Jazz ao domingo: Liberdade para improvisar

Há um novo evento de jazz em Macau que está a mudar o itinerário musical da cidade. Aos domingos, o espaço LMA, da Live Music Association, recebe concertos e sessões de improvisação promovidas por três aficionados: Henrique Silva (Bibito), Cristina Ferreira e Rui Simões. A iniciativa está a atrair músicos, profissionais e amadores, com muita vontade de tocar e a quem faltava um espaço de liberdade para improvisar e interagir. A iniciativa fez regressar ao activo um dos músicos mais icónicos do panorama jazzístico do território, o baterista Armando Araújo. Paixão pelo jazz é o que os move.

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Texto de Cláudia Aranda

Fotografia de Eduardo Martins

É domingo, passam poucos minutos das sete da tarde e no palco da Live Music Association (LMA), ensaiam-se batidas de funky jazz. Ouve-se “Supersticion” de Stevie Wonder e “Frágil” de Jorge Palma. Lá do fundo, uma voz soa por detrás do balcão, alguém que canta em português o refrão daquele que será um dos temas mais conhecidos do músico e compositor português: “Frágil, sinto-me frágil”. Mais tarde, bem mais tarde, quando a “jam session” estiver ao rubro vão se ouvir clássicos como “How High the Moon” e outros temas incontornáveis do universo do jazz.

A banda de apoio esta noite é o agrupamento Groove Ensemble. No palco, o saxofone do português Paulo Pereira marca os acordes, no baixo, José Chan, músico nascido em Moçambique a viver há anos em Macau, faz vibrar as cordas, o pé marcando o ritmo, o cabelo grisalho ondeando. Na bateria ressoa Matthew Li, chinês nascido no Brasil, a viver em Macau desde os 10 anos.

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“Queres uma cerveja? Uma tosta?”, pergunta aos músicos que chegam Henrique Silva, conhecido por Bibito, que juntamente com Cristina Ferreira e Rui Simões são os impulsionadores das noites de jazz, que se realizam no 11º andar de um edifício industrial na Avenida do Coronel Mesquita. Os domingos de jazz arrancaram a 2 de Abril e, desde essa altura, no dia em que os músicos estão libertos de outros compromisso, a Associação de Música ao Vivo (LMA, na sigla inglesa) – fundada e liderada pelo músico e criador de moda de Macau Vincent Cheang – transforma-se num espaço de liberdade para músicos e apreciadores de jazz: “Começámos estas sessões há dois meses e rapidamente o lugar se tornou conhecido, famoso e toda a gente fala nisto”, diz Bibito, publicitário de profissão. “Outro fenómeno que aconteceu é que isto acabou por se tornar num ponto de encontro de músicos e de grandes músicos”, acrescenta. De tal maneira, que “ultrapassou qualquer expectativa, apesar de ter esta ideia empírica de que haveria bons músicos em Macau e de que haveria disponibilidade para esses músicos fazerem ‘jam’ e tocarem uns com os outros. Mas, nunca pensei que houvesse músicos tão bons e com tanta vontade de ter um espaço como este para tocar”, prossegue.

À volta da mesa com o tampo decorado com recortes de jornais misturam-se outros músicos. A José Chan, que se divide entre a banda residente “The Bridge” e o “Groove Ensemble”, juntam-se mais três músicos dos “The Bridge” – Wilson Chan, Humphrey Cheong e Ray Elma – carregando às costas os estojos que guardam os saxofones e o trompete. É com um “boa tarde” que se faz ouvir com voz rouca o brasileiro Armando Araújo, o “lendário” baterista de Macau, ”o mais talentoso” como o descrevem o saxofonista Wilson Chan e o baterista e baixista Jun Kung, músico meio filipino, meio macaense, que se vai juntar mais tarde à “jam session” com Vincent Cheang.

Hoje com 68 anos, o músico que trocou o Brasil pela Ásia há quase quatro décadas, chega reclinado, deslocando-se devagar, um passo de cada vez, debilitado pela saúde fragilizada, trazendo consigo as baquetas ou os “drumsticks” da bateria, pronto para tocar durante horas a fio. José Chan faz questão de apresentar o elemento mais antigo da banda residente “The Bridge”, venerado já no tempo em que o Jazz Club de Macau se localizava na Rua das Alabardas, perto do Mercado de São Lourenço: “Acho que ele começou a fazer espectáculos nos anos 1970s, em 1973 ou 1974. Ele fazia a ponte entre Macau e o Japão, fazia vida profissional no Japão e vinha passar os seis meses de folga cá”, explica José Chan.

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O músico brasileiro João Mascarenhas, a viver entre Macau e Hong Kong há mais de 10 anos, afirma que começou a ir às noites de jazz no LMA por causa de Armando: “Foi o Humphrey [Cheong] que, quando estava numa ‘function’ comigo [private function, quando os músicos são contratados para um evento] me disse, ‘olha existe uma ‘jam session’ aqui em Macau que vai começar este domingo e sabes quem vai estar lá? O Armando!’, que eu nem sabia se estava vivo. ‘Você esta falando sério? Então eu vou lá’. Vim para me encontrar com ‘Armando Confusão’, Armando Araújo, baterista brasileiro, um ícone e uma figura folclórica de Macau. Conheci-o há muitos anos, mas a gente tinha perdido o contacto”, conta Mascarenhas.

