Influência da revolução cultural na literatura discutida no último dia do Rota das Letras

O Festival Literário Rota das Letras acolheu ontem uma sessão na qual foi discutida a influência da revolução cultural chinesa na produção literária “Made in Macau”. No painel de convidados estiveram Loi Chi Pang, escritor natural do território, e btr, escritor oriundo de Xangai, a capital económica da República Popular da China.

Echoes Of The Cultural Revolution In Literature_hr_02

Fotografia: Eduardo Martins;

O Rota das Letras deu ontem espaço a uma discussão sobre os ecos da revolução cultural chinesa na literatura produzida em Macau. Loi Chi Pang, escritor local que foi um dos vencedores deste ano do concurso de contos promovido pelo Festival Literário e btr –  escritor, tradutor, crítico de literatura, cinema e arte residente em Xangai – foram os  escritores convidados para uma discussão na qual partilharam perspectivas sobre a literatura pós-revolução. A conversa foi moderada por Eric Chau, vice-presidente do Macau Pen Club, membro da Associação dos Escritores da China (CWA) e presença assídua nas páginas do Ou Mun Iat Pou.

“Eu nunca experienciei a revolução cultural”, começou por dizer btr – nome de pena do escritor chinês – assumindo que pertence a uma geração mais nova e que aquilo que sabe sobre o acontecimento é-lhe passado pelos seus familiares mais velhos ou pelas pesquisas que faz por mote próprio: “A relação entre um indivíduo e a revolução cultural pode ser traduzida na sua relação com a geração dos seus pais. Antes de nascermos, a revolução cultural já tinha terminado, portanto ouvimos apenas histórias e aprendemos com materiais históricos e literários. Mas a minha geração gosta de descobrir as decisões morais tomadas pelos nossos pais durante a revolução cultural, encarando-os como fonte de informação”, afirmou btr.

Para Loi Chi Pang, escritor de Macau que conquistou ontem, pela segunda vez, o concurso de contos dinamizado pelo Rota das Letras com “O Absurdo da Galinha”, defendeu que durante a revolução cultural, os temas dos artigos publicados Macau manifestavam-se “inconsistentes” quando comparados com o que se fazia na China Continental: “Naquele tempo, os trabalhos que não eram publicados continham elementos literários alusivos à revolução cultural. Portanto, a revolução cultural servia de cenário e contexto. Actualmente, raramente consigo encontrar trabalhos directamente relacionados com o tema”, sustenta. Loi sugeriu ainda que “estudar a influência da revolução cultural nos casinos em Macau pode dar azo ao desenvolvimento de um trabalho interessante.”

Eric Chau, o moderador da sessão, defendeu que “existe um espaço vazio naquele período” no que respeita à publicação de materiais: “Não temos acesso a esses materiais hoje em dia, portanto podemos ter de esperar que os historiadores publiquem esses materiais. Sou muito curioso acerca da literatura feita e publicada naquela altura, porque deve haver um processo de desenvolvimento da literatura”, referiu.

Sobre a escrita que tem por mote a revolução cultural, btr assumiu que nunca prestou muita atenção à questão de abordar ou não o tema: “Eu vivi em Xangai e cresci neste ambiente. Nunca pensei muito sobre tocar o tema da revolução cultural. Nunca considerei devido ao meu conhecimento limitado, ainda que já tenha lido vários trabalhos antes”, explica.

Quando questionado sobre se a revolução cultural teve impacto na escrita que produz, Loi Chi Pang defendeu que sim, acrescentando que existem, nos dias de hoje, muitos poemas e trabalhos relacionados com a campanha político-ideológica levada a cabo a partir de 1966: “Pessoalmente, acho que cada escritor se preocupa com o que está a acontecer na sociedade. O pensamento político pode não ser, essencialmente, o mais correcto, mas a maioria dos escritores está a tornar-se cada vez mais envolvido com aquilo que acontece actualmente na sociedade. Eles têm um grande sentido de pensamento crítico”, apontou. J.F.

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