“O meu lar é onde toda a minha humanidade se expressa”

O nome tem ressonância portuguesa, o cobre da pele define-a como indiana, mas a autora de “Afterlife – Ghost Stories from Goa” não se sente confortável com nenhum dos rótulos com que possa ser apodada. Jessica Faleiro nasceu em Goa, cresceu no Koweit, estudos nos Estados Unidos e trabalhou em países como o Haiti, o Malawi ou o Bangladesh. A itinerância deixou-lhe as raízes à flor da pele e apesar de se dizer fruto da diáspora goesa, diz que os fenómenos do desenraizamento e da desapropriação são os que melhor traduzem a forma como se relaciona com o mundo. Formada em ciência ambiental, a escritora diz-se de todo o lado e de lugar nenhum. Jessica Faleiro fala de sentido de pertença e de herança cultural e de como uma percepção libertária de ambos os conceitos molda a sua obra.

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Entrevista de Marco Carvalho

Fotografias de Eduardo Martins

 

marco.pontofinal@gmail.com

 

PONTO FINAL: Como é que alguém que nasceu em Goa, cresceu no Koweit e passou uma boa parte do tempo noutros lugares do mundo – quer a viver, quer a trabalhar – se define a si mesma em termos de pertença? O seu primeiro romance aborda, de resto, de uma forma transversal esta questão da redescoberta das suas raízes através de uma abordagem muito específica, a da crença na vida depois da morte. É importante, para si, transmitir também esta ideia de herança cultural nos textos que escreve?

Jessica Faleiro: Se me pergunta se este tipo de herança cultural influencia a minha escrita, sim. Eu sou parte da diáspora goesa. É algo muito comum, em Goa, as pessoas emigrarem e terem vivido e trabalhado fora de Goa. A característica que distingue a minha escrita é precisamente essa, a de escrever a partir dessa perspectiva, a de ter vivido grande parte da minha vida longe do local onde os meus pais nasceram. Aquilo que lhe posso dizer é que sou uma criança de uma terceira cultura, a third culture kid, que é alguém que cresceu afastada do ambiente cultural em que os seus pais sempre viveram. Como dizia, eu cresci no Koweit, no Médio Oriente e depois passei uma boa parte do meu tempo nos Estados Unidos da América e na Índia, mas não exactamente em Goa. Só agora decidi que poderia viver algum tempo em Goa. Não diria que regressei às minhas raízes. De certa forma, digo-lhe o contrário: que não tenho raízes em lado nenhum. Vejo isso, ainda assim, como uma vantagem. O modo como este desenraizamento se reflecte na minha escrita? Sim, há obviamente uma influência. Quando olha, de uma forma genérica, para o que os autores na diáspora escrevem, eles escrevem sobretudo sobre um certo sentimento de alienação e do rompimento de ligações, o que por sua vez dá origem a interrogações de nível identitário: Do que fala alguém na diáspora quando fala de um lar? Como é que alguém da diáspora define a ideia de lar e de pertença? Este tipo de questões e de preocupações encontra caminho para a minha escrita. Podem é não se reflectir nos meus livros de forma explícita. No meu primeiro livro – “Afterlife: Ghost Stories from Goa” – que é sobre assombrações de diferentes tipos, o pano de fundo é Goa e a narrativa tem ao centro uma família que começa a partilhar toda uma série de histórias de fantasmas e através desta troca começam aos poucos a descobrir os segredos da própria família. Este é um tema transversal em todo o mundo e poucas serão as famílias que nunca terão tido uma experiência do género e eu joguei um pouco com este tipo de circunstâncias. À medida que o leitor começa a embrenhar-se de forma mais profunda no enredo percebe que se trata de uma família com origem na diáspora;  as filhas que chegam à casa ancestral e começam a partilhar as suas histórias, uma vive em Inglaterra, outra vive nos Estados Unidos da América e é casada com uma americano e as histórias que começam a partilhar passam-se um pouco por todo o mundo. Uma é em Veneza, a outra em Bombaím e uma terceira em Martha’s Vineyard, na costa de Nova Inglaterra e só as restantes decorrem em Goa. Mesmo entre essas, uma decorre num contexto histórico, em 1810, num mecanismo que traz ao texto a questão da colonização. Eu abordo uma série de temas no livro, mas estes só se tornam tangíveis quando se olha para a história num todo. Há, por exemplo, a referência constante a viagens e a deslocações que dá lugar gradualmente a um sentimento de alienação que, a partir de determinada altura, se torna tangível na linguagem. Todas estas influências, que fui sentindo ao longo da vida, acabaram por encontrar o seu caminho para a minha escrita. Não é, de qualquer forma, sempre o subconsciente que se manifesta na escrita? Ao escrever, o que faço, é procurar sobretudo procurar ganhar uma maior consciência dessa pulsão inconsciente …

