“Ler um livro é viajar, sentado e sem pagar impostos”

Ler um livro é para Dércia Sara Feliciano uma viagem, mas a jovem escritora e activista cultural moçambicana estava longe de imaginar que a epopeia em que embarcou aos oito anos de idade, quando recitou um poema para o então presidente Joaquim Chissano, a levaria a impulsionar um dos mais reputados Festivais de Poesia da África Austral. O certame, que se realiza a mais de duzentos quilómetros da preponderância institucional de Maputo, já tem lugar cativo no mapa cultural de Moçambique, um país onde o livro, diz Dércia, ainda é um perfeito desconhecido. A escritora, que adoptou o pseudónimo literário de Deusa d’África para provar que “tudo aquilo que o homem faz, a mulher também pode fazer”, tem dois livros na forja, mas o que quer mesmo é revolucionar a escrita africana, com o lançamento de uma nova corrente literária. A voz de uma Deusa em discurso directo.

Entrevista de Marco Carvalho

Fotografia de Eduardo Martins

marco.pontofinal@gmail.com

PONTO FINAL: Como é que se fazem omeletes sem ovos? Tem vindo a dinamizar em Moçambique um Festival de Poesia, mas não o faz em Maputo. É um Festival que decorre em Xai Xai, onde presumo que seja tudo um bocadinho mais difícil em termos logísticos …

Deusa D’África: É possível fazer omeletes sem ovos. Pelo menos sem ovos de galinha. A concepção que nós temos é que os ovos bons, digamos assim, são os ovos de galinha. Mas há ovos de cobra, há ovos de jacaré, entre outros géneros mais. A questão que colocou… É preciso acabar com a concepção errónea que nós temos de que um país é apenas a capital. Com as actividades que nós desenvolvemos pretendemos demonstrar ao público, ao nosso povo que um país não se faz apenas da capital. O que se vive numa capital, penso que em todos os cantos do mundo, em todos os países, é muito diferente da realidade que se vive nas províncias. Geralmente as capitais são cidades aparatosas, algumas bonitas, mas o que se vive nas províncias é a capital. Falando concretamente de Moçambique, quando se fala do termo Moçambique real, não nos referimos a Maputo. Referimo-nos concretamente ao que está fora da cidade de Maputo. A realidade de um país, a começar pela produção e até ao próprio consumo, tudo começa na província. Na cidade, numa capital, nunca se produz; se há, se calhar, há a um nível reduzido e pouco significativo. A industrialização, a produção, em todos os países do mundo, é feita fora das capitais. No nosso caso, estamos sedeados na cidade de Xai Xai, que se encontra na província de Gaza, mas também nos fazemos representar em quase todos os cantos do país. Temos uma delegação na cidade de Maputo, com o propósito de responder às necessidades daqueles que pensam que estar em Moçambique é estar em Maputo. Eles participam nas actividades que realizamos na cidade de Maputo e ficam a pensar que aquilo é tudo. Porém, há actividades que nós realizamos de grande vulto na cidade de Xai Xai, temos actividades no distrito de Chókwé, na província de Niassa, especificamente em Lichinga e em Chimoio, que se encontra na província de Manica.

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Quando fala das respostas que desenvolve, não o referiu ainda na sua resposta, mas é a Associação Cultural Chitende …

D.D.A: Sim, sim, sim. A Associaçao Cultural Chitende …

Como é que a Chitende apareceu? De onde veio este impulso para constituir uma associação que lida, sobretudo, com cultura?

