Número de crianças e jovens com hiperactividade e défice de atenção continua a aumentar

Perturbações neuro-comportamentais como a hiperactividade e o défice de atenção (PHDA) deram ontem o mote a uma palestra organizada pela Fundação Rui Cunha para assinalar o Dia Mundial da Criança. A Jorge Sales Marques, director dos Serviços de Pediatria do Centro Hospitalar Conde de São Januário, coube discorrer sobre o transtorno.

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Joana Figueira

 

Tem vindo a crescer – e substancialmente – ao longo das últimas décadas o número de crianças diagnosticadas com hiperactividade e défice de atenção (PHDA), um transtorno que se manifesta em termos comportamentais e com maior incidência em crianças e jovens.

Impulsividade, hipercinesia, inatenção, falta de organização, de capacidade de gestão do tempo e problemas de memória são alguns dos sintomas sentidos por crianças e adolescentes a quem o transtorno foi diagnosticado. A situação em Macau “é igual a qualquer outra parte do mundo, com uma prevalência da patologia de dois a oito por cento em idade escolar”, explicou ao PONTO FINAL o director dos Serviços de Pediatria do Centro Hospitalar Conde de São Januário (CHCSJ), Jorge Sales Marques.

Numa iniciativa dinamizada pela Fundação Rui Cunha com o objectivo de assinalar o Dia Mundial da Criança, a Sales Marques coube desconstruir mitos e realidades que se associam normalmente àquela que continua a ser “a perturbação neuro-comportamental mais frequente na infância e na adolescência”.

O número de crianças e jovens diagnosticados com PHDA tem aumentado ao longo dos anos principalmente por duas razões. O também presidente da Associação de Médicos de Língua Portuguesa de Macau afirmou que a razão pela qual o número de casos tem vindo a aumentar é porque há uma maior atenção ao fenómenos. “Primeiro, as pessoas estão mais atentas e, segundo, neste momento, os critérios [de avaliação] estão muito mais definidos sendo mais fácil fazer o diagnóstico”. O tratamento, sublinhou Jorge Sales Marques, deve ser sempre realizado através de uma “abordagem multidisciplinar e sempre individualizada às dificuldades de cada criança”.

O pediatra destaca a “importante ligação entre os pais, as crianças e a escola”: “Ainda continua a ser uma doença sub-diagnosticada mas também, por outro lado, sobrediagnosticada”. Porquê? “Porque muitas vezes neste tipo de patologia as crianças comportam-se com uma certa imaturidade, não gostam de cumprir regras, (…), muitas vezes são catalogadas como crianças preguiçosas e isso pode levar-nos a um sub-diagnóstico.”

Por outro lado, também uma criança também pode ser sobrediagnosticada porque existem critérios bem definidos em relação a este tipo de perturbação. Portanto, no momento em que se cumpram esses critérios, pode dizer-se que é uma doença de défice de atenção e hiperactividade”, esclareceu o especialista.

Os sintomas podem variar consoante a idade ou o nível escolar em que as crianças e jovens se encontram: “Se for na idade pré-escolar, sobressaem os sintomas de comportamento e a dificuldade de cumprir regras. Na idade escolar, o que predomina é o défice de atenção, dificuldades nas relações sociais e baixa auto-estima. E, na adolescência, hiperactividade intelectual – estão sempre a falar –, inquietude interna, sintomas ansiosos, impulsividade e irritabilidade”, explica.

Por outro lado, 80 por cento das crianças com PHDA podem ter associadas outras patologias, nomeadamente problemas de desenvolvimento, de aprendizagem, de comportamento ou de natureza psicológica: “E como é que os adultos se comportam? Pela impulsividade, instabilidade laboral e nos relacionamentos pessoais, baixa auto-estima e patologia psiquiátrica”, disse o pediatra. “Os casos de PHDA não se limitam à infância e que 30 por cento apresentam ainda PHDA na idade adulta. Desses, 81 por cento tem patologia psiquiátrica associada, como o abuso de substâncias, personalidade anti-social, ansiedade e perturbação de humor. A que é que isso leva? A maior conflito judicial na idade adulta”, sublinha Sales Marques.

Em Junho do ano passado foi inaugurado o Centro de Avaliação Conjunta Pediátrica nas antigas instalações do Serviço de Urgência de Pediatria do CHCSJ. Esta unidade de saúde integra actualmente diversos serviços de desenvolvimento infantil que abrangem, por exemplo, o domínio da hiperactividade, sendo disponibilizadas consultas próprias para esta condição: “O Centro de Avaliação Conjunta Pediátrica recebe hoje em dia crianças com esse problema que são enviadas pelas escolas e até pelos próprios pais. Tem uma resposta capaz porque há um conjunto de colegas pediatras e psicólogos que estão perfeitamente integrados em relação ao diagnóstico e sabem como se deve diagnosticar”, garantiu Jorge Sales Marques. O Centro também providencia acompanhamento psicológico aos pais destas crianças e jovens.

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