Em cada desenho, auscultar a dimensão abismal do ser humano

Grande parte das ilustrações que Anabela Canas publicou ao longo de dois anos numa coluna de jornal chegam hoje à Galeria da Livraria Portuguesa, onde permanecem até ao final do mês. Nos desenhos agora isolados dos textos a que estavam vinculados, traduz-se uma dimensão de introspecção com que a artista diz querer interrogar o alcance da mente humana. A par com a mostra “Iluminação Artificial” é lançado um álbum que, à totalidade das ilustrações publicadas, junta fragmentos dos textos, para conferir ao desenho um inquestionável primeiro plano.  

Sílvia Gonçalves

Olhos gigantes que fitam o infinito, que condensam mágoa e interrogação. Corpos que parecem flutuar no abismo, no gesto amplo, na extensão de uma expressão que confere ao todo melancolia e inquietude. Em cada ilustração acrescentar sentido, espessura e mistério ao texto que acompanha, rejeitar o mero acessório que complementa. As 67 ilustrações que Anabela Canas hoje apresenta na Galeria da Livraria Portuguesa foram publicadas ao longo de dois anos no jornal Hoje Macau, na coluna a que chamou “De tudo e de nada”. Dois anos depois, entende a artista e autora que é chegado o tempo de colocar em primeiro plano o desenho, sem o dissociar do texto a que está vinculado. A par com a exposição “Iluminação Artificial”, apresenta-se por isso um álbum onde, à totalidade dos 87 desenhos publicados, se juntam fragmentos dos textos, que em papel de jornal, com eles formaram um todo.

“A minha intenção com estas ilustrações, com cada uma delas, era não seguir muito literalmente o texto. A conclusão a que cheguei muito rapidamente é que nem me interessava simplesmente passar para imagem um aspecto qualquer do texto, nem isso é muito viável ou muito interessante”, conta Anabela Canas, para quem o desenhos que em cada semana ilustravam a coluna que assina, cumpriam o propósito de acrescentar camadas à dimensão escrita. “O que me interessou foi fazer uma imagem que acrescente uma outra visão ao texto, eventualmente introduzir mais sentidos, porque os sentidos de um texto literário já por si são um bocadinho divergentes. Achei alguma graça que os desenhos divergissem um bocadinho, tivessem sempre um detalhe qualquer que não fosse absolutamente literal e que às vezes era uma outra interpretação do tema do texto”.

Assumindo que nos textos publicados não existia uma ligação ou fio condutor, tal como nas ilustrações, a artista assume, ainda assim, a presença de elementos recorrentes, que conferem unidade a um corpo literário, a uma linguagem artística: “Embora funcionem cada um como um desenho autónomo, há algumas predominâncias de temas. Há os interiores, que tem a ver com a introspecção; há os exteriores, que têm a ver com alguma dimensão abismal da mente humana, que gosta de olhar para longe para ver os seus limites e se depurar, de alguma forma. E depois há a figura humana, que é uma coisa que me interessa muito, porque também me interessa muito o ser humano em si, falo muito dos fenómenos existenciais e psicológicos”. Uma dimensão a que Anabela procurou conferir mistério. “Tentei encontrar sempre um detalhe qualquer em que o desenho se tornasse um bocadinho misterioso, para não ser uma ilustração literal do texto”.

 

NA FIGURA REPRESENTADA, UM ACTOR QUE ACRESCENTA AO TODO SIGNIFICADO E INQUIETUDE   

Um mistério materializado também na negritude conferida pela tinta-da-china, numa quase rejeição da cor, assumida pela artista: “Alguns desenhos, sim, são nocturnos, mas a maioria não tem esse cariz. Eles são é muito negros porque são feitos maioritariamente a tinta-da-china. E os que têm cor, têm pouca cor, as cores não são o que predomina”. Já as figuras a que recorre, funcionam como actores num palco ou plateau onde desfia reflexões e interrogações que a atravessam. “Não estão a retratar-me, mas são como se fossem actores. No meu trabalho de pintura sempre gostei muito de trabalhar a figura humana, e trabalhar no sentido de, com a atitude do corpo ou do rosto, tentar transmitir alguma coisa. Como se aquelas figuras fossem de facto actores, e que têm de tornar visível com o corpo, com o rosto, com o olhar um significado qualquer. Aqui havia o complemento das palavras, mas o desenho também tinha que valer por si. Só por si retratar ali um momento qualquer do texto que às vezes não é literal”, explica.

Ao longo de dois anos, na coluna iniciada em Abril de 2015, resultaram “87 ou 88” textos e ilustrações. “Na exposição não posso por os desenhos todos, não cabem, ficava uma exposição muito saturada, tem 67”. A par com os desenhos, na mostra que hoje se inicia apresenta-se também um álbum que, além de conter a totalidade das ilustrações publicadas, recupera fragmentos dos textos que estas acompanham: “No livro eu fiz o contrário, fui a um fragmento de cada texto para ilustrar aquele desenho. Eles estavam ligados desde o início, mas agora a atitude foi contrária, agora é valorizar o desenho. Quis fazer um livro bonito para as pessoas folhearem, para ver os desenhos”.

Já o título que escolheu colar à exposição, prende-se, explica, com a ilusão que pretende emprestar à ligação entre desenho e texto: “Iluminação Artificial porque o acto de iluminar, à partida, é tonar límpido, conhecido, para além daquela tradição das iluminuras, os monges iluminavam os textos para os enriquecer. Artificial porque com um desenho muitas vezes não estou a tornar o texto mais claro, estou a acrescentar um bocadinho mais de mistério. Em alguns senti que o desenho ainda vinha trazer um bocadinho mais de camadas de leitura”.

Anabela Canas, que reside em Portugal, escreveu e desenhou à distância para o jornal de um território que um dia também foi seu. A artista e professora viveu e leccionou em Macau entre 1987 e 1998. “Vem de uma história que já é antiga, porque eu quando vivi cá também escrevi. Nessa altura escrevi para o primeiro Ponto Final que existiu”, conta. Haveria de regressar em 2013, para fazer uma exposição no mesmo local onde se havia apresentado muitos anos antes: “Vim fazer uma exposição de um conjunto de trabalhos que eu tinha feito já em Lisboa, depois de voltar, mas que tinham a ver com a memória de Macau. Foi na Livraria Portuguesa, é a minha galeria fetiche, foi o primeiro sítio em Macau onde expus, um ano depois de cá chegar”. O mesmo espaço onde agora apresenta “Iluminação Artificial”, numa cidade que representa um contínuo desejo de regressar. “Apetece-me muito porque quando estou aqui sinto esta estranha familiaridade, esta estranha sensação de pertença. Tenho tanta gente cá de que gosto tanto, é difícil não haver esta apetência”, confessa a artista.       

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