Cão no cardápio. O que se come nos restaurantes do regime

São mais de uma centena e estão espalhados por doze nações e territórios. Propriedade do Governo norte-coreano, os restaurantes Pyongyang são uma das principais fontes de acesso a divisas estrangeiras que o regime norte-coreano tem ao seu dispor. Por causa da tensão na península coreana, os restaurantes deixaram de acolher clientes sul-coreanos.

1.Coreia

João Pimenta

Agência Lusa

Nos restaurantes Pyongyang – uma rede com 130 estabelecimentos -, a música “Somos Um Só”, que apela à reunificação da península coreana, é uma das mais tocadas, mas o atendimento já não vai na mesma cantiga: “Por favor, saiam daqui. Não servimos sul-coreanos”, atira a empregada de mesa, ao aperceber-se que um dos clientes que atende é oriundo da Coreia do Sul.

Tecnicamente, as duas Coreias continuam em guerra e o armistício assinado em 1953, após a devastadora Guerra da Coreia (1950-53), ainda não foi substituído por um tratado formal de paz.

Seul e Pyongyang atravessam um período de renovada tensão, enquanto Washington endurece o tom para com o regime de Kim Jong-un, face ao seu programa nuclear.

Os restaurantes Pyongyang, uma rede gerida pelo regime norte-coreano e espalhada por 12 países – ainda que a maior parte dos restaurantes esteja localizada na China – parecem servir de barómetro à crise na península coreana.

Até ao ano passado, um dos principais clientes destes estabelecimentos eram sul-coreanos, que procuravam assim uma rara ocasião para comunicar com um povo com quem partilham língua, etnia e, em muitos casos, laços familiares, mas que a política separa.

O agravamento das tensões levou Seul a aconselhar os seus cidadãos a não frequentarem aqueles estabelecimentos. Agora, Pyongyang decidiu também proibir sul-coreanos de comerem nos seus restaurantes. Segundo a Coreia do Sul, aquela rede gera um total de 10 milhões de dólares por ano, sendo uma importante fonte de divisas para uma das nações mais isoladas do mundo.

O restaurante em Chaoyang tem cerca de 300 metros quadrados e mais de uma dezena de salas privadas, onde à noite as empregadas de mesa envergam trajes típicos do país e cantam e dançam para grupos cujo consumo alcance os 2.800 yuan.

À entrada, revistas do regime traduzidas para chinês mostram uma sociedade perfeita: fábricas e campos agrícolas modernos, hospitais e estabelecimentos de ensino de excelência. Fotografias de trabalhadores, agricultores, crianças e soldados. Todos a sorrir.

O menu inclui pratos típicos coreanos, como o ‘kimchi’, bacalhau ou carne de cão. Cada refeição fica em média por trinta euros. As funcionárias, todas na casa dos vinte anos, estão impecavelmente vestidas e maquilhadas e confirmam um velho dizer coreano: “As mulheres mais bonitas são as do Norte”.

Falam fluentemente chinês e revelam-se comunicativas e curiosas sobre o mundo exterior. Porém, qualquer referência à Coreia do Sul leva-as a cerrar a face e baixar os olhos.

A Coreia do Norte permite apenas que alguns dos seus cidadãos saiam do país: aqueles que são leais ao regime e vinculados à elite dirigente. Estas funcionárias não serão excepção, mas refutam essa ideia: “Somos apenas empregadas de mesa”, atira uma delas.

Numa quarta-feira à noite, o restaurante está praticamente vazio.

A República Popular da China, que até há pouco tempo mantinha com a Coreia do Norte uma relação descrita como de “unha com carne”, tem-se progressivamente afastado do país, consciente de que este representa cada vez mais uma fonte de tensão regional e um embaraço para a diplomacia chinesa.

Em Fevereiro passado, o assassínio num aeroporto na Malásia de Kim Jong-nam, o meio-irmão do líder norte-coreano que vivia em Macau sob protecção da China, não terá caído bem em Pequim.

Passados poucos dias, o Ministério do Comércio chinês anunciou a suspensão total das importações de carvão oriundas da Coreia do Norte, contribuindo ainda mais para o isolamento do país.

Antes de deixar o restaurante, a reportagem da Lusa mostra uma fotografia de Kim Jong-un a uma das funcionárias e, em jeito de brincadeira, diz: “Que rapaz giro”.

A empregada põe uma expressão séria, endireita o corpo e reage: “Não é um rapaz giro; é o líder”. Dá um passo atrás e repete devagar: “O líder”.

 

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