O saxofonista Humphrey Cheong, por sua vez, diz que conhece Armando pessoalmente há mais de 20 anos. “É um amigo de longa data”. Mascarenhas prossegue, contando que esteve num festival de jazz em Jacarta, na Indonésia, onde encontrou a cantora de jazz e bossa nova, meia japonesa, meia brasileira, Lisa Ono e que até ela perguntou: “Cadê o Armando? Ele foi embora do Japão lá para essa tal de Macau e nunca mais ouvi falar dele”.

Paixão pelo jazz

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Armando Araújo diz que no LMA se sente em casa. “Não tínhamos lugar onde tocar e surgiu este sítio. Tentamos trazer o clube de jazz de volta, estamos aqui novamente a tocar juntos, estamos com sorte”, diz o músico, que foi também tamborileiro em várias provas de barcos-dragão nos anos 1980s. Conta que sempre viveu da música: “Meu pai também era músico, tocava guitarra, era músico de orquestra, o meu pai não tocava jazz, eu é que me meti”, diz. “Gostei logo do jazz. O jazz tem uma ligação muito forte com o músico, te dá uma certa liberdade, o improviso, a harmonia, mexe tudo, é do coração, gosto de todo o tipo de música, agora, preferir, prefiro o jazz, a bossa nova, os sons do Brasil. No Japão toquei muito jazz, tem muito clube de jazz, influência dos americanos, depois da guerra o japonês desenvolveu boas bandas de jazz”, conta. Mirando em redor, passando os olhos pelas mesas compostas com o público – que se anima, levanta-se e bate palmas após um solo de saxofone – Armando sorri e comenta: “Agora aqui em Macau, estamos a levantar de novo o jazz, você veja, num lugar destes, ninguém acredita”.

A ideia de lançar as noites “Macau Jazz – Sunday Sessions” surgiu de conversas mantidas com o fundador e proprietário do espaço do LMA, Vincent Cheang, que se mostrou disponível para ceder o espaço para outros eventos de música ao vivo. Rui Simões falou com Bibito que quis transformar o LMA num bar de jazz, ideia apoiada por Cristina Ferreira, ela também parte do Jazz Club de Macau, presidido por José Luís de Sales Marques, que dá apoio financeiro ao projecto. Longe de imaginarem o sucesso que a iniciativa viria a ter, os organizadores estabeleceram uma data limite para fazerem o teste: “Demo-nos a nós próprios um prazo. Vamos fazer isto durante quatro meses e depois vemos o que é que acontece, mas ainda não sabemos o que vai acontecer”, diz Bibito.

Por enquanto, “está tudo por amor à camisola, está tudo a apoiar o projecto, são os próprios músicos também a quererem que isto se mantenha, que não morra, e permaneça como um espaço onde eles possam se encontrar e tocar”, afirma Bibito.

A porta está aberta para toda a gente, não há cobrança de bilhetes: “Isto não é um negócio para nós, não é negócio para ninguém”, acrescenta Bibito.

À excepção do guitarrista Ka Hou Cheong, que tem carreira como músico em Hong Kong e veio esta noite substituir o filipino Ramón Joaquín, qualquer outro dos membros da banda residente “The Bridge” tem a música como hobby: “Temos um ‘day time job’ e à noite é que soltamos as frangas como dizem os brasileiros”, explica José Chan, engenheiro de sistemas de CCTV. “Isto é paixão. A gente gosta mesmo de tocar, foi por essa razão que viemos, proporcionaram-nos um espaço que é difícil encontrar em Macau, onde podemos tocar ao vivo para o público, em vez de tocarmos na ‘function’, que é tipo ‘background music’. Aqui temos o pessoal colado, a ouvir e a curtir aquilo que nós estamos a fazer, porque nós estamos ali em cima, mas não estamos só a debitar notas, mas sim a transmitir a nossa paixão cá para fora”, explica José Chan.

Os saxofonistas Humphrey Cheong e Wilson Chan, este último funcionário público, começaram a tocar no clube em 1995. “Éramos muito jovens”. Afirmam que estão aqui para apoiar o Jazz Club. “Crescemos com o clube, aprendemos tudo com o clube estamos aqui para dar apoio”, sublinha Humphrey.  Para Matthew Li, tradutor de chinês para português, este novo espaço “é uma espécie de santuário para escapar à vida quotidiana”.

