Margarida Vila-Nova: “Construir personagens é o que mais me diverte na vida”

Margarida Vila-Nova parte este sábado para Portugal, onde vai assumir o papel de protagonista de uma nova telenovela da SIC – “Regresso” – com estreia marcada para Setembro no horário nobre do canal de televisão privado português. Ao PONTO FINAL, a actriz fala dos desafios da representação, da personagem “Maria” e da produção de “Hotel Império”, cujas filmagens, em Macau, terminaram em Março. A actriz evoca ainda “Maria José”, mulher de António Lobo Antunes no filme “Cartas da Guerra”, obra que estreou em Berlim, em 2016, tendo conquistado a crítica internacional e os nove prémios Sophia, da Academia Portuguesa de Cinema, em 2017. A actriz revela que gostava de filmar com o realizador de Hong Kong, Wong Kar-wai, e que tem um projecto de documentário na gaveta que, promete, vai realizar um dia. Em Macau, a actriz diz viver a melhor fase da sua vida.

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Entrevista de Cláudia Aranda

Fotografias de Eduardo Martins

Ponto Final – Vai regressar a Portugal já no próximo sábado, 3 de Junho, para iniciar um novo projecto. De que se trata?

 

Margarida Vila-Nova (MVN) – O projecto chama-se “Regresso”. É uma telenovela para a SIC [canal de televisão português], com a qual tenho um contrato de exclusividade desde a telenovela “Mar Salgado”. Regresso regularmente a Portugal para um projecto de telenovela. Trocadilhos da vida…. É uma novela muito esperada, esteve a ser “cozinhada” durante estes dois últimos anos em que estive em Macau. Conta no elenco com a Rita Blanco e com o Albano Jerónimo, é uma novela de “prime-time”, vai passar em horário nobre. Há sempre uma expectativa grande sobre o projecto que se segue. Começo a filmar a 16 de Junho.

– É um projecto que a vai levar a África, certo?

 

MVN – Uma das características das novelas portuguesas, nos últimos anos, é que o primeiro episódio tem de ser grandioso, em termos de cenários, de guarda-roupa, de acção, crimes, acidentes e esta novela não fica atrás das outras. O cenário de arranque é a África do Sul. Vou andar a gravar entre Moçambique e a África do Sul. São dois cenários que se conjugam nesta história. Vamos estar cerca de duas semanas, intensivas, logo no arranque do projecto, em Junho. Já, portanto. Há muitas cenas que vamos filmar lá, que fazem parte dos cinco primeiros episódios desta história, muita acção, drama, mortes, amores, desamores, encontros, desencontros.

– Volta a ser a protagonista… Esta heroína é muito diferente de Leonor, de “Mar Salgado”?

 

MVN – Cada personagem tem vida própria, uma história única, acho que o desafio de um actor é, a cada personagem que nos é apresentado, torná-lo único, carismático e singular. Esta “Maria Luísa” é uma guerreira, uma mulher lutadora, forte, que vai viver um episódio trágico na sua vida, muito jovem, no arranque desta história, que começa em 2007, que vai colocar em questão a sua grande e única história de amor e que, 10 anos depois, ainda se confronta com uma dor e uma mágoa muito grande. Só não posso é revelar qual é o acontecimento trágico, para guardar alguma expectativa até Setembro.

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– O seu papel mais recente no cinema foi o de “Maria” no filme “Hotel Império”, realizado pelo seu marido, Ivo M. Ferreira.  Como foi a experiência?

 