No caso de Goa, a diáspora começa a confundir-se cada vez mais com a própria identidade goesa. Ao longo de quase cinco séculos, a identidade goesa foi profundamente marcada pelo colonialismo, pela proximidade a valores impostos por Portugal, como a religião e a língua, mas neste momento, a comunidade goesa não é tanto sobre Goa, mas sobre a capacidade que demonstrou de se adaptar ao mundo. É uma comunidade que caminha para o desenraizamento de que falava: Goa é quase como um ideal, mas para a maior parte das famílias a diáspora é a realidade. A sua escrita reflecte este tipo de dissonância? Quando escreve sobre Goa, sobre que Goa escreve?

J.F: Enquanto escritora, escrevo sobretudo a partir do que considero que são os meus centros de trauma, digamos assim. É o que digo quando falo em festivais ou perante uma plateia de estudantes universitários. Tenho perfeita consciência disso. E quais são os mês centros de trauma? O conceito de que lhe falo … Todos os artistas –  quer sejam escritores, escultores, poetas ou artistas gráficos – escrevem ou concebem a partir de certas feridas, ou centros de trauma. Os meus são, ainda que por nenhuma ordem concreta em particular, ser mulher, ser indiana, ser goesa e ser uma criança de uma terceira cultura, um conceito que não é exactamente o mesmo que ser uma filha da diáspora. Eu herdei os valores, as percepções e o sistema de crenças dos meus pais, mas estes conceitos não são necessariamente meus porque eu não tive a oportunidade de os viver. Eu não cresci em Goa. Os meus pais cresceram e assumiram que eu herdaria, de forma automática, os valores e o sistema de crenças que eles me legaram e que os locais sobre os quais ou a partir dos quais eu escrevo seriam os mesmos sobre os quais os goeses – os goeses que nasceram e que cresceram em Goa – escrevem. Esse não é, de todo, o meu caso. Eu não sou apenas filha da diáspora. Quando falamos em diáspora, falamos, presumo, do seu exemplo. Assumo que nasceu em Portugal e que, a determinada altura da sua vida, emigrou para Macau. Presumo que se escrevesse algo, seria uma interessante combinação entre aquilo que herdou, as raízes culturais de onde emanam os seus valores, e as suas vivências, aqui em Macau. Aquilo de que lhe falo é algo diferente: se tivesse nascido em Macau, mas tivesse herdado o entendimento que os seus pais têm de Portugal, a saudade e a vontade que eles têm de regressar a Portugal, talvez estivesse numa situação análoga à minha. Há um substrato de crianças de cultura terceira que pensam de uma forma muito distinta e que possuem uma forma muito diferente de estar no mundo. Estão constantemente a tentar negociar soluções a nível internacional: entendem os movimentos globais de uma forma muito mais astuta que os outros, mesmo dos que integram a ideia de diáspora propriamente dita. O seu sentido de pertença também é diferente. Se este tipo de percepção se manifesta na minha escrita? Sim. Se a minha escrita pode ser caracterizada como a escrita de uma autora goesa? Procuro que a minha obra não seja rotulada dessa ou de qualquer outra forma. Se as pessoas me perguntaram: “É uma escritora goesa?”. Não. Como é que tal poderia ser? Se me perguntam se sou a minha escrita é autêntica? Sim, porque escrevo a partir de um lugar autêntico, de um lugar onde me concretizei e que contribuiu para a forma como olho para o mundo. Não alimento posições nacionalistas ou patrióticas e não estou sequer emocionalmente ligada à concepção clássica de um país. Para mim, o meu lar é onde toda a minha humanidade se expressa. Rejeito qualquer outra concepção. A minha pátria não é uma caixa com paredes, com rótulos e com fronteiras. Parte do trabalho que faço passa por me sentir o mais confortável possível com isso, com o facto de que não tenho fronteiras, mas todos os que me rodeiam estarem permanentemente a falar a partir de um lugar concreto, pautado por um certo ….