D.D.A: A criação da Chitende como uma associação – começou primeiro como um núcleo cultural – advém da força de jovens com o sonho de serem escritores, apesar de viverem na província. Este projecto surgiu em 1996 como núcleo literário e tinha como actividade principal a declamação de poesia. Estas declamações eram feitas num local muito restrito, chamado “Casa Velha”. Surgiu na cidade de Xai Xai tendo como membros fundadores escritores, entre outros. As actividades eram actividades restritas, mas que tinham um impacto, porque era tudo novo, diferente e produzíamos uma revista impressa, chamada Revista Chitende. Através desta revista vários talentos foram resgatados, tiveram oportunidade de publicar pela primeira vez a nível das províncias. Dada a dependência que tínhamos da capital, os membros do núcleo naquela altura tinham de se deslocar até Maputo para poder continuar com os estudos e fazer o ensino superior. Isto confrontava a agremiação com uma grande fragilidade, porque a maior parte dos membros mais tarde ou mais cedo acabavam para se deslocar para a cidade de Maputo. Fomos pensando no que nós podíamos fazer, pese embora as edições da revista não tenham parado. O núcleo foi alocando vários editores, que iam publicando a revista. A determinada altura decidiu-se criar uma estrutura de maior portento, que deixasse de ser um núcleo literário e passasse a ser uma Associação Cultural e foi assim que nasceu a Chitende, uma associação cultural que não só alberga escritores, mas também músicos, pintores, escultores, bailarinos e encenadores, entre outros ofícios do campo da produção cultural. A Chitende acaba por ser uma família imensa onde todo o artista tem lugar para poder apresentar, mostrar e divulgar as suas actividades. Neste momento continuamos com a revista. A revista continua a ser editada, infelizmente não em formato físico, mas em formato electrónica devido às dificuldades para fazer a impressão em formato físico. Hoje em dia é muito caro imprimir a revista, da mesma forma que produzir um livro em Moçambique é muito caro também. Não temo editores e os nossos livros …

Dizia, de resto, durante uma das suas intervenções no Festival Literário Rota das Letras, que antes de divulgar o livro é preciso ensinar aos Moçambicanos o que é que um livro é. É tanto assim? Ou há um bocadinho de exagero nas suas palavras?

D.D.A: Por minha natureza, eu quando escrevo ou quando falo poeticamente, uso o surrealismo, realidades um pouco exacerbadas. Porém, não deixam de ser realidades. Quando eu digo que é necessário ensinar o Moçambicano o que é um livro, no verdadeiro sentido, no sentido literal da coisa, bom, há muitos que pensam que conhecem os livros. Isto acontece em todas as sociedades. Mas, na prática, não gostam de ler. Podemos até encontrar um individuo formado, com o título de doutorado, mas indo à fundura das coisas, percebemos que nunca leu um livro inteiro, nem se interessa em ler. De que valem tantos títulos se o individuo não lê e não consegue dignificar pelo menos o seu título. Ensinar o individuo o que é o livro é pegar no livro e levar a este indivíduo, encarando-o como consumidor, como leitor. É explicar qual é a necessidade que este indivíduo deve ter de ler. Também temos de ter em conta que há muita gente em Moçambique que nunca teve a oportunidade de privar com um escritor. É algo muito normal num país como Moçambique. Nos distritos que temos visitado, quando conduzimos acções de promoção de literatura junto das escolas que se encontram no meio rural, apercebemo-nos que o desconhecimento dos autores é muito normal. A primeira vez que fiz um lançamento em Chókwé lembro-me que tinham dito que nunca lhes foi dada a oportunidade de estar com um escritor e de assistir ao lançamento de um livro. Alguns tinham visto o lançamento de um livro pela televisão. Não deixa de ser pobreza quando nós não temos a oportunidade de interagir com escritores directamente, de ver o lançamento de um livro. A motivação para ler um livro pode começar aí: é possível tocar no livro, ver a sua sinopse e perceber se nos interessa ou não. Aí é que começa o interesse pelo livro, se vale a pena ler ou não. Nós vamos fazendo este trabalho de mostrar aos moçambicanos que nunca tiveram a oportunidade de ver um livro, de ver um escritor, até porque estes certames servem ainda para uma outra coisa: para mostrar às pessoas que temos estes escritores, os livros estão aqui e é necessário ler, porque os benefícios da leitura são mais do que muitos. Se você lê, sai a ganhar, vai conhecer os seus direitos, a sua capacidade de raciocinar aumenta, a sua inteligência aumenta. A leitura ajuda a minimizar traços de caracter como a arrogância, a ignorância, falta de conhecimento e por aí fora. Quem lê fica a ganhar porque para além de ficar a conhecer os seus direitos, passa a ter uma visão daquilo que é o mundo e que vai além do entendimento do mundo que tem o individuo que não lê, que é por natureza um individuo fechado. Ler um livro é viajar, sentado e sem pagar impostos. É uma mais valia. Este é o trabalho que nós temos feito. Oferecemos livros às escolas, gratuitamente, como forma de apoiar os estabelecimentos de ensino que não têm condições para adquirir os livros, embora algumas até tenham pequenas bibliotecas. Os estudantes precisam de livros para ler e devem estar familiarizados com a literatura. Vamos trabalhando.

