0.38. Quando o autismo não silencia o talento

A Associação de Reabilitação Fu Hong inaugurou no passado sábado a exposição “I Am 0.38: An Exhibition of an Autistic Artist” (Eu Sou 0.38: Uma Exposição de um Artista Autista) que reúne 70 obras de Leong Ieng Vai. A animar a tarde estiveram os “Life Band”, banda composta por músicos autistas, num evento dedicado à consciencialização do autismo.

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Uns papéis rasgados, dispersos pelo chão, nos quais figuravam desenhos repletos de pormenores – pessoas dentro de carros, todos diferentes entre si – foram o primeiro sinal de que se encontrava um artista entre os utentes da Associação de Reabilitação Fu Hong. Ninguém se acusava como autor dos desenhos até os trabalhadores da associação identificarem Leong Ieng Vai como o artista responsável pelos retalhos artísticos espalhados pelo chão no espaço ocupado pela associação. O talento, até então escondido, começou a ser cultivado através de aulas de desenho, num percurso que culminou no fim de semana passado com a inauguração da quarta exposição do artista, “I Am 0.38: Exhibition of an Autistic Artist”.

Aberta ao público na Torre de Macau desde o dia 1 de Abril, a exposição foi oficialmente inaugurada no passado sábado. Por entre as 70 obras expostas encontram-se desenhos de monumentos e locais emblemáticos do território como o Largo do Senado, a Torre de Macau, a Igreja de São Lourenço, as Ruínas de São Paulo, o Templo de A-Má, a Fortaleza da Guia, a Rua dos Mercadores, o Teatro D. Pedro V, a Travessa da Paixão ou as Casas-Museu da Taipa. No entanto, não é apenas sobre as zonas históricas de Macau que recai o olhar do artista. Leong Ieng Vai retrata outras zonas da RAEM, monumentos e localidades de diferentes partes do mundo que lhe chegam através de desenhos e postais: “Ele vê e desenha” remata Fátima Ferreira, presidente da Associação de Reabilitação Fu Hong.

Transversal às obras do artista, de 30 anos, é o uso exclusivo de canetas de espessura 0.38mm que o caracterizam e diferenciam no mundo das artes e que deram o nome à sua quarta exposição. Antes da Torre de Macau o Aeroporto de Macau, a Escola de São Paulo e a Universidade de Macau foram os locais que receberam as obras de Leong Ieng Vai.

O receio de que o artista seja “utilizado comercialmente” é a justificação apresentada por Fátima Santos Ferreira para não colocar as obras à venda, apesar do desejo do público em adquiri-las: “Neste momento queremos dar-lhe mais possibilidade de desenvolver o seu talento e só mais tarde iremos então pensar se pomos ou não pomos os trabalhos dele à venda.” Contudo, os admiradores da arte de Leong Ieng Vai podem adquirir tabuletas, sacas, copos ou canecas com os seus desenhos.

Fátima Ferreira explica que “a dificuldade do autista é precisamente em comunicar, ele não é capaz de ter um contacto visual, não comunica com os outros, então através do desenho ou através da música ele ultrapassa esse handicap e consegue transmitir os seus sentimentos.” Apesar da dificuldade em obter da parte do artista qualquer tipo de reação, a presidente refere que ele “estava satisfeito” durante a inauguração, tendo integrado o conjunto de pessoas que procedeu ao corte da fita.

 

Música como expressão das emoções

A cerimónia de inauguração foi complementada com o concerto “It’s My Life” da banda “Life Band”, composta por dois músicos autistas e um outro com necessidades intelectuais, acompanhados pelo seu professor. Os temas originais, apresentados pela primeira vez em público, foram escritos por um dos membros da banda e ao professor coube o arranjo musical das canções.

O concerto e exposição inserem-se nas comemorações do mês dedicado à  Consciencialização do Autismo que este ano se pauta pelo tema “Toward Autonomy and Self-Determination” (Em Direção à Autonomia e Autodeterminação), assim estipulado pela Organização das Nações Unidas. Com este tema em vista, a Associação de Reabilitação Fu Hong organizou os dois eventos para “promover os talentos únicos de pessoas autistas através da música e obras de arte e aumentar o interesse e a percepção do público do mundo próprio das pessoas com deficiências”.

A exposição “I Am 0.38: An Exhibition of an Autistic Artist” está patente no Largo da Torre de Macau e pode ser visitada até 14 de Maio entre as 11h e as 19h.

 

 

 

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