Dos Rios de Cuama ao Oriente

Sentado na esplanada do modesto hotel Tropical aguardo a chegada do ‘chapa’ do senhor Francisco, que acaba por aparecer por volta das sete da manhã, como previsto. Ao tentar acomodar-me naquele emaranhado de gente e sacos, deparo com um rosto caucasiano e um outro asiático, ambos arrumados no banco de trás da viatura. Este último, assim de repente, faz lembrar uma das duas norte-coreanas que comigo embarcaram no voo doméstico da LAM, em Maputo, se bem que a possibilidade seja altamente improvável.

Nampula conheceu já melhores dias. Ver aqui uma mesquita não surpreende; o mesmo não se pode dizer da inesperada igreja ortodoxa, essa sim, aparente carta fora do baralho.

Ao longo da viagem passámos por diversas aldeias de cabanas de terra batida e tecto de colmo e incontáveis embondeiros. Primeiro Ancilo; depois Nacavala e Carapira, no distrito de Meconta, onde avisto mulheres polícias junto à estrada. Pequenos comércios ostentam os pífios nomes ‘Vodacom Tudo Bem’ e ‘Sporting Porfírio’ e ainda ‘Cantina D´Heroína’, onde pode o viandante adquirir um “molhe de camarão” por dez meticais apenas.  

Marcam a paisagem admiráveis elevações rochosas semelhantes aos morros pão-de-açúcar tão comuns na baía de Guanabara e vizinhanças, só que inseridos num habitat bem mais selvagem. A presença do capim invade a estrada não deixando grande espaço para os inúmeros caminhantes, maratonistas do asfalto, quilómetro puxa quilómetro, com carretos à cabeça e pesados sacos nas mãos. Sempre que fazemos uma paragem, por mais breve que seja, somos abordados por aldeões munidos com recipientes repletos de cachos de bananas, feijão-verde, quiabos, tomates, amendoins, maçarocas de milho, ovos, abóboras, goiabas, camarão frito, enfim, tudo aquilo que localmente se produz e está disponível, sempre em pequenas quantidades. Compre-se ou não se compre, da parte do vendedor ambulante o sorriso mantém-se sincero e contagiante.

Junto às palhotas, em bancas improvisadas, cuidadosamente acondicionados em pequenos cestos feitos de folha de bananeira – verdadeiras obras de arte – estão os papos-secos (exactamente como os das padarias portuguesas), os doces de banana e os caranguejos de carapaça cinzenta, atados com fiapos de capim verde.

Monapo é a última povoação antes de chegarmos à Ilha de Moçambique, ligada ao continente por uma longa e estreita ponte que mais parece um istmo de asfalto e ferro ferrugento. Não sei se são em maior quantidade os pescadores de cana na mão, perigosamente debruçados no parapeito da ponte, ou aqueles que, acomodados em pequenos botes, recolhem as redes artesanais.

Francisco Chapa, que até então não proferira uma única palavra, diz-me ser possível fazer a travessia a vau durante a preia-mar O meu pensamento, porém, ficara uns quilómetros antes, em Monapo, termo que inevitavelmente remete para o aurífero reino de Monomotapa, no actual Zimbabué, não muito longe dali. Muitos foram os que lhe revolveram as entranhas em busca das riquezas ocultas. Terá sido o caso de Jorge Pereira de Azevedo, militar e mercador do século XVII, personagem comparável a Diogo do Couto, pois numa ousada Advertência feita ao rei D. João V, expõe, com a lucidez própria de quem vive a realidade descrita e não de quem do alto da cátedra à toa fala, o declínio do império português do Oriente. Contudo, o homem vai além das críticas, pois apresenta sugestões passíveis de reverter a situação e, desse modo, ultrapassar a crise, bastando que para isso “se aproveitassem os recursos locais” que ele tão bem parecia conhecer. Pouco se sabe a respeito da vida de Pereira de Azevedo,  embora ele nos tenha legado um relato das suas aventuras a Oriente no qual afirma ser “morador na China no ano de 1646”.

Moçambique, em particular a zona dos rios de Cuama, onde com todo o afã se buscava o afamado metal precioso, é ponto de partida do seu relato, seguindo-se no roteiro as cidades de Mombaça e Melinde. Sabe-se que embarcou num navio comandado por um tal Nuno Álvares Botelho e nele navegou ao largo da Península Arábica, tendo depois desembarcado em Diu. Informa-nos ainda ter palmilhado, numa outra viagem, a ilha de Samatra e, com ajuda holandesa, visitado Batávia, embora lamente não ter tido oportunidade de visitar Macassar, Bornéu, Solor ou Timor. Mostrando ser pessoa bem informada, admite que “o nosso melhor período” no Oriente aconteceu quando “se deslocavam anualmente a essas partes nove naus com cerca de quinhentos a mil homens”. Macau merece, como seria de esperar, as considerações de Jorge Pereira de Azevedo, pois terá permanecido no território durante algum tempo, algures em 1643. Sugere o nosso mercador-viajante a abertura de rotas alternativas capazes de colmatar a perda do comércio com Malaca, conquistada três anos antes pelos neerlandeses, e a irremediável e definitiva conclusão das lucrativas viagens da Nau do Trato. Resta saber se alguém deu ouvidos a tão sensata sugestão, feita por um aventureiro cuja vida e obra mereciam mais aprofundado estudo.

Joaquim Magalhães de Castro

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