Barcos-dragão. Espírito de equipa longe dos olhares do público

Nasceu há quase quatro anos e a intenção era a de participar anualmente com duas equipas nas Regatas Internacionais dos Barcos-dragão de Macau. Pela primeira vez, a Associação Desportiva Badas apresentou-se em competição exclusivamente com uma equipa feminina, que chegou até ao dia das provas sem treinador. Contrariando a competitividade intensa que por vezes se faz sentir, as atletas dizem levar as provas “na desportiva”. O objectivo: regressar ano após ano para experimentar de novo um ambiente que se vive com maior intensidade longe dos olhares do público.

 

_O6A0804_07

Fotografias de Eduardo Martins;

O rufar dos tambores há-de soar pela primeira vez a título competitivo por volta das nove horas, mas antes, muito antes, as bancadas ganham cor e vida, com as claques em representação das operadoras de jogo a quebrar a aparente monotonia  de Nam Van. As águas permanecem imóveis e as embarcações vazias, mas do público que chega cada vez em maior número chegam palavras de ordem e pregões ritmados, num último ensaio para o dia de competição que se avizinha. Nas bancadas, por entre filas coloridas de bancos, grupos de cheerleaders ensaiam uma última vez coreografias que se vão repetir vezes sem fim ao longo do dia, sempre acompanhadas por palavras de incentivo despejadas de forma incessante pelos microfones. Amarelas, azuis, laranja e vermelhas, as manchas humanas que pululam nas bancadas estão em constante movimento e há uma vibração positiva que se solta do público e se estende até ao deck de madeira, junto à água. Lá em baixo, sob o olhar atento das claques efusivas, os primeiros atletas preparam-se para a competição: deslocam-se em corrida de uma ponta à outra, num movimento contínuo que espelha a colorida vitalidade reproduzida nos andares superiores.

_O6A1019_10

Os primeiros barcos atravessam a meta, aparentemente sem a atenção do público que apenas se apercebe da movimentação que tomou de assalto as outrora tranquilas águas do Lago Nam Vam quando um segundo grupo de embarcações se posiciona nos locais de partida. Numa questão de minutos, o improvável acontece: ainda há pouco absorto, o público ferve numa vaga de efusividade que dá ainda mais força aos atletas que remam ritmadamente e que em menos de um minuto cruzam a linha final dos 200 metros.

Longe do olhar atento do público, fixo em ecrãs gigantes que reproduzem os melhores momentos da regata acabada de terminar, um tamborileiro – as cores azuis e brancas coladas ao corpo – treina o ritmo que é necessário incutir ao tambor. Com movimentos fluídos e prolongados, mas também rápidos e incisivos, ergue as baquetas por cima da cabeça, onde permanecem por um efémero segundo, antes de as deixar cair em força no tambor. De quando em quando varia e as baquetas caem na barra de ferro que separa as bancadas e do ritual nasce uma sonoridade diferente.

_O6A0659_05

No Centro Náutico da Praia Grande, as provas vão-se desenrolando numa sequência veloz que em apenas um minuto se esgota. São 60 segundos que vistos a partir da margem terminam muito depressa, por vezes depressa demais, mas que vividos dentro da mais conhecida embarcação da tradição desportiva chinesa assumem uma proporção temporal totalmente distinta. Quem o diz é Catarina Cortesão, uma das remadoras da Associação Desportiva Badas. Habituada à competição, Catarina descreve a fugaz incursão no espelho de água de Nam Van como “um minuto de grande tensão e de grande responsabilidade, em que se tem sempre a tentação de ver onde estão as outras equipas mas sempre sem desconcentrar”.

 

No amplo espaço de chão em madeira reservado às equipas, coberto por toldos vermelhos que atribuem às inúmeras fotografias capturadas ao longo do dia uma luz com a mesma cor, as Badas reclamam o seu espaço. Em seu redor, as equipas concorrentes marcam posição, amontoando remos pelo chão juntamente com mochilas e sacos que se multiplicam, aparentemente até ao infinito. Com tantos adereços e apetrechos, movimentar-se não é fácil. Ao pequeno caos instalado, junta-se uma atmosfera pesada, onde se misturam suor e humidade, e que se torna mais abafada com os toldos, comenta  Joana Seabra: “No ano passado esteve pior”, ressalva, ainda assim, a atleta.