Vão trabalhando, com um acrescento muito significativo e que tem vindo a ganhar uma dimensão admirável ao longo dos últimos anos. Falo daa organização do Festival de Poesia …

D.D.A: É significativo porque o Festival de Poesia é uma actividade que envolve muitas outras actividades, tais como espectáculos de música e outras iniciativas. Os músicos têm a oportunidade de divulgar o seu potencial. Fazemos também a feira do livro. No ano passado, organizamos uma feira do livro em que vendemos livros no montante de dois mil dólares. É uma quantia admirável numa cidade como Xai Xai. Outro aspecto interessante é o facto de se deslocarem pessoas de várias partes do mundo e de várias províncias de Moçambique só com o objectivo de assistirem ao Festival, que começa já a funcionar como um factor de actracção turística. Houve mesmo escritores e artistas que, não tendo sido convidados, fizeram questão de se deslocar de Maputo até Gaza porque queriam ver as figuras de cartas, ouvir os nossos convidados e perceber o que iria acontecer.  As pessoas acabaram por abrir mão da concepção de que um festival internacional só pode ser feito na cidade de Maputo, não pode ser feito fora de Maputo. Muitos perceberam que é possível conduzir este tipo de iniciativas em qualquer lugar e até se sentiram na obrigação de sair de Maputo para poder testemunhar esta maravilha. O mais emocionante ainda é ver uma mãe que sai de um distrito recôndito do interior, de uma província onde um livro é um objecto raro e vem até Xai Xai só para vir comprar um livro para o filho. Uma das vendas que mais me emocionou, que mais me tocou na última edição da Feira do Livro decorreu nestes moldes: houve um dia em que tive o privilégio de ver uma senhora que veio visitar a Feira do Livro com a intenção de comprar um livro, escrito em língua portuguesa, para o filho. Ora, esta mulher não sabia falar português. É comovente, isto. Estamos a falar de uma senhora que não sabe como explorar o que está dentro deste livro, mas sabe que este livro, este objecto é importante para o seu filho …

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Dizia que o Festival acabou por centrar atenções em Gaza, por provar que é possível desenvolver este tipo de iniciativas em outros lugares que não Maputo … No Ocidente começa a ganhar espessura a ideia de que a cultura pode gerar riqueza, pode gerar dinheiro. O trabalho que a Associação Cultural Chitende tem vindo a desenvolver vai nesse sentido? Falava da questão do Festival como atracção turística. Com uma maior dimensão, esta iniciativa pode vir a colocar Xai Xai no mapa?

