Patuá ganha hoje vida com “Sórti na Téra di Tufám” 

O teatro é e vai continuar a ser um veículo importante para a preservação do patuá em Macau, assegura o linguista Alan Baxter em conversa com o PONTO FINAL. Hoje é dia de estreia no Centro Cultural de Macau de “Sórti na Téra di Tufám” (Sorte em Terra de Tufão). Com a nova peça, o grupo de teatro Dóci Papiaçám di Macau e o encenador Miguel de Senna Fernandes esperam voltar a arrancar aplausos e gargalhadas do público. Entre os 15 elementos em palco não há actores estreantes, mas há quem regresse depois de anos de ausência: Vítor Lau e Ângela Ramos.

panda2.jpg

Cláudia Aranda

Este ano a língua crioula de Macau, o patuá, vai voltar a alimentar-se, a enriquecer-se e a preservar-se através das gargalhadas provocadas no público pelo grupo de teatro Dóci Papiaçám di Macau.

“O público espera que todos os anos haja uma peça de teatro em patuá, o teatro serve para manter o patuá na cabeça das pessoas, na consciência da comunidade e relembra a todos que há uma língua que foi fundamental na história de Macau e essa língua é veículo de uma cultura muito especial que se desenvolveu aqui”, afirma Alan Baxter, director da Faculdade de Humanidades da Universidade de São José (USJ) e especialista em crioulos asiáticos de origem portuguesa.

“Acho que este tipo de teatro está a crescer em importância, os vídeos na Internet são material excelente”, assegurou ao PONTO FINAL o linguista australiano, fluente em papiá kristan, a língua base do crioulo do território.

Alan Baxter lembra que as línguas morrem simplesmente porque as circunstâncias de uso, os contextos em que se podem usar mudam ou porque uma outra língua vem ocupar o espaço por elas ocupado. O teatro, explica Baxter, é um espaço de excepção: “O teatro oferece um ambiente para o uso da língua, a língua tem uma função nesse espaço”, afirma.

 

É festa, é comédia, todos querem ir a palco

 

O pano de fundo da peça “Sórti na Téra di Tufám”, que hoje se estreia no palco do Grande Auditório do Centro Cultural de Macau, é a sorte e azar numa terra como Macau: “Tão pequena, mas também terra de grandes contradições, o que é sorte para uns é azar para outros e é à volta disto que anda o espectáculo deste ano”, explica o encenador e dramaturgo Miguel de Senna Fernandes. “No fundo, retrata onde estão os verdadeiros amigos em tempos de sorte e para onde vão quando essa sorte desaparece. A história serve de motor para a crítica social, o escárnio e maldizer”, acrescenta.

O alvo das piadas “são as situações, o tufão e todas as entidades que gerem esse fenómeno”:  “O ano passado, por exemplo, tivemos situações absolutamente inéditas, só para exemplificar, toda a gente sentia o vento do tufão, mas oficialmente o vento não justificava um sinal superior a três, uma situação supramente caricata, em que os serviços queriam evitar mas estavam a seguir padrões internacionais, e cria-se confusão em Macau. É uma situação caricata. Situações de tufão também dão azo a muita gargalhada”, adianta o dramaturgo.

Sérgio Perez, que tem sido o realizador dos vídeos, este ano “encontra-se impossibilitado”, pelo que coube a Miguel de Senna Fernandes realizar os dois filmes que complementam a actuação em palco: “Para o ano o grupo vai fazer 25 anos, espero que ele esteja connosco outra vez porque ele faz-nos muita falta”, lamentou o encenador.

Este ano não há actores estreantes, mas há quem regresse ao palco após longos anos de ausência: Vítor Lau e Ângela Ramos. O grupo de teatro Dóci Papiaçám di Macau apresenta-se mais logo com 15 elementos no Centro Cultural de Macau: “O Dóci Papiaçám sempre envolveu muita gente em palco, não porque a história exija tanta gente, mas é bom, é festa, é comédia. Poderia cortar alguns personagens que estariam a mais, mas como todos gostam de estar em palco, vamos lá incluir todos, não tem problema”, acrescenta Senna Fernandes.

