Na periferia. Da cidade e da riqueza

Nos arredores da capital chinesa há centenas de bairros e localidades onde se acumulam centenas de trabalhadores rurais que partiram para Pequim à procura de melhores condições de vida. Muitos vivem em condições quase desumanas, presos num limbo legal que lhes recusa direitos básicos como o direito à saúde e à educação.

1.Pobreza

João Pimenta

Agência Lusa

 

Tuo Shouchuan vive com dois amigos num cubículo de 12 metros quadrados, parte de um aglomerado de casas em tijolo que acolhe centenas de trabalhadores rurais chineses à procura de uma vida melhor em Pequim.

Um fogão de um bico, alimentado a carvão, três camas e uma televisão são os únicos móveis dispostos no quarto. A casa de banho – um espaço escuro com buracos no chão e de onde emana um cheiro nauseabundo – é partilhada por dezenas de moradores.

Trata-se da vila de Houchang, situada no norte de Pequim, em frente à sede do Baidu, o maior motor de busca chinês e símbolo do desenvolvimento tecnológico da China: “Somos pessoas sem educação”, diz Tuo Shouchuan. “Deixamos o campo para ganhar algum dinheiro a fazer trabalhos pesados e um dia regressarmos”.

Já lá vão mais de dez anos desde que Tuo abandonou a sua aldeia, em Chongqing, no centro da China, a quase 2.000 quilómetros da capital, deixando para trás a mulher e dois filhos. Pequim depende de homens e mulheres como ele para manter a economia a funcionar, mas os altos preços do imobiliário e o restrito sistema de residência da capital, conhecido como “hukou”, mantêm-nos em bairros degradados na periferia.

Ao cair da noite, as ruas de Houchang enchem-se de rostos cansados e dialectos imperceptíveis, enquanto nas redondezas dezenas de carrinhas vão chegando do fim de uma jornada de trabalho.

Mesmo num dia em que os céus de Pequim estão livres de poluição, prevalece em Houchang o cheiro do carvão, utilizado pelos moradores para aquecimento ou para cozinhar. Tradicionalmente, os homens que aqui vivem prestam serviços de mudanças, um ramo que beneficiou do ‘boom’ da construção em Pequim, mas que recentemente se tem vindo a contrair, face às medidas adoptadas pelo Governo para travar o aumento dos preços da habitação.

“Antes era um trabalho estável, mas tem-se tornado cada vez mais precário”, conta Tuo Shouchuan.

Nos últimos anos, o serviço de transporte privado Didi – o Uber chinês – constituiu uma fonte alternativa de rendimento para os trabalhadores em Houchang.

No entanto, novos regulamentos que entraram em vigor no início de 2017 ditam que apenas motoristas com autorização de residência local e veículos com matrícula local podem trabalhar para o Didi: “Não é justo. Foi uma mudança demasiado abrupta”, comenta Wang Niankui, outro residente da vila, que costumava ganhar até 10.000 yuan (1.380 euros) por mês como motorista.

Wang continua a trabalhar para o Didi, mas agora só de noite, à ‘socapa’: “É cada vez mais difícil para quem vem de fora fixar-se em Pequim”, conta.

Sem o “hukou” local, estes trabalhadores estão privados de vários serviços básicos, como o acesso à educação e saúde pública.

Casado e pai de um filho de dez anos, Wang Niankui é também oriundo de Chongqing, à semelhança da maioria dos residentes na vila. Para tentar resistir à distância, os moradores em Houchang recriaram um ambiente que lhes seja familiar, com as mercearias e os restaurantes da vila a oferecerem ingredientes e pratos típicos de Chongqing.

Niankui, que chegou a Houchang em 1999, não sabe quanto tempo mais ficará: “Se não demolirem a vila, fico por aqui”, explica. “Se um dia a demolirem, partirei para outro lugar”.

 

 

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