China de contrastes revelada no IndieLisboa

Os cineastas Song Chuan e Yi Zhao apresentam na capital portuguesa “Ciao Ciao” e “Löss”, uma longa-metragem de ficção e um filme de animação. As duas películas têm em comum um certo olhar desencantado sobre a China contemporânea, rural e urbana.

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Hélder Beja, em Lisboa

O festival de cinema IndieLisboa arrancou ontem na capital portuguesa, com uma forte presença de filmes de Macau (ver texto nestas páginas) e também da República Popular da China. A longa-metragem “Ciao Ciao”, de Song Chuan, está em competição e as animações “Löss”, de Yi Zhao, e “Books on Books”, de Lei Lei, serão ambas apresentadas na secção Silvestre.

“A China está a atravessar mudanças dramáticas. A civilização assente na agricultura desde tempos remotos está a ser completamente refutada devido ao impacto da chamada civilização moderna. No entanto, os valores tradicionais permanecem intangíveis diante da realidade. Têm de se ajustar face a uma realidade profundamente ansiosa”, diz Song Chuan em entrevista concedida por email ao PONTO FINAL. O realizador de “Ciao Ciao” – a história de uma jovem mulher que regressa à sua aldeia natal depois de vários anos a trabalhar em Cantão – acredita que “o fosso entre as zonas rurais e as cidades está constantemente a encurtar-se” e que os valores são cada vez mais unitários, o que não significa que sejam os melhores: “Parece que apenas o dinheiro pode salvar a nossa alma”.

“Ciao Ciao”, filmado na região de Yunnan, de onde Song Chuan é natural, debruça-se também sobre a condição da mulher na China, o modo como jovens mais ou menos preparadas têm de enfrentar “um enorme teste de sobrevivência”: “Elas têm de sacrificar-se para obter um capital de subsistência contínuo. Isto é triste e inevitável. A busca de uma vida melhor por parte das mulheres também se tornou vaga. Parece que apenas o dinheiro pode fazê-las sentirem-se seguras. Deste ponto de vista, este é um estilo de vida mórbido”, refere o realizador.

“Ciao Ciao” é a segunda longa-metragem do cineasta nascido no começo dos anos 1980 e teve estreia mundial na Berlinale. Antes, Song Chuan realizara “Huan Huan”, filme rodado com actores amadores naturais da sua aldeia. Mas não se pense que é uma imagem compassiva ou idealizada aquela que Song Chuan passa da China rural. As migrações, a corrupção, questões como o alcoolismo e a prostituição estão bem presentes neste segundo filme e na história da sua personagem central, a jovem Ciao Ciao: “Quando ela regressa e tenta ajustar-se, a realidade da vida rural torna-se muito estranha. Antes que consiga voltar a ter uma vida normal, rapidamente se vê envolvida numa realidade estridente, de álcool, jogo, prostituição, corrupção, migração. Esta é uma verdade indiscutível sobre a China rural. A confusão tornou-se o estado normal para a maior parte das pessoas na China. Elas simplesmente não sabem o que vai acontecer amanhã.”

Neste filme que estará a competir pelo principal prémio do IndieLisboa, há também espaço para uma história de amor, ou pelo menos para uma personagem aparentemente cruel mas que acredita no amor: Li Wei, o rapaz que se apaixona pela protagonista Ciao Ciao. Song Chuan diz que “Li Wei acredita que o amor é uma espécie de reacção instintiva, é talvez a elegia do amor na realidade espaçosa e estridente”. O cineasta sublinha que “num sistema de valores sociais dominado pelo dinheiro, a relação entre poder e dinheiro torna-se inevitável e o espaço emocional torna-se precioso”. Mas até aí, no espaço destinado às relações emocionais, há uma “invasão intangível” por parte do dinheiro.

“Ciao Ciao” é baseado em factos reais e nasceu do interesse de Song Chuan em explorar a questão migratória e o perfil de seres humanos desenraizados: “Tudo é o mesmo para eles, onde quer que estejam. Eu acredito que a realidade actual [na China] mudará finalmente, mas só pode terminar através do processo de crescer e morrer sem interferência externa.”