MVN – O actor com quem contracenei, Rhydian [Vaughan] é muito famoso em Taiwan e na China. É um actor incrível, de uma generosidade muito especial. Ele estudou em Inglaterra, havia um entendimento cultural muito grande, porque havia uma partilha de experiências, viagens que fizemos, lugares onde estivemos, de autores, actores, filmes, teatro que se cruzaram e fazem parte da nossa vida e que partilhámos no dia-a-dia de rodagem. Representar em inglês, que não é a minha língua-mãe, é sempre diferente. Parece que a sensação é que nunca nos apoderamos da palavra, esta coisa da língua portuguesa.  Temos uma língua fortíssima, se calhar dou-me conta disso por força da profissão. Mas, temos uma língua poderosíssima, em termo gramaticais, de fonética, a palavra tem um peso muito grande, o nosso dicionário é riquíssimo. E, quando tenho que representar noutra língua, neste caso, em inglês e em cantonês, há uma dificuldade enorme acrescida: é como se as palavras nunca fossem verdadeiramente minhas. No caso do cantonês, aí então, a questão dos tons… uma portuguesa a falar cantonês…o sotaque ainda vá que não vá, mas não podemos dizer “colher” em vez de “papel” [qualquer coisa como “Tsi Khan” e “Tchi Khan”]. Estas pequenas subtilezas do cantonês… Eu tinha uma “coach” a acompanhar-me durante o processo de rodagem. E, depois, a Tracy [Choi, primeira assistente de realização no filme “Hotel Império”], fazia a ponte, ela e o Ivo [M. Ferreira] negociavam cada “take”, se o tom estava certo, se a intenção estava correcta, se o objectivo da cena estava alcançado. A Tracy fez esse acompanhamento durante a rodagem. Mas, antes das filmagens comecei com aulas diárias de cantonês, nos meses que antecederam a rodagem. No filme canto, falo inglês, chinês, é uma personagem que vive numa tristeza, que não correu atrás do seu sonho, que ficou acorrentada, amarrada a este “Hotel Império”. A questão da identidade, uma portuguesa que nasceu num hotel, junto de uma comunidade chinesa, esta relação umbilical que tem com o pai. Depois, Macau tem um ambiente muito especial, os “décors” são muito carismáticos, as ruas são emblemáticas, as luzes, os vapores, o trânsito, uma cidade multicultural, de pessoas que se cruzam diariamente entre várias comunidades, países e línguas. Foi engraçado transportar isso para o filme. Foi uma rodagem muito difícil em termos práticos, de organização, de autorizações, licenças. Macau ainda está a dar os primeiros passos na produção cinematográfica. Fico orgulhosa e sinto-me honrada de fazer parte de uma nova movida cultural em termos de produção cinematográfica no território. Mas, é um trabalho que não se pode perder, que tem de ser construído diariamente, em termos de mão-de-obra qualificada, facilidades de autorizações para filmar em determinados pontos da cidade. Há um caminho ainda a percorrer e espero estar cá no próximo ano para mais um projecto em Macau.

– De todos os papéis que já representou este, em “Hotel Império”, foi particularmente difícil?

 

MVN – Sim, eu chegava a ter suores frios. Foi um filme muito duro em termos de composição de personagem. É um universo que, apesar de tudo, para mim ainda era desconhecido. Não conheço esta realidade, estas pessoas, como pensam, como é que agem, como é que falam. Foi um dos projectos mais difíceis da minha vida. Mas, gostaria de fazer um percurso mais próximo do cinema: identifico-me com o cinema, gosto desta linguagem deste método perfeccionista, meticuloso, assertivo, não há muito tempo para falhar, estamos a trabalhar para uma hora e meia, duas horas de filme, todos os esforços e todas as energias, todo os dias, estão concentrados em dois, três minutos de filme, consoante as cenas que temos que fazer diariamente. Espero que, passo a passo, o mercado em Macau cresça, as parcerias, as co-produções, com Hong Kong, com a China, com Taiwan e com Portugal, e gostaria de estar cá quando essa oportunidade surgir. Gostava de estar mais próxima do cinema português, que tem tido resultados surpreendentes nos festivais de cinema e no mercado exterior, identifico-me com esta forma de comunicar, que é o cinema.

– Divide-se entre projectos em Portugal e Macau: o cinema e as telenovelas, os negócios, a vida privada. Acha que encontrou o equilíbrio perfeito?

 

MVN – Acho que estou a viver a melhor fase da minha vida em Macau. Este equilíbrio que encontrámos nos últimos dois anos é perfeito. Gostamos da vida que temos em Macau, dos projectos que temos cá, e somos felizes aqui. Mas, o facto de eu ser actriz implica que, com alguma regularidade, me desloque a Portugal para representar. Foi lá que construí o meu percurso e a minha carreira, é natural que os convites surjam em Portugal e não em Macau. Desejo e espero que as portas em Macau se abram neste mercado do cinema, que é um mercado pequeno, com oportunidades de trabalho escassas. Se falarmos de outros mercados como Taiwan, Hong Kong….A China está a produzir que é uma loucura, mas aí serei sempre a estrangeira, não falo mandarim ou cantonês. Acho que alcançámos o equilíbrio perfeito nos últimos dois anos. O Ivo conseguiu desenvolver os seus projectos cá, eu consegui acompanhá-lo nesses projectos, surgiram oportunidades em Portugal, o filme de Jorge Cramez [“Amor, Amor”], esta novela da SIC que se segue. Estamos felizes com os projectos que fomos construindo em Macau, a Mercearia Portuguesa, a Futura Clássica, que distribui os sabonetes da Castelbel, que representamos cá em exclusividade.

