Afonso Camões: “É preciso defender o quadro de direitos e liberdades que temos”

 

Afonso Camões, director do Jornal de Notícias, considera que existe em Macau “uma imprensa portuguesa pujante”. O que é preciso é “defender o quadro de direitos e liberdades que temos e aprofundá-los tanto quanto possível”, disse ontem o antigo director do Gabinete de Comunicação Social e mentor da Lei de Imprensa actualmente em vigor. O jornalista acredita, também, que Macau só tem futuro se cumprir o desígnio que a República Popular da China lhe atribuiu de plataforma na relação com o mundo lusófono.

1.Gonçalo Lobo PinheiroAIPIM

Fotografia: Gonçalo Lobo Pinheiro;

Cláudia Aranda

Afonso Camões, director do Jornal de Notícias, encontra-se no território a convite do semanário bilingue “Plataforma”, que hoje celebra três anos de existência. Camões viveu em Macau entre 1991 e 1999, foi assessor do último Governador português do território, Vasco Rocha Vieira, tendo sido posteriormente nomeado director do Gabinete de Comunicação Social (GCS). Neste cargo acompanhou a criação e aprovação da Lei de Imprensa que vigora ainda hoje no território.

Ontem, Camões foi o orador de uma conferência promovida pela Associação de Imprensa em Português e Inglês de Macau (AIPIM) no Clube Militar, que teve por tema o jornalismo. Afonso Camões lamentou não ter havido mais ambição, no período pré-transição, para criar as condições necessárias para que o jornalismo digital se desenvolvesse mais cedo em Macau. No entanto, em termos de legislação, “existe um quadro legal de que nos podemos orgulhar”, defendeu o director do Jornal de Notícias: “O sonho era que, depois de 1999, ao menos tivéssemos um jornal, um canal de rádio, um canal de televisão e procurámos criar as condições para que isso pudesse ocorrer. Eu sou responsável pela política de subsídios que suportam a sobrevivência de alguns meios”, disse.

Já depois da palestra, em conversa com os jornalistas, Afonso Camões sublinhou a abrangência da Lei de Imprensa em vigor no território: “A Lei de Imprensa que temos em Macau é das mais abertas do mundo e permite termos chegado até aqui. Temos em Macau uma imprensa portuguesa pujante, uma rádio e uma televisão em língua portuguesa. Portanto, se a Lei de Imprensa nos permitiu chegar até aqui, é até mais aberta do que a Lei de Imprensa que temos em Portugal, só podemos orgulhar-nos e ficar satisfeitos e acreditar na boa-fé da República Popular da China que tem cumprido a Declaração Conjunta e a Lei Básica, ou seja, os compromissos que estabeleceu na relação com Portugal”, disse.

Camões acredita que “o segundo sistema” é um garante para a comunicação social poder continuar a operar em Macau com exercício de liberdade de expressão. Mas, faz a ressalva: “Desde que as partes cumpram o segundo sistema, porque a responsabilidade não é só da República Popular da China, a responsabilidade é, também, dos que estão aqui, daqueles a quem compete o exercício desse segundo sistema, e o que é que lhes compete? Compete-lhes defender o quadro de direitos e liberdades que temos e aprofundá-los tanto quanto possível”, sublinhou.

 

A fronteira do digital é a língua

 

O futuro da comunicação social está no digital, frisou Afonso Camões: “No digital, a única fronteira é a língua e, portanto, a ambição de qualquer grupo de comunicação social é estar a toda a largura da geografia da língua, no caso a portuguesa. E, a ambição do Jornal de Notícias, e creio que de qualquer grupo da comunicação social que pense sobre si próprio e sobre o futuro da indústria, é crescer, para Angola, Moçambique, Brasil, Macau, Cabo Verde, Timor, em toda a geografia da língua portuguesa. Essa é a nossa ambição porque queremos crescer em escala e em dimensão. Não estamos só a falar em conteúdos informativos, é fundamental pensarmos que ganhando escala e dimensão isso reflecte-se também nas receitas”, afirmou, a propósito da possibilidade de investimento de capital de Macau no Grupo Global Media.

Afonso Camões não adiantou detalhes quanto ao negócio que prevê que a empresa de Macau KNJ Investment Limited adquira 30 por cento da Global Media, proprietária do Jornal de Notícias, do Diário de Notícias e da rádio TSF: “Sobre isso não devo falar, por várias razões. Sou director do Jornal de Notícias e isso é um negócio exclusivamente entre accionistas, entre os donos”, disse Camões em conversa com o PONTO FINAL. O responsável acrescentou que tem “várias informações”, mas, sublinhou: “Não me compete falar, qualquer accionista falará sobre isso, eu sou director, sou um empregado”.

A entrada de capital de Macau na Global Media vai permitir ao grupo, “caso aconteça”, “ganhar escala e dimensão”, disse.  Afonso Camões sublinha que a âncora accionista da Global Media é portuguesa, havendo também capital angolano, sendo que, “a entrada de capital de Macau, a ocorrer, é positiva, para ambos os lados”: “Macau só tem futuro se cumprir o desígnio que a República Popular da China lhe atribuiu de plataforma na relação da República Popular da China com o mundo em língua portuguesa, portanto creio que o promitente-investidor no Grupo Global Media entende essa vocação e quer cavalgar essa vocação, ou seja entrar no negócio que lhe escancara as portas da lusofonia para o negócio da comunicação social e eventualmente para outros negócios”.

O acordo, que prevê a injecção de 17,5 milhões de euros na Global Media, foi tornado público em Outubro de 2016. Na altura, o mediador das negociações, o director do semanário “Plataforma”, Paulo Rego, previa que o contrato fosse assinado em Março deste ano.

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