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Sentido de pertença?

J.F: Sim, sentido de pertença. Na Índia, a situação é ainda mais complexa. A Índia só se tornou um país em 1947. Antes disso o que existia na Índia eram dinastias tribais, cada uma das quais tinha o seu próprio reino, os seus próprios domínios e, de certo modo, as suas próprias línguas. Hoje em dia, a Índia, vista de uma forma global, é tão diversificada que se viajar de região para região, não vai encontrar uma Índia, vai encontrar múltiplas Índia. Goa, dentro da Índia, é um local ainda mais enigmático. Basta atravessar a fronteira estadual para se aperceber da diferença: em Goa, as pessoas vestem à moda do Ocidente, a influencia portuguesa ainda está por todo o lado. Se fizer umas centenas de quilómetros e viajar até Bombaím, sente-se a influencia britânica, as pessoas pensam de forma diferente, pelo que não nos é possível afirmar que a Índia olhe para o colonialismo de forma homogénea. A experiência de Goa é muito diferente da experiencia que tiveram as cidades e os territórios que estiveram sob o jugo britânico. Até a esse nível o que não falta são complexidades.

Dizia que não sente a obrigação de ter raízes em Goa ou em qualquer outro lado para escrever sobre a sua experiencia do mundo. Sente, ainda assim, alguma desapropriação? Ou esta visão, quase globalista, a partir da qual escreve é uma vantagem?

J.F: É uma boa pergunta. Demorei muito tempo, quase três décadas, para perceber que sou uma criança de uma cultura terceira e que não há nada de errado com isso. É apenas diferente e, como em tudo, acarreta vantagens e desvantagens. Demorei algum tempo a perceber que escrevo a partir de um espaço de diferença. Agora, compreendi, que não há nada de errado em não se ter as raízes firmes em lado nenhum. Até muito recentemente, até há coisa de cinco anos, as pessoas perguntavam-me: “Onde é a tua casa?”. Cheguei a escrever um ensaio sobre isto. Os meus amigos chegavam a gozar comigo na Universidade quando alguém me perguntava de onde eu era e eu lhes dizia: “Bem, tenho passaporte português, mas eu cresci no Koweit, mas os meus pais são de Goa”. Os meus amigos só me diziam: “Podes apenas entregar uma sinopse quando as pessoas te perguntam de onde és?”. Eu escrevi um ensaio sobre isto. Este ensaio foi, de certa forma, seminal e fez com que eu assumisse, de uma vez por todas, este estatuto de desenraizada. Há cinco anos, se as pessoas me perguntassem de onde eu era, eu chegava a um ponto em que ficava constrangida: “Oh Meu Deus, isto de novo?”.  Agora sinto que tudo é um pouco diferente, porque eu já interiorizei quem eu sou, mas o que me parece é que há muita gente ainda que alimenta um ou outro trauma sobre isto. Quando falo, falo de uma maneira muito geral e não tem necessariamente a ver com um ou outro país, mas a verdade é que se as pessoas não te conseguem arrumar numa caixa bonita, com um rótulo inequívoco, tu passas a ser o outro e há muita e boa gente que não consegue gerir este tipo de diferenças. Se não tiverem passado por algo similar, as pessoas não terão a capacidade de falar contigo, de estabelecer uma ligação contigo. A nível profissional talvez não seja impossível, mas tudo o que ultrapassa isso é, para elas, um grande desafio.