D.D.A: A província de Gaza sai sempre a ganhar, porque mesmo que seja pobre em termos económicos, pelo menos – e durante uma mão cheia de dias – fala-se de literatura. Se se fala de alguma coisa boa, significa que a província sai a ganhar. Pelo menos é lembrada num determinado âmbito. Em termos financeiros, infelizmente nós enquanto Associação temos um financiamento muito limitado. Quando chega a hora de organizar um festival desta dimensão, buscamos alguns apoios. No ano passado, por exemplo, tivemos apoio do Fundo para o Desenvolvimento Artístico e Cultural, do FDAC, que financiou as actividades do Festival no que toca à parte logística. Mas as dificuldades são enormes, sobretudo no que toca à gestão dos assuntos do dia-a-dia. A organização dinamiza actividades durante todos os meses do ano e para estas quase nunca há dinheiro. Não tem sido fácil. O que tem acontecido, na prática, é que nós, para além de sermos artistas, nós trabalhamos, temos outros ofícios que nos remuneram e que nos permitem ganhar a vida. Através desses ofícios, o que nós ganhamos investimos na arte. É o que nós fazemos com amor e sabemos que se não formos nós a fazer isto, ninguém o irá fazer. Nós temos obrigação de fazer alguma outra coisa que possa sustentar esta arte, este ofício que nós fazemos que é divulgar e dar a conhecer a literatura. Não dependemos dos apoios. Bem, depender, dependemos porque há sempre momentos em que nos sentimos limitados, sobretudo no que toca à dinamização dos grandes eventos. Não é todos os dias que conseguimos fazer um Festival de maior dimensão porque para isso é necessário financiamento. É necessário assegurar, ainda assim, que as actividades não ficam paralisadas na ausência de meios. Temos realizado as palestras, felizmente temos livros nossos e levamos os nossos livros e oferecemo-los às escolas que não têm livros, da mesma forma que conduzimos as palestras gratuitamente. Quem não tem cão, caça com gato. É isso que nós fazemos. Fazemos o que nós amamos, portante investimos na arte. Fazemos isto não há espera de um retorno financeiro, porque para nós o retorno é este reconhecimento que as artes têm vindo a tomar e o facto, também, da província também vir a ganhar porque hoje em dia já se olha para Gaza com outros olhos. Pelo menos já se sabe que existem escritores em Gaza e que a literatura moçambicana não se cinge a Maputo. Isto é gratificante e é algo que nos deixa felizes. Não é fácil fazer este percurso em Moçambique. Ninguém vive da arte em Moçambique. Muito pelo contrário. As pessoas convidam para várias realizações, mas em termo de remuneração, uma remuneração palpável, as pessoas – pura e simplesmente – não gostam de pagar …

A nível pessoal, e estritamente pessoal, o seu nome já pulou as fronteiras de Gaza e até as fronteiras de Moçambique. A sua obra já chegou ao Brasil, já foi traduzida para sueco. Sente alguma responsabilidade? Quando olhamos para a literatura moçambicana contemporânea, dois nomes saltam à vista: Mia Couto, por um lado, e Paulina Chiziane, por outro. A Paulina Chiziane já elogiou a sua obra. Encara este elogio como uma responsabilidade?

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D.D.A: Sim. É uma responsabilidade e para mim é algo emocionante quando o trabalho que desenvolvemos é reconhecido. E este reconhecimento veio da Paulina, mas também de vários críticos literários como o professor Nataniel Ngomane. O próprio escritor Mia Couto também já elogiou algumas das minhas criações. Isto é gratificante para mim, porque isto motiva-me e mostra-me as luzes da razão. Vale a pena continuar com as minhas loucuras porque, pelo menos, há alguém que as compreende, alguém que diz à Deusa: “Vale a pena, vamos seguir em frente”. É uma responsabilidade representar um país além-fronteiras. Não é fácil. Sou jovem e tenho muitos sonhos. Olho, ainda assim, para a literatura e para a arte como algo maior que os meus sonhos pessoais. Olho para a arte como algo maior que os desejos que nutro, como mulher e como jovem, tanto que a maior parte do meu tempo tenho-o dedicado às artes, independentemente das necessidades que eu tenha. Só para lhe dar um exemplo, o tempo que eu tenho para passar com a minha família, com a minha mãe e com os meus irmãos, tem sido bastante reduzido. Há momentos em que sinto culpada por não lhes poder dar a atenção que me merecem e eles reclamam essa atenção, mas a verdade é que eu não tenho tempo. Há alturas em que tenho a agenda lotada durante um mês inteiro porque sou mestre de cerimónias para casamentos, em que sou responsável pela animação cultural quer em casamentos, quer em festas de aniversários, eventos públicos do próprio Governo, entre várias outras actividades. Temos vindo a fazer produção de saraus, que implicam que me desloque para fora de Xai Xai, por vezes a representar Moçambique a nível da literatura, por vezes a representar a Chitende do ponto de vista do activismo cultural.