 

Uma história de violência

 

Na secção Silvestre do IndieLisboa estão presentes duas animações assinadas por autores chineses. “Books on Books” é uma reflexão sobre o design editorial, feita pelo artista multimédia Lei Lei a partir do livro ”Book Cover Collection in the West”, publicado pelo seu pai na China em 1988, e que introduziu muitos dos conceitos modernos de design nos círculos editoriais chineses. “Löss”, por sua vez, é um fresco duro e violento da China rural, onde mulheres ainda são vendidas para casar.

Yi Zhao, cineasta chinês radicado na Holanda, explica ao PONTO FINAL por que decidiu abordar este tema: “Há muito que ouço nos meios de comunicação histórias de esposas compradas nas zonas rurais mais isoladas da China. A pobreza vai normalmente de mão dada com a escassez de mulheres disponíveis [para um relacionamento] nessas regiões, porque as raparigas locais preferem casar com pessoas de fora em troca de uma vida melhor. Por isso muitos camponeses solteiros vêem-se sem outra escolha que não seja a de comprarem uma mulher para que se torne sua esposa. (…) Como podem relacionar-se um com o outro e com o mundo exterior perante uma situação tão pouco natural? Deve haver muito sofrimento e perseverança envolvidos. Casos extremos como este revelam frequentemente algo profundo sobre a natureza humana que de outro modo ficaria oculto. Logo, acredito que merecem um estudo atento”.

“Löss” conta então a história de uma mulher vendida a um homem, para com ele casar. Estamos no Planalto de Loess – um planalto de 640 mil quilómetros quadrados na China Central, rasgado a meio pelo Yangtzé – e esta mulher, que não pode ter filhos, é violentada pelo marido uma e outra vez, enquanto fantasia com os bonecos de barro que vai criando. A animação não tem diálogos, apesar de o som jogar um papel central. A decisão de não usar diálogos “foi parcialmente devido ao facto de os camponeses do Planalto de Loess serem conhecidos pelo seu estoicismo e reticência” e, ao mesmo tempo, para “intensificar a tensão dramática”, elabora Yi Zhao. “Como sabemos, o terror da violência doméstica vem mais da violência psicológica que da violência física. É a chamada ‘calmaria antes da tempestade’, quando não sabemos se ou quando ou de onde virá o golpe”. O artista serve-se de traços simples e longos períodos de imobilismo nesta animação, “durante os quais há mais para ser sentido do que para ser visto”.

Aos 41 anos, Yi Zhao viveu praticamente metade da vida na Holanda. A distância geográfica em relação à China parece, no entanto, acentuar a sua identidade: “O estranho é que, quanto mais tempo passo no mundo ocidental, sentindo-me familiarizado e em casa, mais tenho consciência da minha identidade, mais profundamente me apercebo das marcas biológicas e culturais que definem um chinês (e, em certa medida, um holandês também). É uma limitação e é uma bênção, dependendo de como se olha para isso”, diz.

O cineasta concorda que “Löss” é um filme “bastante chinês” no que toca ao tema, à narrativa e à apresentação visual: “Espero que seja também um filme global, pois acredito que os seus méritos podem ir além das fronteiras de nações e raças e tocar o essencial da existência humana.”

Inspirado por cineastas como o ucraniano Igor Kovalyov, que considera um “mestre”, e por autores chineses como Liu Jian e o filme “Piercing Me”, Yi Zhao nota que “a animação é uma forma cinematográfica muito livre que transcende os confinamentos da câmara” e que dá a cada autor a possibilidade de “realçar, omitir ou transformar” tanto quanto entenda ser necessário. Em “Löss”, o realizador reduziu ao mínimo os elementos visuais, trabalhando sobre um fundo preto e distorcendo as figuras humanas. “Porque não era a realidade óptica mas a realidade mental o que eu estava a tentar retratar.”

 

SESSÕES NO INDIELISBOA

 

“Ciao Ciao”

Hoje, 21h30, Culturgest

8 de Maio, 19h, Cinema ideal

 

“Löss”

Hoje, 16h15, Cinema São Jorge

6 de Maio, 21h30, Cinema São Jorge

 

“Books on Books”

Hoje, 16h15, Cinema São Jorge

6 de Maio, 21h30, Cinema São Jorge

 

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