 

_O6A0751_05

As remadoras da Badas preparam o aquecimento, mas há um ligeiro compasso de espera que o antecede. O momento é oportuno para Joana Cal, a capitã, reunir a equipa e decidir as posições que as atletas deverão ocupar no barco durante a primeira corrida: “Tenho que jogar com os pesos das atletas e ter a certeza que todas têm oportunidade de remar”, sublinha. Catarina Cortesão e Joana Seabra explicam que para a primeira corrida são poupadas as atletas com mais força “para que possam dar o tudo por tudo na segunda corrida”:“Não se podem rebentar logo na primeira corrida, não pode haver justificação para não rentabilizar esforços”, complementa Catarina.

 

 

“ARE WE STRONG? ARE WE SEXY? BADAS, BADAS, BADAS!”

 _O6A0747_11

Pela última vez  como equipa, as 16 atletas gritam o lema das Badas antes que as 12 que compõem a tripulação entrem na zona reservada a quem compete. Uma das remadoras que ficou para trás, Lou Men Kei, diz estar “muito excitada e nervosa” ao ver as suas colegas avançarem até ao ponto de partida, enquanto a ela lhe resta ficar a torcer pelas companheiras através dos ecrãs gigantes colocados de costas para a água.

Ao cruzarem-se com as equipas que acabaram de competir, as atletas que saem da água brindam com gestos de encorajamento as que se preparam para dar o seu melhor no circuito. Uma a uma, desde a tamborileira até à timoneira, as atletas vão tomando as posições que anteriormente ocuparam sentadas no chão enquanto aguardavam pelo momento de mostrarem o que valem. Antes de entrar no barco e com a ajuda do remo, a capitã borrifa o dragão que encabeça a embarcação, num dos muitos rituais que envolvem as regatas.

Todas a bordo, saem do cais e num esforço compassado, como que num último ensaio para a glória, avançam em força para a linha de partida. A partir do momento em que a embarcação se posiciona na zona de partida “é tudo muito rápido”, conta Diana Massada: “Quando vamos para o ponto de partida já vamos todas em modo off para a corrida”, acrescenta. Das bancadas e da margem consegue-se distinguir os barcos a tomar as suas posições e, à medida que vão sendo anunciadas as equipas, os remos são erguidos com a ânsia da vitória: “Só podemos partir quando estivermos todas alinhadas e os fiscais virem que estamos todas alinhadas, o que às vezes é difícil por causa do vento e da movimentação da água”, explicou Diana antes de avançar, decidida, para a embarcação.

O tiro da partida é antecedido por um breve instante de silêncio e antes ainda do eco do aviso sonoro atingir o deck de madeira, começa a distinguir-se o levantar das águas, a trepidação impulsionada por uma arranque poderoso das remadoras. Após oito remadelas fundas e curtas, o barco começa a erguer-se e rapidamente atinge a velocidade desejada. Uma dezena de outros movimentos rápidos e a embarcação cruza a linha da meta.

_O6A1000_09

De regresso ao cais, visivelmente cansadas, as atletas abandonam o barco, novamente uma a uma e repetem um lema que vai sofrendo variações: “Are we happy? Are we sexy? Badas, Badas, Badas!” (Estamos contentes? Somos sensuais? Badas, Badas, Badas!)

A participar pela primeira vez nas regatas dos barcos-dragão, Andreia Ramo diz ter a sensação de nos treinos a equipa ter sido mais eficaz: “Ali no barco não tive muito a cena da velocidade”, comenta. A estreante complementa com a indicação de que nos treinos, por vezes no final, quando o cansaço já acusava, alcançavam tempos de um minuto e seis segundos e a equipa ficava contente: “Conseguimos terminar, não viramos e não fomos desclassificadas”, remata com satisfação. Contas feitas, as Badas terminaram a primeira corrida em um minuto e três segundos, valendo-lhes um quarto lugar. Pela frente tinham ainda a repescagem e a possibilidade de conquistar um lugar nas semi-finais da Regata Feminina em Pequenas Embarcações.

 

 

REENCONTROS E ESPÍRITO DE CAMARADAGEM

 _O6A0703_04

No momento em que as atletas se reúnem para tirar a fotografia de grupo antes da segunda corrida junta-se a elas Ha-Gau, treinador que as acompanhou em outros anos . É notório o espírito de união que se mantém, apesar de este ano ser outra equipa que não as Badas quem recebe as direções do técnico. Os reencontros se ficam por aí. Exactamente antes das remadoras avançarem novamente para a zona de partida, é Simon Fat, ex-gestor das atletas, quem se aproxima do grupo. Durante seis anos organizou as Badas e, apesar de este ano ter outra equipa sob o seu comando, apareceu no Centro Náutico da Praia Grande com um polo onde se lia “Badas Sports Association”. Antes de deixar as atletas seguir, reúne a tripulação para um discurso de encorajamento, como se a ligação de muitos anos nunca tivesse sido quebrada: “Relaxem, aproveitem a corrida e não se preocupem se matarem alguém”, diz num tom jocoso.