Como é que alguém que estudou contabilidade, uma área tão distinta da literatura, responde à chamada da literatura? Quando é que surgiu em si o impulso para a escrita? Quando é que surgiu em si o impulso para a poesia?

D.D.A: Felizmente, eu penso que veio do berço. Com educação ou sem educação, eu sou uma pessoa um pouco rebelde, um pouco mal-criada, mas eu penso que tive berço, tive berço no sentido de desenvolver este gosto, este amor nato pela literatura e teve muito a ver com o meio em que eu nasci. A minha mãe era responsável pela área cultural na educação na província de Gaza. Ela era professora e a responsabilidade dela era formar grupos culturais, de teatro, de canto coral, de poesia. Quando viesse o presidente da República – e naquele tempo era Samora Machel – ela é que era responsável por estruturar a animação, a apresentação. Ela era mestre de cerimónias de casamentos, de festas e de eventos do próprio Governo. Eu não tinha outra opção. O meu irmão também é escritor, nasceu neste ambiente. A minha mãe arrastava-nos para todos os cantos onde ela ia, levava-nos para as iniciativas que ela frequentava e as minhas primeiras aparições, digamos assim, foram em casamentos. Eu participava em grupos de canto coral, que a minha mãe organizava e formava. É curioso porque ela ainda agora continua a cantar. Para além de cantar, estes grupos de canto coral tinham sempre uma actividade específica, concebida para mim e que era dizer poesia. Quando entrei para a escola primária, aprendi a declamar logo na primeira classe, porque a minha mãe ia-me ensinando a dizer os poemas. A minha professora da primeira classe também contribuiu, porque me ensinou um poema e permitiu que o declamasse numa ocasião especial. Foi desta forma que me comecei a integrar nas actividades da Escola Primária: fiz parte de grupos de teatro, representava teatro, canto coral e comecei a ganhar os meus primeiros prémios ainda nessa escola. Na terceira classe ganho o primeiro prémio como melhor declamadora da Escola. Daí em diante fui participando nas actividades da Escola, mas também da Chitende, que surgiu precisamente nesta altura. Eu nasci em 1988 e em 1996, quando a Associação foi fundada, eu tinha oito anos. Ainda era criança, mas como o meu irmão integrava a Associação – ele é membro fundador da Chitende – arrastava-me com ele e eu ia declamando e assumia esse papel de declamadora, por exemplo, quando o presidente da República visitava Xai Xai. Quando cheguei aos dez anos já tinha uma agenda de declamadora, mal sabia eu escrever. Os meus primeiros textos, comecei a rabisca-los para aí no quinto ano. No seio da minha família, a leitura era uma obrigação. A minha mão obrigava-me não só a ler, mas também a fazer uma ficha de leitura para mostrar o meu grau de compreensão daquilo que eu lia. Fui lendo várias obras, ainda muito nova. Li autores como António Quadros, Ernest Hemingway, Friedrich Nietzsche, Giovanni Papini. Estes e outros autores acabaram por me influenciar bastante, mesmo ao nível da personalidade. Se sou uma pessoa meio controversa é graças a estas leituras que eu fui fazendo. Estes autores, meio loucos alguns, acabaram por contribuir para a criação deste meu personagem, deste personagem com que me afirmo na literatura.

Quando é que a Deusa d’ África se revelou em si? Escolheu um pseudónimo no mínimo curioso? Esta escolha revela uma vontade de afirmação do poder da mulher moçambicana? Ou não? É uma escolha propositadamente feminista? Como surgiu este “Deusa D’África”?

