A Longa Marcha das Danças de Salão em Macau

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Foto de Eduardo Martins

“Sou levado para a frente pelos pais”. O caso, ignorado, de Dickson Zhou e da sua associação de Dança, uma história de sucesso mesmo à falta de apoios.

Elisa Gao

elisa.pontofinal@gmail.com

Dickson Zhou, 42 anos, esteve entre os melhores nas danças latino-americanas em Macau, e nessa qualidade foi mesmo um dos membros da delegação macaense aos Jogos Asiáticos de Guangzhou, em 2010. Após a reforma enquanto atleta, começou a trabalhar como treinador a tempo parcial no Instituto do Desporto de Macau, no sector das danças desportivas. Em 2006 fundou a Macau Youth Dance Sports Association (Associação Juvenil de Danças Desportivas de Macau), à sombra da qual foi entretanto criada a Macau Youth Family of Dance and Music (Família Jovem de Dança e Música de Macau), em 2012.

Há dias, a associação inaugurou um novo estúdio de dança no Edifício Industrial Nam Fong, três vezes maior que o anterior, e fundou a Macau Youth Vocal Arts Association, acrescentando uma nova dimensão ao seu projecto. Na cerimónia de abertura, mais de 40 estudantes de dança apresentaram 19 actuações, incluindo pares de dança, danças latinas e danças de salão, ao longo de uma hora.

Para um futuro próspero

Dickson Zhou chorou na festa do quinto aniversário na Macau Youth Family of Dance and Music, ao inaugurar o novo estúdio de dança do Edifício Industrial Nam Fong: “Hoje estou aqui e estou imensamente feliz, nós temos o nosso próprio espaço e tivemos sucesso.”

Ao baixar a cabeça para olhar para o telemóvel, ficando em silêncio durante uma eternidade, o público terá pensado que Dickson Zhou tinha esquecido o que tinha para dizer. Mas, quando voltou a levantar a cabeça, as lágrimas que lhe corriam pelo rosto foram intensificadas por um forte aplauso. Foi demais para ele. Então sim, percebeu que estava demasiado comovido para continuar e retirou-se do palco.

Dickson Zhou veio para Macau para assumir um papel de liderança nas danças latinas, para isso contribuindo também o talento da sua ex-mulher, Michelle Loi Ka I, o seu par de dança.

Foi Angela Leong, mulher do magnata do jogo Stanley Ho, e hoje deputada, quem o aconselhou a fundar a Macau Youth Dance Sports Association em 2006, quando começou a trabalhar como técnico do Instituto do Desporto, cargo que ainda desempenha.

Apenas meia hora antes do espectáculo desta semana, podia encontrar-se Dickson Zhou entre o palco e os camarins, falando com os pais e encorajando os jovens dançarinos a darem o seu melhor, ao mesmo tempo que pedia aos repórteres do PONTO FINAL para não os entrevistarem durante o aquecimento. Não queria que ocorressem quaisquer  falhas durante a festa, preparada com muito carinho durante tanto tempo. Os ensaios levaram-no a permanecer no estúdio, noites a fio, até às três ou quatro da manhã. Um dia, de tão cansado que estava, adormeceu ali mesmo, para surpresa dos seus alunos.

O novo estúdio de dança ultrapassa três vezes em área o anterior.  A sua inauguração seguiu os rituais seguidos nestas ocasiões, incluindo a oferta de porco assado, alface, maçãs e laranjas, e a queima de velas e incenso, para dessa forma desejar um futuro próspero à associação.

Os jovens dançarinos estavam prontos

Antes do início da actuação, nos três espaços por onde se distribuíam os camarins reinava a confusão: malas repletas de fatos de palco, de cores fortes, estavam espalhadas um pouco por todo o lado, e o barulho das conversas e dos risos dos jovens dançarinos chegava a ser ensurdecedor.

Um pouco alheada do ambiente de grande excitação que a rodeava, Chao Chun Wa, uma das performers da primeira dança, comia os noodles trazidos pela sua mãe enquanto ensaiava uma última vez, frente ao espelho. Chao tem agora nove anos e tem vindo a aprender a dançar nos últimos três anos com Dickson Zhao, tendo já ganho o campeonato de Danças Latinas e Modernas para o grupo dos 9 aos 10 anos.

Por detrás dela, a mãe persuadia-a a comer mais. “Não há muito por onde escolher para aprender este tipo de danças e o senhor Zhou é o mais responsável e o mais profissional; ela aprendeu bem e rápido com ele”, contou ao PONTO FINAL Nancy Cheong, a mãe de Chao Chun Wa.

A “responsabilidade” a que Nancy se referia não se limita aos ensinamentos partilhados com os seus alunos, estendendo-se também aos cuidados familiares. Quando as crianças se deparam com problemas como falta de concentração nos estudos ou falta de vontade para praticar desportos, os pais sabem que podem contar com Dickson Zhou para falar com os seus filhos e ajudá-los a resolver esses e muitos outros problemas. Zhou, ele próprio, vê-se tanto como um “baby-sitter”, como um professor de dança.