Na segunda corrida ficam de fora Andreia e Catarina que, ao começarem a ver a marcação dos barcos na água, comentam entre si: “Repara só na posição do quatro e do cinco, vê-se logo quem vai ganhar.” Um minuto e dois segundos depois as Badas cruzam a meta, a dois frágeis segundos do triunfo e da glória, numa memorável e talvez inesperada segunda posição. A equipa é recebida em euforia com Catarina a gritar “Espectáculo!” e a explicar que “o excelente arranque” explica o brilharete alcançado: “Vocês estiveram sempre em segundo lugar. Só houve uma fracção de segundo em que eles vos estavam a picar mas tu [Lurdes] olhaste para o lado e começaste a bater mais depressa, vê-se isso no vídeo”, conta Catarina, ao descrever a corrida às companheiras.

Lurdes Gaspar, a tamborileira, acredita que foi convidada para a posição que ocupa por ser “muito levezinha”, o que ajuda a equipa ao não sobrecarregar a frente do barco com muito peso. Sentada na proa, junto à cabeça do dragão, Lurdes tenta encontrar um meio termo entre o seu próprio ritmo e o das remadoras, rumo a um meio-termos que elas possam acompanhar para manterem a coordenação. De frente para as colegas, o momento não lhe permite manter o silêncio e enquanto durar a corrida grita com quanta força tem na alma para não as deixar desistir: “No último treino saí quase sem voz”, conta entre risos.

abertura_O6A0808_8

Sentada de frente para Lurdes, mas na ponta oposta do barco, encontra-se Swing, a timoneira. Do seu lugar tem a perspectiva ideal para alinhar as remadoras e para lhes corrigir a posição, mediante uma de duas palavras de ordem: “concentradas” ou “todas juntas”. Swing conta que no ano passado a equipa foi desclassificada por se ter desviado do curso. O facto de assumir o papel de timoneira este ano pela primeira vez este ano e de ter começado a treinar apenas há dois meses deixou-lhe os nervos à flor da pele: “Este ano estou nervosa e sinto muita pressão sobre mim para manter o barco direito. Tenho que me focar num ponto, um edifício ou uma luz, porque a força nos dois lados é diferente por isso tenho de sintonizar o barco”, confessa.

 

 

ASSISTIR DE LONGE AO QUE SE SENTE PERTO 

 _O6A1396_06

O sol mergulha a pique sobre o Centro Náutico da Praia Grande e os atletas que aguardam por uma próxima corrida ou assistem à competição procuram refúgio na escassa sombra oferecida pelos toldos. Maria Barata e Marina Carvalho assistem de longe ao desenrolar daquela que pode vir a ser a última prova do ano para as Badas: “Elas vão ficar onde preferem, no meio” diz Maria, a voz pontuada por uma nota de esperança. Entre o alinhamento dos barcos e o tiro da partida decorre um breve momento, de tensão crescente entre os membros da equipa que ficam a assistir à corrida a partir do deck. O som do tiro volta a ser abafado pela impetuosidade que tomou conta das bancadas, mas a movimentação das águas acusa a partida dos barcos que galgam caminho rumo à meta. Em apenas um minuto e um segundo, o melhor tempo do dia para as Badas, o destino das atletas está traçado. O quinto-lugar na semi-final não se revelou suficiente para lhes abrir as portas da grande final: “Fizemos um bom tempo, as outras é que são melhores”, sentencia Catarina.

Com as eliminatórias concluídas restam apenas as regatas que vão decidir os nomes dos vencedores e as equipas que deram por terminado o seu percurso na edição de 2017 da competição começam a abandonar o Centro Náutico da Praia Grande. A dispersão é notória na zona destinada aos atletas por onde, pela primeira vez em todo o dia, é possível circular sem pisar mochilas, sacos e remos. Uma por uma – ou em pequenos grupos – as Badas começam também a reunir os seus pertences e a preparar o regresso a casa, num adeus que se não diz antes de brindarem às conquistas com vinho do Porto. No final, sobra apenas um espaço vazio no deck de madeira e a esperança de novas regatas e melhores tempos nas águas, agora tranquilas, de Nam Van.

 

CVN

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s