foi a implantação da república”. Um tal desalento levou o então professor “a embrenhar-se mais naquilo que são os seus estudos e dá-se um afastamento definitivo quer do mundo ocidental, quer até da hipótese de regressar a Portugal.” Esta cisão é efectivada em 1928 quando o escritor pede ao Governo português uma autorização de residência permanente no território “não obstante ele já estar fisicamente debilitado e bastante doente”.

“É uma personagem que não quer só para si aquilo que apreende da civilização e da cultura chinesa, mas que deixa centenas de artigos escritos” sublinha o jornalista e blogger. João Botas atribui “a colecção porventura mais valiosa de arte cerâmica de Shec Wan do Museu de Arte de Macau” a Manuel da Silva Mendes. Como coleccionador de arte deslocava-se até à vizinha província de Guangdong onde pedia a mestres locais modelos e figuras específicas que se tornaram “obras únicas” conta o jornalista.

Antes de vir para Macau – no mesmo ano em que terminou o curso de Bacharel (Direito) em Coimbra – publica uma obra que “ainda hoje é uma referência para a teoria política do anarquismo” – “O Socialismo Libertário ou Anarchismo” e que o marcou como um “intelectual de referência em Portugal”. Ao longo da segunda metade da sua vida mantém sempre uma visão bastante crítica da sociedade, “não obstante a posição que detinha e que era uma posição de relevo à época” salienta João Botas.

O biógrafo mostra-se bastante crítico quanto ao significado que a figura de Manuel da Silva Mendes tem na Macau actual, principalmente quando comparada com outras personalidades suas contemporâneas, como é o caso de Camilo Pessanha: “O trabalho intelectual produzido por Silva Mendes é muito, muito superior, está a anos-luz (do de Camilo Pessanha). São personagens distintas, um teve mais visibilidade fruto da forma como morreu, da vida que levou, o Silva Mendes era uma pessoa mais austera, mais clássico”, defende o jornalista. Para João Botas “é chegada a hora de lhe dar o devido relevo e a devida importância”.

 

CVN

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