Espaço underground

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“Underground”, “acolhedor”, com gente “calorosa”, é como a jovem cantora Amanda Chan descreve o espaço e as noites de domingo de jazz no LMA. Esta é já a quarta noite em que a jovem se junta à “jam session”. São quase uma e meia da manhã e Armando mantém-se em palco, faz um solo de bateria, em interacção animada com Mascarenhas ao piano e David Zieher na guitarra. A cantora que se segue é Annie Wang, estudante da Universidade de Macau. Interpreta “Fly Me to The Moon”, tema celebrizado por Frank Sinatra.

O LMA quer também “proporcionar aos miúdos de Macau um lugar onde tocar” acrescenta Bibito. “Às vezes os espaços são um bocadinho formais para eles estarem à vontade a tocar com outros músicos e uma das premissas deste projecto era criar um espaço que também permitisse a esses jovens músicos que gostam de jazz terem um espaço onde pudessem partilhar o palco com outras pessoas e partilhar o palco com um público que gostasse mesmo de jazz e que estivesse cá para ouvir jazz, mais crítico e mais exigente. Acho que estamos a conseguir isso”, acrescenta Bibito.

Cristina Ferreira, acrescenta que “as pessoas estão cansadas daquilo que a cidade lhes está a oferecer, dos ’fireworks’ e das coisas completamente artificiais, que é o que os casinos têm para oferecer. A música ao vivo praticamente desapareceu de Macau, neste momento não se encontra nada”, sublinha a jurista ligada ao jazz em Macau desde há anos.

José Luís Sales Marques, presidente do Jazz Club de Macau, que tem marcado presença assídua no LMA desde a primeira noite, vê o sucesso deste evento “como uma oportunidade de relançar o jazz” no território: “Vamos ver se conseguimos este ano ainda organizar um festival. Talvez seja agora que se consiga convencer mais facilmente as autoridades, eventualmente entidades privadas, de que há espaço para o jazz. Este é um espaço dinâmico e em crescimento, que atrai as pessoas e de que elas precisam, porque é um espaço de liberdade, acima de tudo, de criação e de expressão”, diz.

Da gôndola para a “jam session”

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Os domingos no LMA tornaram-se ponto de encontro de público e músicos de todas as nacionalidades, portugueses, australianos, americanos, brasileiros, chineses, filipinos ou indonésios, como é o caso de Irawan, Eka e Retno, que acabam de se sentar na mesma mesa do PONTO FINAL. Contam que durante o dia são gondoleiros no hotel Venetian, conduzem turistas em passeios de gôndola nos canais artificiais do maior casino do mundo. Às terças-feiras, tocam no casino Sands, souberam destas noites de jazz pelo Facebook. Erwan, no piano, e Retno, no baixo, vão ser convidados para integrar a “jam session”, com o baterista Mario Venditti, director musical e “band leader” do “The House of Dancing Water” e o baterista e baixista de Macau, Jun Kung.

No domingo anterior, a surpresa foi grande quando apareceu o baixista português Carlos Barreto, que veio a Macau para tocar no concerto da cabo-verdiana Tété Alhinho. Seguiram-se alguns dos momentos mais vibrantes em palco na “jam” que juntou Carlos Barreto, o pianista João Mascarenhas, o baterista Mario Venditti e o guitarrista David Zieher, ambos músicos do espectáculo “The House of Dancing Water”, conta o pianista brasileiro.

João Mascarenhas considera importante que o LMA se consolide como ponto de encontro para os músicos que estão de passagem pela cidade: “Vai ser bom para os estudantes, para os profissionais, porque se isto aqui funcionar, tal como acontece em Hong Kong e outros lugares, os músicos locais vão fazer ‘jam sessions’ e quando alguém está à procura de trabalho ou de alguém para tocar vão lá nesses lugares procurar e isso pode começar a acontecer em Macau”.  O problema em Macau, aponta Mascarenhas, é que o nível profissional dos músicos é ainda muito amador: “Isso é uma coisa que tem que mudar”, afirma.

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Mario Venditti explica que vem sempre ao LMA “sem nenhuma expectativas e que é sempre bom”: “Aqui posso tocar um género de música totalmente diferente, é livre, posso improvisar, interagir com outros músicos, é um diálogo, gosto realmente de tocar com o João Mascarenhas, tornámo-nos amigos. Todas as semanas é diferente, nunca sabes o que te espera, isso é o tipo de coisa que eu gosto”, afirma o músico canadiano, que diz ter sangue italiano, francês e ameríndio eque começou a tocar piano aos cinco anos, bateria aos 14, e veio para Macau em 2010 para arrancar com o projecto “The House of Dancing Water”. Tocar com outros músicos é um “momento de libertação” para quem tem 10 shows por semana, que obrigam a uma enorme concentração, explica. Venditti considera “óptimo” tocar com músicos menos experientes: “É bom tocar com músicos geniais, porque podemos tocar coisas mais complicadas, a interacção é diferente, mas a beleza de tocar com não profissionais é que temos que nos fundir com eles, apoiá-los, fazê-los tocar melhor, não é para dar espectáculo, trata-se de como fazer música juntos, isso é muito bonito. No final, o importante é ver as pessoas à nossa frente a divertirem-se”, completa Venditti.

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