Longe de casa mas perto da fé

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Foto de Eduardo Martins

Celebra-se nesta semana a quadra pascal com o expoente máximo a acontecer no Domingo de Páscoa. Época de reunião familiar, introspecção mas também de sacrifício, em Macau a festa não acontece sem a forte presença da comunidade filipina que, longe de casa, traz para o território as celebrações pascais.

Faltava meia hora para a missa do crisma começar e a sacristia da Catedral de Macau encontrava-se num rebuliço invulgar antes do momento solene. O bispo Stephen Lee era a imagem da azáfama enquanto os bancos da igreja se iam enchendo de fiéis, entrando e saindo continuamente da sala da sacristia para ultimar a cerimónia. Jovens do Instituto Salesiano estavam já preparados com as suas vestes brancas e vermelhas, levando em cada passo as grandes velas e os queimadores de incenso. Chegaram no fim os irmãos dominicanos; em grupo e como um só, rapidamente cobriram os corpos com os mantos brancos por debaixo das capas negras, compondo apressadamente cabelos e trajes.

Dobram os sinos e todos os presentes se levantam. O órgão começa a tocar, acompanhando a entrada do corpo religioso, que entoa em uníssono o canto litúrgico. Em direcção ao altar segue o seminarista Andrew que, momentos antes, descrevia ao PONTO FINAL o que se iria desenrolar naquela tarde. “Estamos a celebrar os padres, é por isso que todos os padres da diocese [Católica de Macau] estão hoje aqui reunidos com o bispo, para renovar os seus votos e obediência para com o bispo”, explica o seminarista da Universidade de São José. A missa do crisma é uma das muitas celebrações da quadra pascal em Macau, iniciada no passado domingo e que se irá prolongar até ao domingo de Páscoa.

Longe das suas casas e famílias, os filipinos que se encontram a trabalhar em Macau vão muito além da mera participação passiva nas comemorações litúrgicas. “Perfazendo metade da população católica de Macau”, a comunidade filipina “desempenha um papel fundamental na nossa diocese”, nas palavras do seminarista. Apesar de estar em Macau apenas desde Setembro, a presença filipina na comunidade católica de Macau  não passou despercebida aos seus olhos.

Ross Belle Balatbat, leitora e comentadora das missas, explica que “dentro da liturgia haverá um espaço para leitores e comentadores e é aqui que eu participo.” Ross Belle recorda a quadra pascal durante os tempos de infância quando “tinha que estar muito sossegada; brincávamos menos e só podíamos ver histórias na televisão relacionadas com Jesus.” A criança da altura aborrecia-se frequentemente com as celebrações, especialmente com a “Boa Sexta-feira” (Sexta-feira Santa) e as leituras que, na altura, lhe pareciam intermináveis, assistindo passivamente à missa com a mãe e os avós, incapaz de compreender a importância do momento.

A noite do Domingo de Páscoa é para Ross Belle uma das mais importante do calendário religioso. É na noite que encerra a quadra pascal que são renovados os votos do baptismo , uma noite que se inicia “escura, muito escura, apenas com a iluminação de uma grande vela, a vela da Páscoa”. Ross Belle conta como em Macau “normalmente ficamos fora da igreja e em algumas igrejas das Filipinas há um fogo e as pessoas trazem madeira”.

A irmã, Inna Angeles, nascida e criada em Macau, vive intensamente a Semana Santa. Cresceu no seio da comunidade cristã e afirma que a religião é parte integrante dela, “passada de família em família”. Inna vai mais longe ao acreditar que “ser cristão faz parte da cultura filipina” apesar de ser uma herança colonial herdada pelos espanhóis e adaptada “de geração em geração”.

Longe da família, afastado da religião

Em Macau há quase quatro anos, Norman Mendonza confessa que “inevitavelmente”, a distância da família afastou-o também das celebrações pascais. “Aqui é diferente, não me sinto da mesma maneira aqui em Macau não porque não existam muitos católicos mas porque estou longe da família.” Norman aponta a sua falta de integração na comunidade cristã de Macau como outra das razões para ter abandonado as celebrações.

Para a família Mendonza, Páscoa é sinónimo de reencontros familiares. Se estivesse nas Filipinas nesta altura, provavelmente estaria de férias “a nadar porque é verão e as pessoas querem celebrar a Páscoa indo de férias como uma forma de juntar a família.”

O Domingo de Páscoa das irmãs Ross Belle e Inna afigura-se diferente daquele do jovem estudante de doutoramento. Ao almoço ou jantar do Domingo de Páscoa as famílias das irmãs vão reunir-se na casa de uma delas para uma pequena cerimónia. Para Ross Belle “a Páscoa é um período de introspecção até ao Domingo de Páscoa, que é uma reunião familiar”. CVN

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Auto-flagelação como o aproximar do sofrimento de Cristo

Incontornável às celebrações pascais nas Filipinas são os actos de auto-flagelação praticados durante a Sexta-feira Santa, onde se assiste a “pessoas a carregar cruzes muito pesadas, com pessoas a pontapeá-las e a atirar-lhes pedras” na descrição de Norman Mendonza. “É uma verdadeira encenação que tem sido tolerada pela igreja católica, entranhada na cultura (filipina) e que não vai ser abandonada tão cedo”, critica o estudante.

Para Ross Belle a autoflagelação é algo “bastante traumático”. Ela própria conheceu uma pessoa que uma semana após a prática viu as suas feridas infectadas, acabando por perder a vida devido à gravidade dos ferimentos. Ross Belle explica que esta prática anual é uma “devoção familiar” passada de geração em geração e usada como explicação de milagres que possam ocorrer. Outra das justificações encontradas é o desejo dos fiéis de “sentirem o que Jesus sentiu durante a sua paixão enquanto carregava a cruz até ao Calvário.” Mas “existem outras maneiras de sacrifício e de mostrar o quão devota uma pessoa é”, desabafa Ross Belle. CVN

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