Este tipo de trauma ainda é algo que é palpável em Goa? Vive a maior parte do ano na terra dos seus pais …

J.F: As crianças de uma cultura terceira não têm noção de que são diferentes e que há certas coisas que acontecem das quais elas não estão conscientes. Eles categorizam isto como se fosse algo que acontece a todos os imigrantes ou a todos os filhos da diáspora, sem sequer entender que há leituras mais profundas que podem ser feitas. Encontro-me a escrever uma série de ensaios que aborda precisamente este tipo de circunstâncias. De qualquer forma não me parece que seja exclusivo de Goa. É algo que acontece um pouco por todo o mundo, com crianças que cresceram, por exemplo, no seio de famílias missionárias ou militares, que viajam e se deslocam bastante. As crianças estão constantemente a mudar de escola, a passar por um processo de perda de amigos e outros há que passaram por guerras e por golpes de Estado e esta ideia de deslocamento tornar-se parte da própria vivência da infância. Em Goa, se perguntar às pessoas, sobre o que é ser goês, vai aperceber-se que as respostas sugerem que existem várias camadas, horizontais e verticais, mas são todos muito claros relativamente ao que sentem ser um goês. É algo que está ligado à complexidade, por exemplo, do nome da própria família, da sua casta, da sua religião e da própria comunidade onde se está inserido. Estas são as principais condicionantes. Este é o tipo de complexidade que encontra em muitas cidades. Eu não sinto qualquer ligação a este tipo de concepções porque nunca me senti constrangida por elas. Os meus pais não nos educaram, a mim e aos meus irmãos, com bases suficientes para que pudéssemos entender plenamente todas essas camadas. Essa é, de resto, a grande beleza de se ter crescido num outro país, onde este tipo de experiência não se faz sentir e, como tal, não se assimila esta mundividência de uma forma natural. Agora, este tipo de percepção, começa a regressar aos poucos: por vezes sinto que estou a olhar por uma janela, a tentar absorver tudo o que está a acontecer à minha volta. Devo dizer que os que me olham de volta, a percepção que tenho, é que não estão resguardados por janela nenhuma. Olham para mim através do meu nome de família, do meu lugar na sociedade, através da forma como falo – com confiança – e a determinada altura, apercebo-me que me estão a categorizar: “Vamos colocá-la aqui”. De repente, há toda uma série de portas que se abrem para mim devido ao contexto em que me movimento, ao papel da minha família e tudo o resto. Estou consciente destas coisas, mas não sinto qualquer ligação para com elas.

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Como é que alguém que enveredou profissionalmente pela área das ciências, escreve sobre algo tão pouco científico como assombrações e a vida depois da morte?

J.F: Bem, nunca ninguém me perguntou tal coisa antes (risos). Tenho formação em ciência e especializei-me em ciência ambiental. Porque razão é que dei por mim a escrever sobre assombrações? Sempre quis escrever. A formação enquanto cientista, por oposição ao que definiria como uma paixão criativa sempre deu azo a tensões ao longo da minha vida. Vou-lhe dar um pouco de contexto para lhe responder melhor à questão: na Índia, e mesmo em Goa desde o período da administração portuguesa, a questão da formação científica sempre teve uma grande relevância. Quando os portugueses chegaram a Goa, o processo de dominação colonial era aquele a que estamos habituados, de uma instancia colonizadora. Portugal tentou manter a hierarquia de poder. Nunca houve qualquer encorajamento no sentido de permitir que a população local aprendesse acertas profissões ou ofícios. Isso só mudou no final do século XIX, quando eles se sentiram forçados a investir na formação das populações nativas de uma forma que não se resumia ao fomento das sociedades agrícolas. Nesta altura, começaram a tornar-se mais numerosos os goeses que enveredavam pelo sacerdócio e a determinada altura, o governo português compreendeu que necessitava de ter um certo número de trabalhadores capacitados em questões técnicas, como a construção e profissões especializadas como a carpintaria ou outras. Há medida que nos vamos aproximando da independência ou da libertação, vão surgindo médicos, advogados, jornalistas e engenheiros. Se reparar não referi nada ligado com as artes e esta questão é uma questão chave. Tratava-se de criar uma sociedade, de desenvolver uma sociedade que poderia ser colocada ao serviço de uma certa ideia de Império. A arte nunca foi vista como um contributo num contexto colonial. De certa forma, este modo de pensar ainda se reflecte na sociedade goesa, de uma maneira muito sub-reptícia. O mesmo sucedia sob os auspícios do Império Britânico. A não ser que tivesse nascido numa família muito abastada da classe média ou de uma das famílias dos estratos mais altos da sociedade, não teria liberdade para enveredar por profissões artísticas ou criativas, para escrever. Mesmo quando alguém assumia que escrevia, o mais certo é que lhe dissessem: “Mas que passatempo gracioso!”. Os escritores tinham uma outra profissão e é se queriam ganhar a vida. Cresci numa família com esta mentalidade. Na minha família há bancários, engenheiros, veterinários, empresários. Não há alguém que tenha feito da arte uma carreira. Quando fiz 16 anos, cheguei ao pé do meu pai e disse-lhe: “Hey, sabe, gostava de ser uma escritora”. O meu pai é uma pessoa muito racional e disse-me logo: “Se me conseguires convencer de que consegues ganhar a vida a escrever, Deus te abençoe, segue o teu caminho e torna-te escritora”. Não fazia ideia do que podia esperar, porque não tinha ninguém na minha família que me pudesse colocar na direcção certa.