D.D.A: Eu sou uma pessoa muito convicta. Eu acredito que tudo aquilo que o homem faz, eu, como mulher, também posso fazer. Não vejo nenhuma diferença. A única diferença que eu vejo é que eu visto saias e vestidos e o homem não pode vestir. Eu sou mais bonita, o homem menos. É a única diferença que há. Em termos de capacidades, competências não vejo nenhuma diferença. Através desta personalidade que eu criei o meu objectivo é mostrar às mulheres que é possível fazermos parte deste universo que é al literatura; deste universo da construção de uma sociedade próspera, de construção da cidadania através da realização dos nossos sonhos, através da nossa auto-confiança. É possível firmarmo-nos no mercado. Agora, em relação à escola do nome Deusa d’África, isto começa na produção do romance “Equidade no Reino Celestial”, em que eu criei a Deusa d’África como a personagem principal da história e apaixonei-me pelo personagem e decidi reencarnar este personagem que é uma entidade que, como diz o nome, é uma personalidade eleita pelos deuses. Nas crenças africanas o que mais abunda é esta crença de se invocarem vários deuses e, falando especificamente de Moçambique, em termos de valores culturais, em termos de costumes, para nós, cada família, cada agregado familiar tem os seus deuses e nós consideramos deuses os nossos ente-queridos, aos nossos familiares quando eles perdem a vida. Acreditamos que eles se tornam nos nossos protectores, mesmo sem vida. São eles que nos guiam os passos, que nos iluminam, que nos protegem dos males  e através desta crença, que reflecte os nossos valores culturais, cada família, cada agregado familiar tem o seu próprio leque de deuses. Quando se fala de um deus ou dos deuses no plural – porque Deus é único – olhamos sobretudo para estes seres sobrenaturais que dão uma protecção, uma tutela aos seus. Acabei por criar esta personagem como uma entidade que aparece com a missão de resgatar os valores africanos através da promoção dos bons modos, da educação, da criação de um ambiente de tranquilidade e de paz. É isto que “Equidade no Reino Celestial” retrata. Esta personagem aparece para promover a paz e a independência, mas a obra também fala da história da colonização e olha-se para a Deusa d’África para alguém que parece intermediar o processo de libertação de África a partir de 1960, que é o ano de África segundo a história universal, pois é o ano em que vários países de África começaram a libertar-se. Esta criação foi feita em torno desta história universal: a Deusa d’África aparece em 1960 para libertar o povo da escravidão, para dizer ao povo: “Despertai! É preciso resgatar os nossos valores culturais. Se nós não nos moldarmos como seres humanos, como seres pensantes, não existirá nenhum outro povo, nenhuma outra pessoa que o venha fazer por nós.

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Uma personagem forte, portanto … O que podemos esperar da Deusa d’África nos próximos tempos a nível editorial? Há alguma obra na forja?

D.D.A: Sim, sim. Há muita produção. Estou a lutar para ver se termino um livro em poesia intitulado “Cães na Estrada e Poetas na Morgue”. É um livro provocativo, de resto como é o meu carácter, de rebeldia. Estou ainda a escrever um romance, “Uma Onça numa Cidade”. Gostava de publicar os dois livros em simultâneo, o romance e o livro de poesia. Tenho ainda outros projectos, da produção de outras obras. De  momento estou a preparar com o escritor Midó das Dores uma obra em poesia com o objectivo de criarmos uma nova escola literária, uma revolução criando uma nova corrente literária dentro das literaturas, com o propósito de fazer algo diferente. De vez em quando sinto que apenas nos limitamos a repetir o que já se faz em termos de correntes literárias e o nosso objectivo é criar uma corrente única que nos identifique como escritores. Como escritores jovens, interventivos e actuais. No fundo, ter uma linhagem única. É nesta escola literária que estamos a trabalhar, para que possamos ter uma literatura com uma linhagem única de escrita que possa ser identificada por marcas próprias.

Marcas relacionadas sobretudo com a cultura moçambicana?

D.D.A: Não só a cultura moçambicana. Uma corrente literária não tem verdadeiramente fronteiras, não é? Uma marca moçambicana, por ser criada por moçambicanos. Porém, para o mundo inteiro. Em termos estéticos vai reflectir os modos, os costumes e a vida moçambicana, porque o que nós escrevemos são vivencias e fruto dos fenómenos sociais do meio onde nos encontramos inseridos.

 

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