Autismo: Falta de terapeutas empurra pais para Hong Kong

O Dia Mundial da Consciencialização do Autismo, instituído pelas Nações Unidas em 2007, foi este fim-de-semana assinalado pela Associação de Autismo de Macau (AAM) com um simpósio que decorreu no Centro de Ciência. A secretária-geral da associação falou ao PONTO FINAL da falta de terapeutas no território –  nomeadamente da fala – que obriga muitos pais a procurar ajuda na região vizinha.

Children's choir.jpg

Sílvia Gonçalves

A Associação de Autismo de Macau (AAM) organizou este fim-de-semana um jantar de gala e um simpósio no âmbito do Dia Mundial da Consciencialização do Autismo, que se assinala a 2 de Abril. A secretária-geral da associação, Sara Das Neves Chiang, falou ao PONTO FINAL da escassez de terapeutas no território, que obriga muitos pais a procurar ajuda em Hong Kong, e da importância de difundir informação sobre a doença, para diluir a vergonha e o silêncio que ainda atingem muitos pais quando confrontados com o diagnóstico.

O jantar de gala decorreu no sábado, no Studio City, e nele todos  os presentes acenderam uma luz azul, o símbolo universal que assinala a data votada à consciencialização de uma doença cada mais presente a nível global. Ontem, a manhã no Centro de Ciência de Macau foi de encontro entre famílias que convivem quotidianamente com o espectro do autismo, numa iniciativa que contou com a presença de cerca de meia centena de crianças. Da parte da tarde, um simpósio juntou oradores locais e de Taiwan, numa reflexão em torno do autismo: “Isto é principalmente para que os pais possam participar. É muito importante para que eles coloquem questões e para que saibam mais sobre como podem educar os seus filhos com autismo e como podem comunicar com eles. Porque eles sentem-se muito impotentes quando descobrem que os seus filhos têm autismo”, assinalou na tarde de ontem Sara das Neves Chiang, secretária-geral da Associação de Autismo de Macau (AAM). Sara, que é também psicoterapeuta no Hospital Kiang Wu e trabalha com crianças autistas, acredita que “este tipo de actividades pode aumentar a consciência na sociedade e pode ajudar os pais a sentirem-se menos impotentes, podem obter mais algumas respostas relacionadas com o que é o autismo e como lidar com os seus filhos”.

A psicoterapeuta de 24 anos, que actualmente acompanha cerca de 15 crianças com autismo no Kiang Wu, fala da importância de os pais compreenderem as suas emoções e o processo que vão enfrentar, de modo a poderem estender o necessário apoio aos seus filhos: “Antes de tentarem ajudar as crianças, a vossa atitude tem de ser positiva, têm que saber o que vão enfrentar, conhecer as vossas emoções e sentimentos antes de ajudarem os vossos filhos. Estamos aqui para vos ajudar, há outros pais com quem podem falar. Não se sintam mal com isto, não é uma vergonha”.

A vergonha, conta a psicoterapeuta formada em Inglaterra, ainda assombra famílias que preferem ocultar dos outros o diagnóstico e afundar-se no silêncio: “Ainda há alguns pais que não querem falar sobre isso e que se sentem envergonhados dos seus filhos. Mas penso que há uma melhoria, há cada vez mais reflexão sobre isso, há um número crescente de pessoas que conhece o autismo, portanto serão cada vez menos os pais que se sentem assim”.

E de que forma pode a associação ajudar? “Temos organizado muitos tipos de actividades, como o Dia do Desenho, para pais e filhos, porque o desenho é uma forma não-verbal de comunicar com as crianças com autismo. Na associação, para além de mim, temos um terapeuta da fala. Quando os pais têm dúvidas podem colocar questões nas nossas redes sociais”, explica.

Questionada sobre as dificuldades que enfrentam em Macau as pessoas diagnosticadas com autismo, Sara Chiang aponta de imediato para a falta de terapeutas: “Em primeiro lugar, em relação aos terapeutas, não temos suficientes. Antes que sejam diagnosticados com autismo, os doentes têm que passar por avaliações, como avaliações psicológicas, para terem o diagnóstico. Mas a lista de espera é muito longa, principalmente para a terapia da fala. E o custo para todas as terapias é muito caro”.

Em Macau, explica, o tempo de espera leva muitos pais a procurar ajuda na vizinha Região Administrativa Especial de Hong Kong: “Porque a lista de espera é longa, às vezes os pais vão a Hong Kong procurar terapeutas, o que fica mais caro. De facto é muito difícil para os pais, sabemos isso. Gostaríamos que o Governo abrisse mais cursos para que as pessoas de cá estudassem e pudéssemos ter mais terapeutas. Ou que fizessem mais formação com os terapeutas de cá, para que estes tivessem um maior conhecimento, para que pudéssemos ajudar mais”.

Uma escassez que não toca só a terapia da fala: “E outros terapeutas, psicoterapeutas como eu, não temos suficientes. Alguns, depois de fazerem esta formação, ficam no estrangeiro, nem todos vão voltar para Macau para trabalhar, porque eu acho que eles sabem que este tipo de profissão não se está a desenvolver bem em Macau”.

Sara Chiang descreve uma profissão que carrega um desafio diário: “Depois de obtermos todo o conhecimento dos livros, ao fim do dia o que precisamos de saber é: experiência. Temos que interagir mais com este tipo de crianças e com os seus pais para sabermos mais sobre como podemos ajudá-los. Porque os livros são só 10 por cento, 90 por cento é experiência e exploração. Estou a aprender muito com estas crianças”, confessa.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s