E como surge a ciência? Como uma alternativa?

J.F: A alternativa mais viável era a ciência: se tivesse um cérebro e fosse relativamente inteligente, poderia completar sem grandes problemas os exames de ciências. Esta a forma mais racional de olhar para o futuro e foi desta forma que eu dei por mim a pensar. Tornei-me uma cientista ambiental e esta questão do ambiente foi preponderante porque eu ainda queria dar o meu contributo à sociedade. A ideia de justiça social é algo que me interessa muito. No fundo, a minha escolha tinha a ver com poder: não gostava da ideia de ver o homem comum subjugado a políticas que são feitas a um nível demasiado elevado, sem que as necessidades do homem comum se vejam reflectidas na legislação. As necessidades do homem comum passam por garantir alimentos e um tecto, por garantir roupas para eles e para os seus e o que vemos, a maior parte das vezes, é que isso não acontece porque, pura e simplesmente, as políticas não são definidas ao nível em que se movimentam. Aos 18 ou 19 anos acreditava que poderia alterar esta dinâmica e aproximar o homem comum do processo de decisão e foi por isso que optei pelas ciências ambientais. Tirei um mestrado em ciências ambientais para me especializar especificamente nesta área de trabalho. Primeiro arranjei emprego em corporações, mas fartei-me. Fartei-me ao compreender a desilusão que era trabalhar neste tipo de ambiente. Essencialmente, aquilo que eu fazia era lobby por parte das corporações para tentar garantir que certas políticas eram seguidas. Fiz um esforço pessoal no sentido de atingir algum equilíbrio, de procurar garantir que estas corporações procurassem desenvolver programas de responsabilidade social, mas depois a crise financeira aconteceu e aí eu fiquei a perceber o que as corporações verdadeiramente são: as primeiras despesas a serem cortadas foram logo as relacionadas com a questão da responsabilidade social das empresas. Comecei a trabalhar para organizações não-lucrativas e adorei a experiência. Estava, de facto, a ensinar apetências e técnicas a comunidades quer em África, quer na Ásia. Procurei ensiná-las a analisar as políticas e a recorrerem ao activismo, se necessário. Foi algo que gostei muito de fazer, mas continuava a ser algo pouco realista em termos pessoais, porque continua sem conseguir criar algo. A razão pela qual comecei a escrever é porque a escrita é algo que me alimenta, é algo que me enche de vida. É algo do qual eu sou a criadora, algo que vem de dentro de mim. Não tenho que negociar esta e outra agenda com uma quantidade infindável de pessoas, de escrever discursos para eles ou de criar algo que vai ao encontro dos desejos dos outros. Tudo isto implicava um compromisso. O que escrevo é algo que vem de mim: aceito as críticas, da mesma forma que recebo os elogios. É algo que gosto muito de fazer. Ainda continuo a fazer consultoria em políticas ambientais à margem do trabalho de escrita, mas escrever é mesmo o que me concretiza e o que faço com maior entusiasmo.

Tem sorte, no sentido em que faz aquilo de que gosta. Ainda assim, como é que separa as águas? Há um tempo para a escrita e outro para conduzir este tipo de projectos? Ou eles sobrepõem-se e misturam-se?

