Em cada traço expressar a angústia que invade a mente

Daniel Vicente Flores apresenta, até 7 de Maio, no Albergue SCM, “Desenhos 2006-2016”. A exposição integra 33 obras a tinta-da-china, um corpo de trabalho produzido ao longo de uma década, com particular enfoque nos últimos cinco anos, onde se evidencia a experiência de dor e violência que perpassam o artista. Na inauguração, que ontem decorreu, foi ainda lançado o livro “Impressões”, que reúne desenhos e poemas do autor.

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Texto de Sílvia Gonçalves

Fotografia de Eduardo Martins

Nas figuras grotescas riscadas em movimentos contínuos, na profusão de elementos e símbolos carregados a negro que não abrem espaço ao vazio, denuncia-se o turbilhão que fervilha e se perpetua na mente do artista. “Neurose”, “Auto-retrato Psicótico”, “Medo?!”, “Delírios de um Mundo Novo”. Daniel Vicente Flores traduz, em cada desenho, a dor e violência que resulta do embate quotidiano com a doença mental que carrega, construindo com o desenho um meio de expressão que diz não alcançar com a palavra. A primeira apresentação do trabalho plástico aconteceu ontem, no Albergue SCM, num confronto com o público que acredita não ser muito diferente daquele que vivencia, enquanto músico, na performance teatralizada que concebe em cada concerto.

“É um conjunto que comunica, que tenta comunicar as várias experiências pelas quais passei. E muitas delas, sim, foram violentas, a maioria foram violentas”, começa por enquadrar Daniel Vicente Flores ao PONTO FINAL, referindo-se a um corpo de trabalho reunido na exposição “Desenhos 2006-2016”, que ontem foi inaugurada ao cair da noite no Albergue SCM. Um trabalho que reflecte um modo de expressão que não encontra espaço na habitual verbalização: “O que eu digo dos meus desenhos é que são uma espécie de escrita que não é totalmente verbal. Eu não sei desenhar tradicionalmente a três dimensões mas interesso-me por escritas, por vários tipos de escrita, como a chinesa, por exemplo. Interesso-me pela comunicação de ideias. E quando eu desenho estou-me a tentar expressar melhor, porque eu não me consigo expressar muito bem com palavras”, admite.

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No conjunto de 33 desenhos a tinta-da-china ressalta a negritude, uma sequência de quadros onde, no traço e na palavra, angústia e tormento são cravados com a crueza de um golpe desferido sem misericórdia. Folhas de papel onde se deposita parte do que fere e atravessa o artista: “Não é tudo aquilo que me atravessa, mas são sobretudo aquelas partes que são diagnosticadas como doença mental, sim. Porque é uma realidade de que eu não tenho conseguido fugir. Neurose, obsessão, bipolarismo, alguns surtos psicóticos e esquizofrénicos, sim”, descreve Daniel, com uma frontalidade que estilhaça o habitual preconceito que ainda envolve a doença mental.

Transpôs o artista para uma dimensão criativa uma realidade quotidiana de que a arte não se poderia dissociar. “Sim, só para comunicar melhor o que eu sinto aos outros. Quando eu faço um desenho é bastante literal, não é susceptível a camadas de leitura, não é surrealista, quer dizer, há um ou outro que sim. Não são de leitura imediata, porque é tão pessoal que a leitura é diferente”.

E o que acompanha todos estes trabalhos? “É o meu estilo, depois é um desenvolvimento, é uma procura de uma forma de me expressar numa linguagem a partir de códigos diversos. Utilizo sinalizações, anotação musical, traço, letras, é semiológico. Quando alguém quer expressar qualquer coisa, escreve-a. Eu não a escrevo, eu ilustro-a. Eu sinto revolta, eu sinto dor, mas não é contra nada em particular, é só demonstrar, só comunicar isso”, descreve o artista, que frequentou a Faculdade de Belas Artes de Lisboa e a Escola de Jazz do Hot Club Portugal.

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Agora com 27 anos e a residir em Lisboa, Daniel Flores – que nasceu em Macau, onde viveu os primeiros 10 anos de vida – sentiu ter chegado o momento de expor perante os outros o trabalho acumulado ao longo de anos: “Porque aos 26 anos senti-me com maturidade suficiente, antes disso não sentia. Não sei bem porquê mas teve a ver com critérios pessoais. Aos 26 anos pareceu-me que já tinha algo para demonstrar”. E como sente o artista e músico este primeiro confronto, numa dimensão plástica, com o público? “Eu já dei concertos, e os meus concertos são teatrais. Eu faço uma mistura entre música e teatro, portanto os desenhos são iguais, também têm alguma música”.

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