2017: Um olhar pela história

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2017 é  por um conjunto de circunstâncias curiosas um ano de comemorações. Ao longo do ano assinalam-se um conjunto de eventos históricos e efemérides que marcaram o mundo no século XX, em termos políticos, militares, ideológicos e confessionais.

Logo a começar em Março, comemoraram-se os cem anos do início da Revolução Russa. Revolução que se seguiu à morte de Rasputine e à derrota do exército russo na Primeira Guerra Mundial.  A incompetência do governo czarista, a crise económica e financeira que acentuara as condições de exploração e miséria do operariado russo conduziram, em 8 de Março, ao choque entre grevistas e as forças da ordem. As mais importantes unidades do exército, em São Petersburgo, passaram-se para os revoltosos; o czar abdicaria alguns dias depois.  O poder ficaria dividido entre o Soviete de Petrogrado e o Governo Provisório, chefiado pelo príncipe Georgy Lvov. Tratou-se de uma solução de poder efémera. Lenine faria logo a seguir de comboio o caminho do exílio de Zurique a Petrogrado, onde chegou em Abril do mesmo ano. O seu regresso à Rússia marca o arranque das ideias que o tornarão famoso entre bolcheviques radicais e o levarão ao poder em Outubro. Contra o bolchevique Kamenev, impõe a perspectiva que a guerra é uma aventura capitalista e nada tem a ver com os interesses do proletariado russo. Os russos devem, portanto, recusar-se a participar nela e a acorrer em solidariedade aos europeus.  Ainda contra Kamenev, impõe a visão de um modelo de governo assente numa república de delegados soviéticos eleitos por trabalhadores e camponeses por toda a Rússia. Rejeita frontalmente a ideia de uma democracia burguesa para substituir o regime czarista. Em 7 de Novembro lidera os bolcheviques no derrube do governo provisório e inicia negociações que conduzirão ao armistício com a Alemanha.

Parte daqui a mística revolucionária que imperará noutras revoluções socialistas ao longo do século XX. Manifesta-se em ideias como a irreconciabilidade entre os interesses dos trabalhadores e os governos dinásticos e imperiais, a imperfeição da democracia burguesa para responder aos anseios de representatividade da população mais pobre ou a virtuosidade do governo permanente em assembleia popularizado por Jean-Jacques Rousseau. Contraditoriamente, o mesmo século XX mostraria que as esperanças despertadas com o virtuosismo soviético eram de todo infundadas. Os regimes que se inspiraram nesse corpo de ideias acabaram por ser mais autoritários e sanguinários que os regimes que derrubaram. Mais importante que isso, uma elite partidária impulsionar-se-ia aos ombros das massas proletárias. Exerceria um poder sem controlo e contrapeso, marcado por privilégios e ostentação, tendo como contrapartida o empobrecimento da maioria. Uma minoria que se apostava em preservar, a todo o transe, o poder conquistado de que se reivindicava a única fiel depositária, executora e garante.

Cinquenta anos depois, um médico argentino, de formação marxista, Ernesto Guevara, sucumbiria na mata boliviana, morto pelo exército deste país quando à cabeça de uma unidade de guerrilha procurava lançar as sementes da sublevação socialista. Revolução semelhante à que tivera lugar dez anos antes, numa pequena ilha do mar das Caraíbas –  Cuba –  e que derrubara o regime autoritário de Fulgêncio Baptista. Instituindo em seu lugar um regime populista de cariz colectivista, dirigido por Fidel Castro. Regime assente na obediência a um só partido, na censura prévia na imprensa, no isolamento perante o poderoso vizinho norte-americano, numa política de fechamento e exaltação revolucionária. Curiosamente a morte do guerrilheiro de cabelos compridos mostraria que o ideário da revolução permanente era inconsistente com a pluralidade das sociedades da América do Sul, nascidas da colonização portuguesa e espanhola. E portanto irreproduzível.

Ainda em Maio próximo assinalam-se os cem anos do nascimento de John F. Kennedy, o trigésimo quinto presidente norte-americano. Assassinado ingloriamente em Dallas em Novembro de 1963. Oriundo de uma das famílias mais prestigiadas dos Estados Unidos, John Kennedy simboliza os valores essenciais do sonho americano: a eliminação das desigualdades raciais, a vitalidade da democracia e das suas instituições, um papel acrescido dos EUA na defesa da paz e do desarmamento perante as tentações expansionistas da União Soviética. Kennedy é dos primeiros presidentes americanos a prestar uma atenção particular à construção de um carisma pessoal que ultrapasse as fronteiras nacionais e seja internacionalmente reconhecido como positivo e agregador. Europeísta convicto, inicia uma linha de liderança do chamado mundo livre que teria em Bill Clinton e Barack Obama dois importantes continuadores. Fica para os segredos da história saber se não fora o seu assassinato os Estados Unidos se envolveriam numa guerra sangrenta e traumática no Vietname, que de certa forma sobrevive no inconsciente colectivo.

Um último evento marca esta nossa sinopse de eventos da história que se assinalam este ano. Trata-se dos 500 anos das 95 Teses de Lutero afixadas na igreja do castelo de Wittenberg e posteriormente reimpressas, traduzidas e distribuídas por toda a Alemanha e a Europa. As teses marcam o cisma ideológico mais profundo das fileiras do cristianismo e encerram uma crítica contundente às práticas das indulgências operadas por padres e clérigos católicos, visando relevar a punição temporal dos pecados praticados pelos compradores ou pelos seus entes mais próximos. Relacionava-se com comerciar algo que seria insusceptível de transacção: a permuta de um arrependimento espiritual interior por uma confissão sacramental externa comprada à Igreja, prática vulgarizada pelo papado. Evento religioso na origem, o “cisma das indulgências” terá um impacto enormíssimo nos séculos que se lhe seguiram. Dividiria a Europa entre o Norte luterano e o Sul católico e conduziria a guerras religiosas particularmente sangrentas e destrutivas. A importância das teses de Lutero ultrapassa contudo o quadro teológico em que se produziu. O recuo do catolicismo na Europa durante todo o século XX, em termos do número de crentes e da comparência às cerimónias religiosas, encontra a sua explicação não tanto na vitória da ideologia marxista e ateia, como se diz, mas no reconhecimento da subjectividade do apelo religioso em detrimento da sua vivência comunitária. Essa viragem inicia-se com Lutero.

 

Arnaldo Gonçalves é jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais. Escreve neste espaço quinzenalmente, sempre às quintas-feiras.

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