Chan Sing Hin, também prestes a apresentar ao público a sua primeira actuação, aguardava nervoso numa pequena cadeira o seu momento de entrar em cena. Apesar dos seus 10 anos de idade, já conta com um primeiro lugar em várias competições – e não apenas em território macaense. Quando a repórter do PONTO FINAL o interpelou, três outros rapazes rodearam-no e a brincar disseram “ele não sabe falar mandarim, só português”, ao que Chan respondeu “Eu sei!”, empurrando-os para longe.

“Sir Zhou” é como Chan se refere a Dickson Zhou, professor que o acompanha há cinco anos e que é, fora de dúvida, o seu ídolo. Chan adora a família da escola da dança: “Nós estudamos juntos e divertimo-nos muito!” Rumba, cha-cha-cha, tango e valsa são as danças que pratica, embora a sua preferência recaia no tango por ser um estilo de dança que torna os rapazes que a praticam “elegantes” – diz o pequeno dançarino, ilustrando a ideia com movimentos corporais.

A família, como lhe chama, é o centro de treino da Macau Youth Dance Sports Associations, que oferece tanto cursos de danças latinas, como de salão. De um lado o cha-cha-cha, a rumba, o samba, o paso doble e a jive, do outro a valsa, o tango, o foxtrot, e o quickstep.

Agora que a academia já reúne mais de 80 estudantes, Dickson Zhou deixou de poder treiná-los todos. Um em dez estão agora confiados a Lei Meng que, à semelhança de Dickson Zhou, é professor certificado de dança da Associação Internacional de Professores de Dança da Grã-Bretanha.

Gestos, velocidade e poder

Faltavam poucos minutos para o início da actuação quando se ouviu, bem alto, uma voz de “Silêncio!”, saída da boca de Lei Meng.

Quando a música “Dance Like Yo Daddy” começou a tocar, rapazes vestidos de preto e branco entraram em palco, logo seguidos por raparigas com trajos mais coloridos. Eram duas dezenas de jovens com um imenso talento por explorar – e nenhum tinha mais de 11 anos. Os passos, o “chasse” e os movimentos terminaram rápida e suavemente, todos sorrindo, de alívio. Os aplausos só não foram mais fortes porque a maioria dos pais estava de telefone-câmara na mão, a registar o momento.

Zhou Mohan, a filha de cinco anos de Dickson Zhou, interpretou a canção “Happy Shower”. Foi a aluna mais nova a pisar o palco na festa. Trajava um vestido cor-de-rosa e aparecia escondida por detrás de três guarda-chuvas coloridos. Assim que se mostrou ao público começou a cantar como um riacho de água límpida, diz quem lá estava.

Promover danças desportivas nas universidades locais

Dickson Zhao apresenta-se perante todos como “apenas um professor de dança”, mas os pais das crianças que ensina acham que ele é muito mais do que isso e atribuem-lhe todo o crédito pelo sucesso que a academia alcançou. “Sou levado para a frente pelos pais”, refere Dickson. E talvez a fórmula do sucesso esteja exatamente na cumplicidade existente entre o técnico, que preside a um comité composto pelos pais dos seus alunos, e estes que muito o têm ajudado na preparação dos eventos, permitindo-lhe assim que se concentre nas questões da aprendizagem. Não se estranhe por isso que o novo estúdio não tenha sido ideia dele, mas sim resultante de uma proposta dos pais, que depois a implementaram.

“Esta é a família da dança. As crianças vêm cá e não querem ir embora – e muitas vezes os pais têm de deixar os seus carros lá em baixo e vir buscar os seus filhos, ou então irão ficar muito tempo à espera”, relata Dickson com um sorriso de satisfação, mostrando quão orgulhoso está da família que criou.

De forma a obter mais subsídios do governo, Dickson Zhou participou no programa de “Prémio para Acções de Combate à Droga entre os Jovens”, abrindo as portas da sua academia de forma gratuita desde que os jovens toxicodependentes passassem previamente por um centro de reabilitação. Foi a partir desse momento que Dickson se apercebeu de como a dança pode manter as crianças saudáveis e com uma veia artística, longe dos jogos electrónicos e de outras formas de alienação.

E foi então que o foco principal da atividade da associação se transferiu da competição para a intervenção no sociedade, em prol de boas causas.

Dickson Zhou refere que duas das restrições ao desenvolvimento local das danças desportivas é a falta de fundos governamentais, por este não ser um desporto olímpico, bem como a falta de locais de treino e para a realização de competições, uma vez que não sabe sequer onde requerer apoios do governo para o efeito.

Por agora, o técnico está a considerar promover as danças desportivas nas universidades de Macau, uma vez que, segundo ele, se as escolas superiores macaenses adoptassem este projecto, isso iria traduzir-se desde logo num enorme aumento da popularidade das danças de salão do território.

Os pais não podiam estar mais do seu lado: “Em Macau não existe um grande local que sirva como estúdio de dança”, critica Ada Wong, mãe de um dos alunos. “E quando Macau envia uma delegação para competições, só o apoio do treinador, só o apoio de um homem não é suficiente”.

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