– Gostava de aproveitar outras oportunidades no cinema, aqui, na Ásia?

 

MVN – Nos primeiros anos em Macau estive focada noutros projectos, foi um tempo dedicado à família, não procurei trabalho como actriz. Fiz o filme “Na Escama do Dragão”, com o Ivo, fui a Portugal para a peça de [Federico Garcia] Lorca. Foi altura para fazer um intervalo. Mas, sim, agora, gostaria de dar aulas, e se surgissem oportunidades, em Hong Kong ou na China Continental… Já fiz contactos para isso. No seguimento do “Hotel Império” abriram-se algumas portas e houve uma abordagem para participar em produções na vizinha Hong Kong ou com o nosso produtor chinês [Lin Nan, da Titan Films International]. Espero que no regresso consiga explorar essas oportunidades. Trabalhar, queremos fazê-lo em todo o lado: haja oportunidades, projectos e desafios que nos façam atravessar o mundo e construir personagens que é o que mais me diverte na vida.

– É, também, a actriz preferida de Ivo M. Ferreira…

 

MVN – Filmei com João Botelho, Jorge Cramez, Mário Barroso, [João Mário Grilo]. Com o Ivo, o “Hotel Império” é a nossa segunda longa-metragem juntos, [a primeira foi “Cartas da Guerra”]. Antes disso fizemos “Na Escama do Dragão”. Há um entendimento muito grande, os projectos nascem lá em casa e começamos logo a ouvir e a falar dos filmes. No caso de “Cartas da Guerra”, à época – e em ex aequo com o “Hotel Império” – foi dos trabalhos mais desafiantes que eu tive, porque tratava-se de construir um personagem que estava em “off” o tempo inteiro no filme. A Maria José, mulher de António Lobo Antunes, que interpreto em “Cartas da Guerra”, tem quatro planos no filme, em que nunca abre a boca. Só conhecemos esta mulher através da leitura das cartas. Então, há um trabalho de leitura que tem que ser levado ao limite, cada palavra, cada vírgula, com mais ou menos emoção, mais ou menos tristeza, mais ou menos nostalgia, há uma quantidade infinita de intenções, sem nunca fugir à palavra que lá estava escrita. Essa era a única condição. Nunca foi nossa intenção desvirtuar o que estava escrito, que é belíssimo. Difícil é tornar o texto audível, que acompanhasse o filme, que contasse uma história. Foi um desafio. Nunca passei tanto tempo em “off” num filme.

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– Há outros realizadores com quem gostaria de trabalhar?

 

MVN – Há muitas pessoas com quem gostaria de trabalhar. Mas, também sei que tudo isto tem a ver com oportunidades, se me enquadro ou não no personagem que o realizador construiu na sua cabeça – que é loura, magra, alta ou baixa. Mas, já que estamos a falar do mercado vizinho, poderia ser com o realizador de Hong Kong Wong Kar-wai, numa perspectiva mais internacional.

– Imagina-se a realizar um filme?

 

MVN – Um filme não, um documentário talvez. Tive um projecto que estive a preparar durante algum tempo aqui em Macau, está na gaveta, mas não está esquecido, se calhar um dia realizo. Sou casada com um realizador, o que me deixa um pouco intimidada. Mas, tenho um projecto, cá em Macau, não sei exactamente o que é, está guardado na gaveta à espera do momento certo. Mas, não me atirava à ficção. Acho que ainda tenho um longo caminho a fazer como actriz antes de ter coragem ou a audácia de começar a realizar.

Futura clássica lança sabonete “Macau Lótus” 

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Na área dos negócios, a actriz e empresária Margarida Vila-Nova anunciou uma novidade: um novo sabonete – Macau Lótus – que vai ser lançado em breve e em parceria com o Albergue SCM e o arquitecto Carlos Marreiros.

Margarida Vila-Nova explica que fazia falta um produto representativo de Macau no catálogo de presentes e “souvenirs” da marca Castelbel, uma saboaria do Porto, cujos produtos são distribuídos no território pela empresa Futura Clássica, da qual a actriz e o marido, Ivo M. Ferreira, são parceiros. A fragrância foi desenvolvida pela dupla formada pela actriz e pelo realizador, conta Margarida Vila-Nova. A Futura Clássica detém o exclusivo da distribuição dos produtos Castelbel, que abriu no final do ano passado uma loja “flagship” no Pátio de Chou Sau, junto às Ruínas de São Paulo. O novo sabonete vai estar disponível, também, na Mercearia Portuguesa, loja de produtos tradicionais portugueses, que o casal abriu há cerca de seis anos no Albergue SCM.

 

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