J.F: Não, não se misturam de todo. É muito difícil. Sempre que enveredo por um, desligo o botão do outro. Espero que um dia se possam encontrar, estou aberta a isso, mas ainda não é, de todo, a altura mais aconselhada. O trabalho como consultora também é emocionalmente esgotante. Trabalho numa área muito específica, a das políticas de comunicação para países afectados por desastres. Quando se deu o terremoto no Haiti, em 2010, um terremoto com consequências devastadoras para o país, eu estive a ajudar a gerir as políticas de reconstrução durante os primeiros seis meses para que obtivessem apoios dos Estados Unidos para que pudessem ajudar a desenvolver as áreas mais afectadas uma vez mais. É trabalho muito extenuante. Não é um trabalho criativo e é algo que nos deixa emocionalmente exaustos. De que forma é que separo as duas realidades? Conduzo um ou dois programas de consultoria por ano, que ajudam a cobrir, em termos financeiros, o resto do ano. Reduzi significativamente o meu envolvimento nesta área. Perguntava-me há pouco sobre o meu regresso a Goa e o que tem sido esta aventura de redescoberta das minhas raízes. Eis uma questão curiosa: eu não tenho qualquer tipo de ligação sentimental a Goa. Se os meus pais tivessem nascido nas Bahamas ou em Lisboa, provavelmente teria voltado para as Bahamas ou para Lisboa. Trata-se mais de ter uma rede de apoio de forma a me poder dar ao luxo de reduzir o meu envolvimento na questão da consultoria, de forma a que o dinheiro que faço ao trabalhar uma ou duas vezes por ano durante algumas semanas possa ajudar-me a atravessar estes longos períodos em que estou apenas numa praia, a sonhar ou a imaginar o dia inteiro, a ler quando me apetece ler. Este é o tipo de coisas que gosto de fazer. Quando estava a trabalhar a tempo inteiro, este era o tipo de coisas que eu não conseguia fazer. O meu cérebro não tinha capacidade para tanto. Há pessoas que conseguem fazer isto sem problemas, eu não consigo fazer com que o meu cérebro desligue de uma circunstância para outra: não consigo imaginar uma história se sei que tenho que escrever um discurso ou um documento para convencer um governo ou uma organização a conceder apoio numa situação de catástrofe.

Referiu por mais do que uma ocasião que não tem ligação nenhuma ligação emocional em particular com Goa, mas o seu primeiro livro respira Goa por todos os poros, apesar de ter estado em sítios como o Haiti, o Malawi ou outros locais mais exóticos. Porque é que as suas histórias não têm um pendor mais universal, sendo uma cidadã do mundo?

J.F: Mas as minhas histórias são universais. Lê ficção? Quando digo às pessoas, sejam elas de que parte do mundo forem, que escrevi um livro com histórias de fantasmas, elas sentem uma ligação imediata com o motivo das minhas histórias e sentem que lhes foi dada autorização para que partilhassem as suas próprias histórias, sejam histórias pessoais ou histórias que lhes tenham sido contadas. E isto é algo que, no meu entender, é muito reconfortante. Estava a falar com um colega no Brasil e ele disse-me logo: “Sabes, Jessica, no outro dia estava a passar junto ao cemitério e tive esta experiencia”. Eles nunca teriam este tipo de conversa de forma natural e orgânica com ninguém. Talvez o fizessem com alguns amigos próximos. As histórias de assombrações sobre as quais eu escrevi – sobre um pássaro possuído por um espírito humano, a de um rapaz possuído por um outro espírito humano, a da casa assombrada –  são temas muito comuns. Fiz alguma pesquisa e descobri que na tradição celta os motivos são muito similares. Quando viajei para o Malawi ou para o Bangladesh e lhes perguntei sobre as histórias de fantasmas e de assombrações que partilhavam, eles contavam-me histórias com enredos muito semelhantes. Estes temas são universais, estão é embrulhados com as cores da sociedade goesa de classe média, que é a realidade que eu conheço melhor, dado que cresci neste ambiente, ainda que fora de Goa. O pano de fundo é este, mas o espaço de partilha do que acontece às personagens, da forma como lidam com aquilo que os assombra, estes são temas comuns. Freud foi o primeiro, em 1919, a escrever sobre isto. Nesse ano ele publicou um ensaio chamado “O Bizarro”, procurando estabelecer a psicanálise da utilização de um espírito num contexto literário. Nesse texto ele falava também de assombração psicológica, chamemos-lhe assim. Algumas das minhas histórias têm, de certa forma, um final em aberto: ao leitor, quando lê as histórias, cabe decidir se trata ou não de um fantasma. É uma decisão que tomam e que tomam instantaneamente. Do meu ponto de vista, alguns dos finais são factualmente abertos. Deixei suficientes sementes na história para criar um certo sentido de dúvida: “Era uma assombração que se manifestou apenas em termos psicológicos? Era uma manifestação de algo que se enraizou na nossa mente e no nosso corpo? Se olhar para os meus textos de uma perspectiva colonial ou de uma perspectiva pós-colonial, a ideia de assombração também pode ter essa leitura: “Estaremos assombrados por sermos uma ex-colónia?”, é uma pergunta que pode ser feita.