No final, é o público que vai avaliar o trabalho dos actores e do encenador: “O público é sempre honesto, não tem que fazer favores ao grupo. Por isso é o melhor julgador, e julga através da gargalhada e das palmas, se não prestar, ninguém faz favor a bater palmas”, diz.

 

Senna Fernandes assume visão evolucionista da língua

 

O teatro permite alimentar, enriquecer e reconstituir o idioma, introduzindo palavras novas, ao mesmo tempo que “mantém o núcleo gramatical e as expressões mais antigas, porque são uma parte intrínseca da língua”, explica Alan Baxter: “Todas as línguas mudam e as palavras que mudam são palavras que nós chamamos de referenciais, que representam fenómenos e identidades, o que a gente consegue descrever, as palavras que mudam são precisamente essas que introduzem novidades. Portanto, é evidente que o patuá muda nesse sentido. Há palavras que não encontram uma forma no patuá de décadas, nesse sentido há mudança”, explica Alan Baxter.

O dramaturgo e encenador Miguel Senna Fernandes depara-se com esse desafio sempre que se senta a escrever mais um texto na língua crioula de Macau para ser representada pelo Dóci Papiaçám: “O vocabulário macaísta é tão parco que não tem palavras suficientes para marcar a realidade actual, portanto eu muito instintivamente tive que imaginar, fazer essa ginástica, imaginar como é que o falante do patuá de há 50 anos diria coisas se tivesse que enfrentar a situação actual. É uma imaginação que parte daquela mesma estrutura gramatical, a pronúncia, a forma como se utilizam as palavras, engendrar vocábulos novos. Mas, nunca poderíamos abarcar uma realidade actual se não incluíssemos palavras novas”, diz o dramaturgo.

“É um conflito constante, mas estou convencido que isto não corrompe o crioulo, porque a forma como se utilizam as palavras os próprios macaenses utilizariam, é preciso que se diga que muitas das expressões do Dóci Papiaçám vêm do modo moderno do macaense falar. Portanto é uma atitude que aceita e que assenta na visão evolucionista da língua”, acrescenta Senna Fernandes.

 

 

Patuá: a afirmação de uma identidade

 

No entender de Alan Baxter, o teatro também permite renovar as gerações falantes da língua, porque há “engagement”, ou “envolvimento”: “O teatro tem essa função porque entram pessoas novas, é importante a presença de pessoas com mais tempo na comunidade, com mais idade que se lembram de mais expressões, mas é importante que o teatro seja dinâmico e este teatro (Dóci Papiaçám di Macau) é dinâmico porque vai incorporando pessoas jovens dentro da comunidade macaense ou dentro da comunidade maior, por exemplo um jovem macaense, ou um jovem chinês que se interessa pela língua. Depois há a outra função que é o papel emblemático de manter esta língua tão importante historicamente e culturalmente em Macau na memória das pessoas”.

Em Macau o uso prático da língua é bastante limitado, “está numa situação pior que o kristang em Malaca e Singapura, onde há agora um esforço de revitalizar a língua”, diz Miguel de Senna Fernandes. Poucas pessoas falam patuá macaense – e as que falam estão no estrangeiro.

Então se não existe uso prático da língua, o que continua a mover o grupo Dóci Papiaçám, ao fim de 24 anos, questiona Miguel de Senna Fernandes?

“A importância não está na sua utilização, mas está na afirmação de uma identidade. É esta visão que importa reter, é isto que dá todo o sentido: o grupo fazer rir, eu escrever e as pessoas irem assistir aos nossos espectáculos, poderíamos fazer uma peça em português ou cantonês ou inglês, mas o público vai ver o teatro em patuá porque sabem que vão rir, porque é uma língua interessante, e que faz rir”, conclui o encenador e dramaturgo.

Para Alan Baxter, “uma língua é realmente a alma de uma etnia, de uma comunidade, porque a língua é o berço de muita bagagem cultural, de conceitos, de maneiras de pensar, referências a fenómenos e identidades que são puramente da comunidade em questão.  Portanto, manter uma língua é importante pelos dois motivos, científicos, por uma questão de preservar a diversidade linguística, mas, sobretudo, o aspecto cultural”, alerta o linguista. “Você perde a língua, perde uma boa parte da sua cultura”, remata Alan Baxter.

 

 

 

 

 

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s