 

Já que fala nisso … Ainda existe alguma saudade desse período colonial em Goa?

J.F: Ainda há uma forte memória da presença portuguesa. Desse ponto de vista, definitivamente. O meu pai tem 81 anos. Nasceu em 1935 e Goa libertou-se do poder português em 1961, o que quer dizer que o meu pai já tinha quase 30 anos quando a libertação aconteceu. Ele cresceu sob domínio português, ele sabe o que Goa era sob domínio português e tem capacidade para estabelecer os contrastes.  Para mim ele é uma memória viva. Eu cresci com os sons do português à minha volta, ainda que nunca tenha aprendido a falar a língua. Estou certa que há detalhes e influências que me entraram no subconsciente e permeiam a minha escrita. Estou consciente disso. O quão profunda é essa influência é que não consigo dizer. Há académicos no Brasil que estão a estudar as minhas obras. É algo que se prefigura como interessante, poder manter uma discussão com eles e procurar perceber o que se passa comigo em termos de subconsciente, de forma a poder comparar o que descobriram com aquilo que eu sinto. É uma perspectiva interessante. É algo orgânico. Certamente que o que escrevi no meu primeiro livro reflecte isso. O meu segundo livro está escrito e deve ser publicado brevemente. Ainda estou a trabalhá-lo ao nível da edição e é um livro sobre mulheres goesas da classe média da zona Sul de Goa. Está focado nesta região em termos específicos porque é um livro centrado em cinco mulheres que estão na periferia da sociedade goesa ou aquilo que a sociedade goesa poderia dizer que seriam as franjas da sociedade: uma é alcoólica, outra é uma solteirona que se vê forçada a lidar com a solidão depois de ter sido traída e amada. É um livro com uma inâmica ligeiramente distinta. De uma forma ou de outra, nenhuma destas cinco mulheres é aceite pela sociedade e há uma perda e um trauma que nasce destas circunstâncias. São mulheres que lidam directamente com a forma como a ideia de identidade se alterou devido à perda que sofreram. É um livro muito pequeno, mas estas são as camadas mais profundas. Não sei se as pessoas terão capacidade para se aperceber da profundidade destas questões, mas seria interessante se assim fosse…

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Também tem algumas incursões na poesia, ainda que diga que está ainda a tentar encontrar a sua voz em termos poéticos. Para além deste livro que referiu, que mais podemos esperar de Jessica Faleiro nos próximos tempos?

J.F: Como disse durante a nossa conversa, estou actualmente a escrever uma série de ensaios. Não sei ainda quando serão publicados. Primeiro quero garantir que sejam precisamente sobre aquilo que quero escrever. São textos que têm precisamente a ver com a questão de ser uma criança de uma cultura terceira no contexto da diáspora goesa. Proponho-me explorar conceitos como o de “casa” e o que tal significa para mim, em que exploro o impacto de se ter crescido no Koweit e a forma como tal se traduz, agora que vivo em Goa. Outro livro em que estou a trabalhar, sem poder adiantar quando estará concluído… Vivo numa praia no sul de Goa e estou a aprender a interagir e a relacionar-me com a praia e há poesia a nascer deste confronto. Estou a tentar escrever algo sobre isto. Não sei que formato é que vai tomar: talvez em prosa, talvez em forma poética, talvez prosa poética. E por agora é isto.

 

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